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A história que a água não levou

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 26/04/2024 às 05:01 · Atualizado há 3 dias

A pilastra de hoje vai falar de paixão. Paixão e romance, no cenário caótico de uma enchente no ano de 1971. É uma história real. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações não terá sido mera coincidência.

Eles se casaram em novembro de 1970, ela com 19, ele com 20 anos. Um jovem par começando a vida em Cubatão, na Baixada Santista. Poucos meses depois, no comecinho de 1971, a cidade sofreu uma das maiores enchentes daquela dezena. Córregos e riachos transbordaram, carros boiavam pelas ruas e avenidas, os muros das casas dobravam feito papel com a violência das águas. Os jornais da era relatam que dezenas de moradores morreram afogados e outros tantos perderam tudo o que tinham.

A moça trabalhava numa fábrica de costura na cidade vizinha, Santos. Naquele dia foi dispensada mais cedo. Ouviu um “burburinho” que dizia: Cubatão estava alagada! Rapidamente tomou o ônibus de volta pra moradia, e ali começava a sua saga.

O coletivo parou no meio do caminho, no bairro do Casqueiro, a pouco mais de seis quilômetros do núcleo de Cubatão. A chuva já invadia o segundo degrau do rodear, não dava para continuar. O restante do caminho ela teria que percorrer a pé embaixo de chuva. Com a ajuda de moradores, passou pela murado que separava a estrada de ferro e seguiu em direção ao trilho do trem – ponto mais superior, e único caminho “viável” para seguir a jornada de volta pra moradia.

Em Cubatão, um moço assustado chegava à moradia da sogra vestindo um shorts minúsculo, típico daquela era. Ele carregando no ombro o terno do conúbio. Ali, em cima de uma máquina de costura encontrou duas crianças, uma de 9 e outra de 12 anos. Eram seu cunhado e cunhada se protegendo da invasão da chuva. Obstinado avisou, “vou a Santos resgatar a mana de vocês”.

Caminhando pelo trilho do trem a moça dividia com as baratas a única opção mais ou menos seca. Elas também queriam fugir da enchente. Sem celular ou internet a catástrofe era invenção por ela em tempo real. Quando finalmente chegou, a cidade estava, nas palavras dela “ um rio só, imenso, o que que eu faço agora”? Na estação do trem, ponto final, ela desceu do trilho. A chuva foi até a cintura. A moça não sabia nadar!

O marido, por outro lado, era vencedor de natação, tinha várias medalhas, treinava em mares e rios da região. A moradia deles ficava na segmento baixa, ele sabia que se ela tentasse chegar até ali, certamente morreria afogada.

Tio Chico, por possibilidade ou providencia do fado, encontrou a sobrinha recém casada caminhando pela chuva na avenida principal e avisou: o rio encheu, não tem mais rua, vá para um lugar superior!

No sentido contrário, o varão nadava por aquilo que antes era uma estrada tentando refazer o caminho da querida. Foram 6,4 quilômetros de braçadas ritmadas interrompidas vez ou outra por tudo aquilo que a chuva destruía pela frente. Os 12 quilômetros finais ate Santos, já distante do núcleo da enchente, ele fez andando ou correndo. Na Rua Bras Cubas, sede da confecção onde ela trabalhava, percebeu que chegou tarde demais.

A missão de resgate do marido foi invenção por ela já na moradia de uma vizinha de sua sogra – o ponto mais superior da cidade que conseguiu chegar caminhando pela chuva, naquele momento, na profundidade do peito. Do outro lado, ele fazia o caminho de volta, andando, correndo e nadando.

O par finalmente se encontrou na rua detrás da igreja matriz. Ele contou que tentou salvar tudo o que podia da moradia recém montada. A leito e o colchão, colocou em cima de quatros cadeiras. O guarda-roupa foi pra cima da leito. A enceradeira, presente de conúbio que ela mais usava, foi deixada em cima do fogão.

No dia seguinte descobriram que uma cadeira havia sucumbido, o guarda-roupa e o colchão foram pra chuva. A cestinha de ovos que enfeitava a mesa da cozinha estava boiando na sala, e a lodo foi implacável. Juntos, nas semanas seguintes, eles limparam, desmontaram e secaram os móveis com uma engenhoca de lâmpadas e ventiladores inventada por ele. O fogão foi descerrado na lateral e posto para secar. Trabalharam em equipe, restauraram e recuperaram tudo aquilo que ainda estavam pagando em prestações. Praticamente zero foi perdido, nem a enceradeira! E dali eles recomeçaram a vida!

Ela nunca aprendeu a nadar, já ele, foi quem me ensinou a paixão pelo mar e pela natação. A moça era Maria de Lourdes, minha mãe, e o rapaz, Elias, meu pai. Meu irmão nasceu dois anos e meio depois da enchente, eu cheguei 5 anos mais tarde, e minha mana, sete. Durante toda a nossa puerícia convivemos com as marcas que a chuva deixou nos móveis dos nossos pais. Lembro de me esconder naquele armário de roupas e não entender por que o fundo dele era “meio solto”. Pela fresta, meus irmãos me pegavam, término do esconde-esconde.

Eu sabia da enchente, mas da tentativa de resgate daquele jovem de 20 anos, e da coragem da moça ao enfrentar águas sem saber nadar, eu só soube hoje. E foi graças ao meu sobrinho de 10 anos, o Murilo. Ele descobriu recentemente o recurso da geração de grupos no WhatsApp. Reuniu o tio, a tia, os primos, a avó e duas tias-avós em um grupo bastante peculiar. Vai dos oito aos setenta e três anos. Hoje, por possibilidade, Tia Ângela, aquela moça de 12 anos que, com o irmão caçula, ficou em cima da máquina de costura para se salvar da chuva, aleatoriamente lembrou da enchente.

Imediatamente eu corri para saber todos os detalhes com a minha mãe. Meu pai, infelizmente, partiu em 2012. Eu perdi a oportunidade de ouvir dele os detalhes da missão resgate. Decidi compartilhar cá essa história uma vez que um lembrete. Não deveríamos deixar nossas histórias flutuarem pra longe da memória. Quanto mais a gente sabe quem é, mais a gente vai pro mundo sem perder o pavimento. “E ao pintar a sua povoado, você se torna universal”.

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