Organizações de direitos humanos acusaram nessa quinta-feira (8/1) as forças de segurança do Irã de atirar contra manifestantes, em meio a relatos de dezenas de mortes em várias regiões do país.
As manifestações começaram no mês passado com protestos na capital, Teerã, contra os graves problemas econômicos enfrentados pela população e a desvalorização acentuada da moeda nacional, o rial. A crise se agravou após anos de sanções internacionais, enquanto o país ainda se recupera da guerra contra Israel em junho.
O movimento, que teve origem com o fechamento de um popular mercado em Teerã em 28 de dezembro, após o rial despencar para mínimas históricas, se espalhou por todo o país e se tornaram manifestações em larga escala que questionam a legitimidade do governo islâmico do país.
Com os protestos se espalhando por todo o Irã, a agência de notícias independente Human Rights Activists News Agency (Hrana), sediada nos EUA, informou que foram registradas manifestações em 348 locais nas 31 províncias iranianas.
Imagens nas redes sociais verificadas pela agência de notícias AFP mostravam uma grande concentração de manifestantes no Boulevard Aiatolá Kashani, uma importante avenida no noroeste da capital iraniana.
Comércios e bazares foram fechados em Tabriz, no noroeste, e na cidade de Bandar Abbas, importante centro da indústria petrolífera no país, segundo vídeos compartilhados por ONGs e ativistas nas redes sociais.
Os protestos são os maiores no Irã desde as grandes manifestações no país ocorridas entre 2022 e 2023, desencadeadas pela morte a jovem Mahsa Amini sob custódia da polícia. Ela havia sido presa por supostamente violar o código de vestimenta para mulheres.
A ONG de direitos humanos Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, afirmou que as forças de segurança mataram pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito menores. Segundo a entidade, esta quarta foi o dia mais sangrento desde o início dos protestos, com 13 mortes confirmadas.
As evidências mostram que a repressão se torna mais violenta e mais abrangente a cada dia
— disse o diretor da IHR, Mahmood Amiry-Moghaddam, acrescentando que centenas de pessoas ficaram feridas e mais de 2.000 foram presas.
A ONU e a comunidade internacional têm a responsabilidade de agir decisivamente, dentro da estrutura do direito internacional, para evitar o assassinato em massa de manifestantes
— instou Amiry-Moghaddam.
A Hrana publicou imagens que, segundo a agência, mostram forças de segurança atirando contra manifestantes com armas de fogo em Kermanshah.
Grupos de direitos humanos também acusaram as autoridades de recorrer a táticas como invadir hospitais para deter manifestantes feridos.
As forças de segurança do Irã feriram e mataram tanto manifestantes quanto civis
— alertou a ONG Anistia Internacional, acusando as autoridades de usar “força ilegal”.
durante esforços para controlar os distúrbios
— Na quarta-feira, um policial iraniano foi morto a facadas a oeste de Teerã , informou a agência de notícias Fars, próxima à Guarda Revolucionária iraniana.
devem ser evitados quaisquer comportamentos violentos ou coercitivos
— O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, instou nesta quarta-feira as forças de segurança a diferenciarem os manifestantes legítimos, motivados pela situação econômica, dos “desordeiros” que agem contra a segurança nacional. Ele pediu o máximo de contenção e afirmou que
A porta-voz do governo, Fatemeh Mohajerani, classificou os manifestantes como “nossos filhos” e defendeu o diálogo.
não haverá clemência para quem ajuda o inimigo contra a República Islâmica
— Menos conciliador, o chefe do Judiciário iraniano, Gholamhosein Mohseni Ejei, alertou que e acusou os Estados Unidos e Israel de tentarem desestabilizar o país.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou nesta quinta-feira tomar medidas drásticas contra o Irã se autoridades do país “começarem a matar pessoas”, alertando que Washington “as atingirá com muita força”.
O ministro do Exterior da Alemanha, Johann Wadephul, por sua vez, condenou o “uso excessivo da força” contra os manifestantes.
os dados em tempo real mostram que o Irã está em meio a um apagão nacional da internet
— A organização de monitoramento online Netblocks afirmou nesta quinta-feira que .
Dados da empresa de internet Cloudflare mostraram uma queda de cerca de 90% no tráfego da web durante a noite. Partes do governo e do aparato de segurança pareciam ter acesso limitado.
Com o serviço severamente restrito, pouca informação consegue sair do país. Apagões na internet iraniana também foram registrados durante os protestos de 2022 e 2023.
Reza Pahlavi, filho do xá deposto pela Revolução Islâmica de 1979 e importante figura da oposição no exílio, convocou protestos de grande porte para esta quinta-feira. Antes do apagão, ele alertou que as autoridades poderiam cortar o acesso à internet para impedir a disseminação de informações.
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