O ano de 2023 é de comemoração para o “Dança do Menino Deus”, criado em 1983 a partir do libido de dos amigos Ronaldo Correia de Brito, Assis Lima e Antonio Madureira de ver surgir um auto de Natal entremeado pelas tradições universais e regionais, sem reproduzir o formato importado de celebração repleto de elementos inexistentes no clima tropical. São quatro décadas da versão com sotaque brasiliano para uma das histórias mais contadas do mundo – com a celebração da 20ª edição desde a estreia no grandioso palco do Marco Zero, com chegada gratuito.
Dirigido pelo renomado repórter Ronaldo Correia de Brito, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura pelo romance “Galileia”, com direção de produção de Carla Valença, da Relicário Produções, o auto de Natal será encenado nos dias 23, 24 e 25 de dezembro, às 20h, com expectativa de atrair mais de 75 milénio pessoas. No terceiro dia, será transmitido ao vivo através do YouTube. Neste ano, o Dança graduação uma vez que José um ator indígena pela primeira vez. No papel de Maria, está uma atriz negra.
Caique Ferraz é do grupo fulni-ô, aldeado em Águas Belas, no Bravio de Pernambuco, um dos únicos do país a resguardar o linguagem nativo. Nascido em Flores, no Sertão, ele vive com a família e participa ativamente de rituais secretos e sagrados promovidos pela população originária. Integra o grupo de teatro Resta1 e fez participação recente na série Cangaço Novo (Prime Video). A pernambucana Laís Senna é uma atriz, cantora e compositora negra com trânsito e reconhecimento em manifestações artísticas do Litoral ao Sertão do Estado.
“A dramaturgia do espetáculo toca o coração das pessoas. Há uma lar que precisa ser achada e uma porta a ser ensejo. São símbolos importantes para homens, mulheres, jovens e crianças. Precisamos fazer essa passagem e o espetáculo gira em torno disso. As músicas são de tradição antiga, melodias que todos memorizam facilmente, porque parecem saber desde sempre”, opina Ronaldo.
O espetáculo é costurado entre a tradição religiosa milenar do promanação de Jesus, fruto de Maria e José, e características incorporadas de folguedos e brincadeiras populares, uma vez que o ritual de rombo da porta do reisado. A plateia acompanha a saga por essa porta, onde moram os pais do menino, em procura de autorização para festejar o promanação dele.
A saga ocorre sob música e dança, conduzida por dois Mateus, interpretados há 20 edições por Arilson Lopes e Sóstenes Vidal – que atualmente contam com os suplentes Daniel Barros e Paulo de Pontes. Pastoris, presépios, lapinhas, cantigas e danças tradicionais se encontram com passos de frevo, maracatu, cavalo marítimo, boi para bordar uma versão extremamente brasileira da história universal.
NOVIDADES
O cantor Almério, sensação da música pernambucana, é novidade entre os cantores. Outra mudança, cênica, é a ampliação de uma passagem para festejar os Reis Magos, com participação inédita e privativo do Maestro Forró e ocupação do palco por 63 artistas – o maior número simultâneo desde a estreia da montagem. Terá também figurino afrofuturista e os bailarinos de Okado do Meio, com hip hop e break, e o percussionista Luan Rian, de unicamente 10 anos.
Porquê numa orquestra popular, os ensaios são divididos por grupos (atores, bailarinos, coro infantil, coro adulto, orquestra e cantores), que se unem ao término para cerzir essa colcha cultural. Silvério Pessoa, Carlos Fruto, Elon, Surama Ramos, Cláudia Rabeca, Isadora Melo, Sarah Leandro, Cláudio Rabeca, Sue Ramos, Lucas dos Prazeres e Carlos Ferreira são os cantores escalados. A orquestra é formada por Alexandre Rodrigues, Aristide Rosa, Emerson Coelho, Henrique Albino, Jerimum de Olinda, João Pimenta, José Emerson, Karol Maciel e Laila Campelo, sob regência de Rafael Marques.
Novos trechos são inseridos a cada ano, a partir da vivência do fundador, de inspirações externas ou mesmo de questões importantes para a sociedade. “Por exemplo, surgem questões urgentes sobre indígenas, religiões de matriz africana e aí nós criamos cenas novas, trazemos essas urgências ao palco”, explica Ronaldo. As 12 músicas originais foram estendidas para tapume de 30 na versão atual. Algumas chegam para permanecer, outras são temporárias e logo dão vez a outras composições.
O Dança se mantém vivo pela relevância do tema, pela íntima relação com a nossa cultura e pela uniforme procura pelo diálogo com o público, sobretudo com os mais jovens. “É importante salientar que a única pessoa velha no Dança sou eu”, brinca o diretor. À encenação no palco do Marco Zero, já foram convidados o grupo Bongar, da País Xambá, e vários artistas da cena sítio, em um propositado e regular rodízio de atores.
O “Dança do Menino Deus” sempre muda, esse é um dos grandes mistérios para o sucesso da montagem. É referto de vida sobre o palco, nos bastidores e na plateia, que acompanha fielmente desde as sessões disputadas no Teatro Valdemar de Oliveira até as temporadas cheias no Marco Zero, com público estimado em 75 milénio atualmente.
SOCIAL
No clima de solidariedade, haverá um ponto de arrecadação de víveres não perecíveis para o programa Sesc Mesa Brasil. O volume arrecadado com a ação será talhado a instituições sociais que atendem famílias em situação de vulnerabilidade social em Pernambuco.
HISTÓRIA
Tudo começou com um esboço de representação teatral idealizada por Francisco Assis Lima e enviada para Ronaldo. Junto com Antonio Madureira, eles o transformaram em nove composições musicais inspiradas em ritmos pernambucanos, nordestinos, brasileiros e ibéricos, germinadas entre cartas trocadas e algumas caras ligações telefônicas pelos parceiros, à idade com 30 e poucos anos. Foram somadas a três clássicos do reisado (“Jaraguá”, “Burrinha” e “Boi”) e materializadas em um disco gravado na extinta Rozenblit e lançado pelo selo Eldorado em 1983.
Estreou no mesmo ano, para uma plateia lotada no Teatro Valdemar de Oliveira. Foram oito anos naquele tradicional palco, atualmente sem tarifa e agonizante, com sinais de ruína do piso ao teto. De lá para cá, foi encenada em centenas de escolas, ruas, pátios, teatros, terreiros, ONGs, assentamentos, quilombos, comunidades indígenas. A disseminação foi impulsionada pelo Programa Pátrio Livraria da Escola (PNBE), através do qual tapume de 700 milénio exemplares já foram impressos – e o Dança inspirou dezenas de montagens natalinas Brasil afora.
A primeira edição no Marco Zero foi em 2004, em arrojada iniciativa de levar o auto de Natal a palco a firmamento destapado, com chegada gratuito. “Tornar real o sonho de um Natal brasiliano para um público tão grande, ao ar livre, exige de nós o envolvimento de um ano inteiro. O invitação de Ronaldo, há 20 anos, foi reptador e instigante. Sabor das grandes causas! Tenho orgulho de ver o portento nos olhos de cada petiz, adulto ou idoso, a felicidade de quem vem de longe, quer ver mais de uma vez. É, também, um estágio anual, mesmo depois de tanto tempo de experiência, pois são muitos os desafios de trabalhar com arte neste país”, conta Carla Valença.
O projeto se avolumou em cenário, participantes, quantidade de músicas, público, impacto social e fãs. Já se somam algumas gerações entre os participantes e admiradores do “Dança do Menino Deus”, idealizado para as crianças brasileiras, mas capaz de emocionar pessoas de qualquer idade. O lançamento do filme, disponível no YouTube, catapultou o alcance, a partir de 2020, agora sem limitações geográficas.
SERVIÇO
Dança do Menino Deus: Uma folia de Natal
Quando: 23 a 25 de dezembro, às 20h
Onde: Terreiro do Marco Zero do Recife (Recife Idoso, Recife)
Entrada gratuito | Classificação: Livre | Duração: 60 minutos
Acessibilidade: Cadeirante, Audiodescrição e Tradutor em Libras
Transmissão ao vivo no dia 25 de dezembro cá