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Trump diz usar aspirina acima da dose recomendada para ‘afinar o sangue’; medida é inefica

Trump disse usar aspirina em dose maior do que a recomendada pelo médico para “afinar o sangue”.

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 07/01/2026 às 05:15 · Atualizado há 2 dias
Trump diz usar aspirina acima da dose recomendada para ‘afinar o sangue’; medida é inefica
Foto: Reprodução / Arquivo

Trump disse usar aspirina em dose maior do que a recomendada pelo médico para “afinar o sangue”.

Médicos explicam que “afinar o sangue” não é um conceito médico; a aspirina não muda a espessura do sangue.

O remédio age nas plaquetas, reduzindo a formação de coágulos, e só é indicado para quem já teve infarto ou AVC.

Aumentar a dose não traz mais proteção e eleva o risco de sangramentos, sobretudo no estômago, intestino e cérebro.

Especialistas alertam que o uso sem indicação médica pode causar mais danos do que benefícios.

que vem tomando uma dose diária de aspirina maior do que a recomendada por seus médicos porque, segundo ele, não quer que “sangue grosso

— O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em entrevista ao "Wall Street Journal passe pelo coração.

A fala expõe uma noção bastante difundida entre leigos, mas que não corresponde ao que a medicina entende como prevenção cardiovascular. Cardiologistas ouvidos pelo g1 explicam que a expressão “afinar o sangue” é popular —e imprecisa— e que o uso indiscriminado da aspirina pode trazer mais riscos do que benefícios.

Pílulas de aspirina — Foto: Patrick Sison/Arquivo/AP Photo

Na prática, o sangue não funciona como um líquido que pode ser ‘engrossado’ ou ‘diluído’ à vontade.

Existe um sistema de coagulação complexo, que precisa estar em equilíbrio

— explica Henrique Trombini Pinesi, pesquisador da Unidade Clínica de Aterosclerose do Instituto do Coração (InCor) e cardiologista da Clínica Sartor.

Em termos simples, as plaquetas funcionam como “adesivos” do sangue: elas se juntam para estancar sangramentos, mas também podem formar coágulos indesejados dentro das artérias. A aspirina reduz essa capacidade de adesão.

O problema é que, quando não há uma doença cardiovascular que justifique esse bloqueio, o organismo perde parte da proteção natural contra sangramentos, o que aumenta o risco de hemorragias —sobretudo no estômago, no intestino e, mais raramente, no cérebro.

A ideia de “sangue grosso” costuma aparecer associada a problemas cardíacos, mas, segundo os médicos, alterações relevantes na viscosidade do sangue são raras e, em geral, ligadas a situações como desidratação grave ou doenças hematológicas específicas —não ao que a aspirina corrige.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 29 de dezembro de 2025 — Foto: REUTERS/Jonathan Ernst

As diretrizes médicas atuais restringem o uso da aspirina à chamada prevenção secundária —casos em que a pessoa já teve infarto, AVC isquêmico, colocou stent nas artérias coronárias ou passou por cirurgia de revascularização do coração.

Segundo o médico de Trump, o presidente usa diariamente 325 miligramas de aspirina, dose acima da chamada baixa dose, mais comum na prática clínica.

Depois de certa dose, não há ganho adicional na prevenção de coágulos, apenas aumento dos efeitos colaterais

— Aumentar a quantidade do medicamento não amplia a proteção contra infarto ou AVC, alertam os especialistas, porque o efeito da aspirina sobre as plaquetas atinge um limite. , explica o cardiologista Henrique Trombini Pinesi.

Com as plaquetas mais inibidas do que o necessário, o organismo perde a capacidade de conter pequenos sangramentos do dia a dia. É por isso que os efeitos adversos mais comuns envolvem o trato gastrointestinal, como gastrite, úlceras e sangramentos no estômago e no intestino. Em situações mais raras, mas potencialmente graves, pode ocorrer hemorragia cerebral.

Fernando Medeiros Cavalcanti, cardiologista do Hospital Icaraí, ressalta que o problema se agrava quando o uso ocorre sem acompanhamento médico.

Idosos, pessoas com histórico de sangramento gastrointestinal, pressão alta descontrolada ou que usam anticoagulantes estão entre os grupos que exigem ainda mais cautela.

Para os especialistas, declarações públicas que tratam a aspirina como um recurso simples para “proteger o coração” reforçam um entendimento errado sobre prevenção cardiovascular.

A recomendação é clara: medicamentos que interferem na coagulação só devem ser usados após avaliação individualizada. Fora disso, o que parece proteção pode, na prática, aumentar o risco de complicações graves

— conclui.

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