Avenida Paulista
No dia 25 de fevereiro o cenário estava montado e com uma atração peculiar: um imponente trio elétrico atravessava a avenida Paulista, promessa de uma profecia que, por termo, se cumpriu independentemente das míticas 72 horas.
Isto é, o ato em resguardo de Bolsonaro, convocado pelo pastor Silas Malafaia, reuniu 185 milénio pessoas, segundo cômputo do Monitor do Debate Político no Meio Do dedo (USP). Número zero desprezível, sobretudo se considerarmos que o ex-presidente foi enunciado inelegível até 2030, conforme decisão tomada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 30 de junho de 2023.
No conta de seus aliados, quanto mais intensa for a pressão das ruas tanto maior será a possibilidade de anistiar os crimes em série cometidos pelo capitão. Bastaria recordar a tradição muito brasileira de acordos constrangedores e de conciliações macunaímicas.
Ora, as Forças Armadas não chantagearam a sociedade social decretando a Lei da Anistia em agosto de 1979 para blindar os militares antes de proceder à redemocratização sem eleição direta para presidente da República? Estratégia que evoca a elegante sentença do famoso versículo do “Eclesiastes”:
“O que aconteceu, isso acontecerá; o que sucedeu, isso sucederá: zero de novo sob o sol.” [1]
Ma non troppo — deve ter pensado o leitor ousado e mui criativo da Bíblia, o político Malafaia, pois o diretor da manifestação-show transferiu para o espaço público a tendência que domina certas denominações neopentecostais, qual seja, a adoção de templos com paredes pretas, a termo de realçar o pastor no “palco”, a espetacularização do púlpito, “enriquecido” com efeitos dramáticos de luz e raios laser, numa anacrônica atmosfera de discoteca da dez de 1980. Na síntese ácida de um pastor alheio a tais “modernidades”:
Fundo preto. Calça rasgada. Tatuagem. Camisa californiana. Não poucas vezes marombado. Linguagem coloquial, descolada. Tudo de mais avançado que pode viver no meio evangélico; a exceção da mentalidade que segue sendo arcaica.[2]
Em tal mentalidade, simples está, a consulta ao texto veterotestamentário se impõe. Foi a ele precisamente que nosso já espargido rabi de cerimônias recorreu ao apresentar Bolsonaro para a povaréu.
Babilônia
Vale a pena transcrever suas palavras iniciais:
“Graças te damos, Senhor; louvado seja o seu nome.”
A mistura consagrada pelo uso cotidiano da segunda com a terceira pessoa do único, sem qualquer preocupação com a norma culta, confirma a reparo de Sergio Dusilek acerca da “linguagem descolada”.
A sequência é reveladora e não deixe de prestar atenção na trilha sonora pontuando todas as falas, por vezes porquê se fosse pura sonoplastia:
Gente… A Bíblia fala que Sidrac, Misac e Abdênago… Deus não os impediu de entrar na fornalha. Mas o senhor o (sic) impediu de (sic) que o queima o (sic) pegasse.
Não farei glosa qualquer sobre o vernáculo — a misericórdia necessita da discrição. Concentremos nossa atenção na primazia concedida a três personagens do Livro de Daniel, de quem contexto histórico remete ao Cativeiro da Babilônia, que, aliás, tratamos na poste anterior.
Eis porquê se descreve a situação no Macróbio Testamento. Posteriormente a deportação dos judeus, Nabucodonosor II “ordenou a Asfenez, director dos eunucos, que selecionasse alguns israelitas de sangue real e da nobreza”, a termo de prestar serviços ao rei. Pois muito:
“Entre eles havia alguns judeus: Daniel, Ananias, Misael e Azarias. O director dos eunucos mudou-lhes os nomes, chamando Daniel de Baltasar, Ananias de Sidrac, Misael de Misac, e Azarias de Abdênago.” [3]
Os quatro rapidamente se destacaram por suas qualidades, e, “aliás, Daniel sabia interpretar visões e sonhos”. [4] Outros súditos do rei invejavam essa proeminência e decidiram agir.
No capítulo 3, desenvolve-se a intriga que levou à punição mencionada pelo rabi de cerimônias. A oportunidade não poderia ser mais conspícua: “O rei Nabucodonosor fez uma estátua de ouro, com trinta metros de profundidade por três de largura, e o colocou na planície de Dura, província da Babilônia”.
Tanto esforço exigia sua culto porquê autêntica potestade a que todos deveriam se subordinar. Os três judeus, todavia, ainda que tivessem adotado novos nomes, em zero alteraram sua fé. Recusaram-se, portanto, a amar a imagem. Foram prontamente denunciados pelos que cobiçavam sua posição:
“Nabucodonosor, furioso com Sidrac, Misac e Abdênago e com o rosto perturbado pela raiva, mandou conflagrar o forno sete vezes mais do que o hábito, e ordenou a alguns de seus soldados mais robustos que amarrassem Sidrac, Misac e Abdênago e os atirassem no forno aceso incandescente.” [5]
O locutor não se demorou no significado da passagem, ao qual retornarei. Vejamos agora a sequência de seu raciocínio:
Deus não impediu que Davi enfrentasse Golias, mas impediu que Golias vencesse. E hoje nós vamos proferir à Pátria brasileira que levante varão está sobre (sic) as bênçãos de Deus e da Pátria Brasileira.
(Ato falho: Bolsonaro não está sob as bênçãos de Deus, mas sobre elas. Tropeço gramatical que vale por todo um experiência acerca da subordinação da fé sincera de milhões de pessoas ao projeto político dominador de um punhado de pastores oportunistas).
Hebron
A associação do Messias Bolsonaro com o rei Davi é medial na estratégia de manipulação do repertório bíblico por secção de líderes religiosos, metamorfoseados em políticos de ocasião.
Essa estratégia tem uma dupla dimensão. De um lado, assinala o reinado exitoso de Davi e sua luta contra Golias; de outro, valoriza a imagem do “pecante ungido”, propícia para justificar nomes porquê Jair Messias Bolsonaro e Donald J. Trump.
(Na próxima poste, ao tratar da Teologia do Domínio, recuperarei os pecados cometidos pelo rei Davi e a hermenêutica perversa de sua apropriação pela extrema direita.)
Comecemos com o enfrentamento que parecia insensato. No “Primeiro Livro de Samuel” encontramos o incidente. O capítulo 17 introduz o personagem em tese imbatível, cuja roteiro deu origem a uma das narrativas mais apreciadas do Macróbio Testamento. Os filisteus reuniram seu tropa para a guerra e contavam com uma arma única:
“Do tropa filisteu adiantou-se um valente, chamado Golias, proveniente de Gat, com quase três metros de profundidade.
[…]
Golias parou e gritou às fileiras de Israel:
[…]
– Eu hoje duelo o tropa de Israel! Dai-me um varão e lutaremos corpo a corpo.
Saul e os israelitas ouviram o duelo dos filisteus e se encheram de temor.” [6]
Por quarenta dias o filisteu renovou seu duelo sem que um único israelita ousasse aceitá-lo. Coube ao jovem Davi, pastor de ovelhas, realizar o improvável e triunfar sobre Golias.
E só pôde fazê-lo porque, em lugar de encarar o rival em seu terreno, isto é, no domínio da força bruta, lançou mão da astúcia e da habilidade, a termo de evitar o corpo a corpo suicida:
“Quando o filisteu se pôs em marcha e se aproxima de Davi, levante saiu da formação e correu velozmente ne direção do filisteu: pôs a mão no bornal, tirou uma pedra, disparou a fundíbulo e atingiu o filisteu na testa: a pedra se encravou na testa, e ele caiu de bruços sobre a terreno.” [7]
Os alquimistas nunca descobriram a pedra filosofal, capaz de transmutar metais básicos em ouro; já os bolsonaristas obtiveram sucesso e tudo transformam em símbolos que relacionam a seu próprio Messias.
Pois não é tudo cristalino? Golias é a metáfora do Mecanismo, da Engrenagem, do Esquema — de combinação com o sabor do cliente. “Porquê se” fosse o jovem Davi redivivo, Bolsonaro derrotou o Sistema empregando a fundíbulo que muitas vezes empunha porquê prova do que sempre repete: chegou ao poder graças a um modesto aparelho celular, ou seja, à internet — essa promessa de liberdade assegurada pelo poderoso varão estrangeiro, o Ciro dos tempos céleres que correm, Elon Musk.
Avenida Atlântica
Em outras palavras, o folclórico rabi de cerimônias não tem zero de tolo. Em sua semelhança com o Davi que triunfa sobre Golias, Bolsonaro surge porquê um varão perseguido, não em virtude de seus crimes, mas porque enfrentou o Mecanismo!
Essa chave de leitura permite resgatar o vídeo que gravei na Avenida Atlântica, no dia 21 de abril.
Vimos na poste passada que, com argúcia retórica, o locutor-alquimista converteu Daniel em Bolsonaro. Qual a funcionalidade do passe de mágica? A resposta é inequívoca: substanciar a narrativa da perseguição injusta.
Por fim, a leitura do capítulo 6 do “Livro de Daniel” não deixa margem a incerteza: o vate é lançado à Cova dos Leões não porque cometeu crimes, mas em virtude da fé inabalável que nutria por seu Deus.
De igual modo, essa foi a razão do pena de Sidrac, Misac e Abdênago. E, porquê eles, Daniel também sobreviveu à provação, e em recompensa tornou-se ainda mais poderoso:
“Logo o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e línguas da terreno:
‘Tranquilidade e bem-estar! Ordeno e mando: Em meu predomínio, todos respeitem e temam o Deus de Daniel.’
Foi logo que Daniel prosperou durante o reino de Dario e de Ciro da Pérsia.” [8]
Reconhecida a injustiça e celebrada sua cruzada antissistêmica, Bolsonaro-Davi derrotará o gigante Golias-Alexandre de Moraes, e Bolsonaro-Daniel sairá incólume da Cova do STF-TSE.
Tal nível de manipulação hermenêutica seria inconcebível sem o fundamentalismo religioso definidor da Teologia do Domínio.
(Você já sabe: o tema da próxima poste.)
[1] Bíblia do Peregrino. Luís Alonso Schökel (organização e notas). Eclesiastes, 1: 9. São Paulo: Editora Paulus, 2a edição, 2006, p. 1489-1490. Citarei sempre essa edição.
[2] Sergio Dusilek. “Pastores Cool no visual, mas vintage na pregação”. In: Observatório Evangélico: https://www.observatorioevangelico.org/pastores-cool-no-visual-mas-vintage-na-pregacao/.
[3] Na primeira citação, Daniel 1:3; na segunda passagem, Daniel 1: 6-7. Op. cit., p. 2129.
[4] Daniel 1:17, p. 2130.
[5] Na primeira citação, Daniel 3:1; na segunda passagem, Daniel 3: 19-20. Op. cit., p. 2133-34 e p. 2135.
[6] Na primeira citação, I Samuel 17: 4; no segundo trecho, I Samuel 17: 8; na terceira passagem, I Samuel 17: 10-11. Op. cit., p. 522.
[7] I Samuel 17: 48-50. Op. cit., p. 524.
[8] Daniel 6: 26-29. Op. cit., p. 2147-2148.