Para fazer compras na Gomo Coop, no Centro, é preciso mais do que dinheiro: é necessário colocar a mão na massa — literalmente.
O espaço funciona como uma cooperativa de consumo participativa, modelo ainda pouco comum no Brasil.
Nesse negócio, o cliente precisa se tornar cooperante, adquirindo ao menos uma cota-parte de R$ 100 e se comprometer a trabalhar três horas por mês em alguma função do mercado.
A proposta é reduzir custos operacionais e oferecer alimentos orgânicos e agroecológicos a preços mais justos, fortalecendo a lógica de trabalho coletivo e de apoio a pequenos produtores.
O projeto nasce também como uma reação à alta concentração de marcas no varejo alimentar. Cerca de 70% das compras feitas por uma família vêm de apenas dez grandes fabricantes de alimentos e produtos de consumo, segundo o Atlas do Agronegócio.
SP ganha 1º mercado cooperativo sem patrão, onde cliente é dono e trabalhador
São Paulo ganhou nesta terça-feira (6) o primeiro mercado sem patrão da cidade. Mas para fazer compras na Gomo Coop, localizada na Rua Santa Isabel, no Centro, é preciso mais do que dinheiro: é necessário colocar a mão na massa. O espaço funciona como uma cooperativa de consumo participativa, modelo ainda pouco comum no Brasil.
Neste negócio, o cliente precisa se tornar cooperante, adquirindo ao menos uma cota-parte de R$ 100, e se comprometer a trabalhar três horas por mês em alguma função do mercado, que vai desde operar o caixa e repor mercadorias até limpar o espaço ou atuar em tarefas administrativas.
Na prática, quem se associa à Gomo Coop passa a ser, ao mesmo tempo, cliente, dono e trabalhador do mercado, com direito a um voto nas decisões, independentemente da quantidade de cotas que possua.
Essas tarefas são muito básicas neste momento de abertura, com um número restrito de pessoas. Mas quando todo o funcionamento da loja estiver coberto, os talentos vão poder ser utilizados de maneiras muito inusitadas
— analisa Marilia Risi, facilitadora-geral das reuniões da Gomo Coop, durante a visita do g1 ao local, em dezembro.
Gomo Coop, mercado sem "patrão" que abriu as portas em um formato de teste no fim de 2025 — Foto: Arquivo pessoal
Segundo os idealizadores, a proposta é reduzir custos operacionais, eliminar a figura do "patrão" e oferecer alimentos orgânicos e agroecológicos a preços mais justos, fortalecendo a lógica de trabalho coletivo e de apoio a pequenos produtores.
O projeto nasce também como uma reação à alta concentração de marcas no varejo alimentar. No Brasil, entre 60% e 70% das compras feitas por uma família vêm de apenas dez grandes fabricantes de alimentos e produtos de consumo, segundo o Atlas do Agronegócio de 2018.
Isso, segundo os idealizadores da Gomo Coop, reduz a diversidade de produtos nas prateleiras e limita as escolhas do consumidor.
A ideia é retirar o poder de decisão das grandes indústrias sobre o consumo e devolver à comunidade a escolha sobre o que é vendido e comprado no supermercado
— afirmou ao g1 o cooperante Rene Lima.
O g1 procurou a Associação Paulista de Supermercados (Apas) para comentar a concentração das grandes marcas nos mercados, mas a entidade não quis se manifestar.
Cooperados da Gomo Coop, mercado sem "patrão" em que, para comprar, é necessário trabalhar 3 horas mensais — Foto: João de Mari/g1
A inspiração para a Gomo Coop veio de fora do país. O principal modelo é a Park Slope Food Coop, localizada no Brooklyn, em Nova York, que há mais de 50 anos funciona com base no trabalho mensal obrigatório de seus cooperantes, que são, ao mesmo tempo, donos, consumidores e trabalhadores do mercado.
O modelo também influenciou a criação da La Louve, cooperativa parisiense aberta em 2016 após anos de estudo da experiência norte-americana. A iniciativa francesa ajudou a espalhar o conceito pela Europa, com a produção de documentos e de um documentário sobre o tema.
A ideia de trazer o formato para São Paulo começou a tomar forma em 2021, durante a pandemia, após um encontro quase casual em um curso online sobre cooperativismo.
Nós éramos o único grupo que queria abrir uma cooperativa de consumo. E, de repente, apareceu uma pessoa dizendo que tinha vontade de criar algo inspirado em uma cooperativa que ele tinha visitado em Nova York. Quando ouvimos aquilo, tudo fez sentido
— contou Karina Nishioka, coordenadora de relações da cooperativa.
Os custos iniciais da Gomo Coop foram bancados de forma coletiva, principalmente por meio das cotas-partes (que custam R$ 100) adquiridas pelos cooperantes e de empréstimos solidários feitos por 32 cooperantes fundadores, somando R$ 430 mil. Hoje, a loja tem cerca de 700 cooperados.
Segundo os fundadores, os empréstimos funcionam por meio de contratos de mútuo, em valores variados, com previsão de restituição em quatro parcelas a partir do quinto ano de operação, corrigidas apenas pelo índice oficial de inflação do Brasil, acumulado, sem ganho real.
Outro apoio veio de uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Benfeitoria, que reuniu mais de 400 doadores e arrecadou R$ 103.640, valor destinado exclusivamente à primeira compra de mercadorias.
Cooperados da Gomo Coop trabalhando nas obras do mercado em dezembro de 2025 — Foto: João de Mari/g1
Cada cota-parte da Gomo custa R$ 100. Ao comprar uma cota, a pessoa se torna uma das donas da cooperativa, com direito a um voto nas decisões, independentemente da quantidade de cotas que possua. O conjunto das cotas forma o capital social da cooperativa, que viabiliza o funcionamento do mercado.
Segundo Marilia Risi, cooperante e facilitadora-geral das reuniões da Gomo Coop, o funcionamento segue os princípios clássicos do cooperativismo.
Cada pessoa adquire uma cota-parte, ou seja, é dona de um pedacinho da cooperativa. Ela consome os produtos que desejar e participa da gestão e do funcionamento do espaço doando três horas de trabalho por mês
— explicou.
O objetivo é ter a gestão mais eficiente possível, pelo menor custo possível
— Caso deixe a Gomo, o cooperante pode recuperar integralmente o valor da cota, conforme regras previstas no estatuto. , completou.
As tarefas disponíveis para os cooperantes são diversas. Há funções operacionais, como caixa, carga e descarga de mercadorias, reposição de estoque e inventário, mas também atividades administrativas e de planejamento.
Não é o pior banheiro do mundo
— Segundo ela, até funções menos disputadas, como a limpeza, são organizadas com orientação, equipamentos de proteção e trabalho em equipe. , brincou.
Se uma pessoa é professora de ioga, por exemplo, ela pode oferecer aulas para a comunidade e cumprir o turno mensal dela dessa forma
— No futuro, as possibilidades podem ir além do espaço físico. , explicou.
Produtos do Gomo Coop, mercado sem "patrão" que tem como proposta vender itens orgânicos e agroecológicos — Foto: Arquivo pessoal
O foco da Gomo Coop está em produtos orgânicos, agroecológicos e de pequenos produtores, muitos deles da própria cidade de São Paulo. Entre os fornecedores estão a Associação de Agricultores da Zona Leste e a Cooperapas, da Zona Sul da capital.
A cooperativa também busca reduzir a presença de grandes marcas que dominam o varejo tradicional.
A nossa ideia é identificar marcas fora desse monopólio, que gerem riqueza local e estejam alinhadas aos nossos valores
— explicou o cooperante Rene Lima.
A política da Gomo se baseia em três princípios: qualidade, viabilidade econômica e propósito social. Em alguns casos, produtos simbólicos — como alimentos produzidos por comunidades indígenas — podem ser mantidos mesmo que tenham menor saída, acompanhados de ações educativas.
A promessa de preços mais acessíveis existe, mas vem com ressalvas. Segundo os organizadores, o sucesso do modelo depende diretamente do engajamento da comunidade.
Para isso, é fundamental que os cooperantes concentrem suas compras na Gomo e que o número de participantes cresça.
A gente quer oferecer bons preços para as pessoas cooperantes, mas depende de alguns fatores. Primeiro, as pessoas precisam concentrar as compras delas aqui. E as pessoas precisam aderir ao projeto. O plano funciona com milhares de pessoas. Sete mil, 14 mil, 20 mil cooperantes. Quanto maior for o volume, maior o poder de compra.
Marilia citou ainda o caso de uma das primeiras cooperativas de consumo modernas, fundada em 1844, em Rochdale, na Inglaterra. Na época, 28 trabalhadores criaram um armazém para vender produtos a preços justos, estabelecendo os princípios do cooperativismo.
Famílias se juntaram para comprar em sacas e dividir essas sacas, porque elas não tinham acesso ao mercado. A gente só está continuando isso, o que sempre foi viável para as pessoas. Vamos comprar no atacado e dividir entre a gente
— concluiu.
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