Os Estados Unidos capturaram o ditador Nicolás Maduro na madrugada de sábado (3).
A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o poder interinamente e convocou a população a resistir à intervenção norte-americana.
O governo interino intensificou a repressão nas ruas, com prisões e interrogatórios.
A operação dos EUA dividiu líderes mundiais. Países alinhados a Maduro condenaram a ação, enquanto lideranças de direita elogiaram Trump.
EUA devem 'administrar' Venezuela e extrair petróleo por 'vários anos', diz Trump
No dia 3 de janeiro, a Venezuela acordou sob o impacto de uma operação dos Estados Unidos que resultou no sequestro do ditador Nicolás Maduro. Uma semana depois, o país tem uma nova liderança, que tem cedido à pressão norte-americana enquanto amplia a repressão interna.
▶️ Contexto: A operação norte-americana ocorreu após meses de tensões entre Estados Unidos e Venezuela. A movimentação militar começou ainda em agosto, sob a justificativa do combate ao tráfico internacional de drogas.
💥 O ataque: A ação que tirou Maduro do poder foi desencadeada na madrugada de sábado, 3 de janeiro, após ordem de Trump. Por volta das 2h, no horário local (3h em Brasília), uma série de explosões foi ouvida em Caracas.
Trump afirmou que os EUA vão governar Venezuela a partir de agora. Enquanto isso, o regime chavista tenta demonstrar resistência ao formar um governo interino. Na prática, porém, o país tem dado sinais de influência externa, ao ceder petróleo aos norte-americanos.
🔎Uriã Fancelli, mestre em relações internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, afirma que o governo Trump deve continuar buscando cooperação em temas de interesse próprio enquanto o regime permanece no poder.
Ao longo das próximas semanas, é provável que a repressão interna continue para projetar controle, enquanto os Estados Unidos seguem fazendo exigências concretas, como os barris de petróleo, tornando cada concessão mais difícil de justificar
— disse.
Trump fala sobre ataque à Venezuela — Foto: Reuters/Jonathan Ernst
Na tarde de 3 de janeiro, após o fim da operação militar na Venezuela, Trump deu uma entrevista coletiva no resort de Mar-a-Lago, na Flórida. Diante de jornalistas, ele afirmou que os Estados Unidos vão “administrar” o país sul-americano de forma interina.
Segundo o presidente, o governo provisório funcionará por meio de um grupo designado por ele até que houvesse uma transição de poder.
Trump descartou entregar o poder à líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, afirmando que ela não é respeitada no país. Enquanto não houver uma transição, segundo ele, os Estados Unidos vão dialogar com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez.
Na segunda-feira (5), em entrevista à NBC News, Trump descartou a possibilidade de eleições no país dentro de 30 dias. Ele disse que seria necessário “consertar” a Venezuela antes de qualquer novo pleito.
O presidente também afirmou que Delcy tem colaborado com as autoridades americanas. Ele disse que não está em guerra com a Venezuela, mas declarou que pode autorizar um novo ataque caso o governo interino deixe de cooperar.
Já na quinta-feira (8), em entrevista ao jornal The New York Times, Trump disse que os Estados Unidos vão administrar a Venezuela “por muitos anos” e explorar o petróleo do país.
Vice-presidente e ministra do Petróleo da Venezuela, Delcy Rodríguez, fala à imprensa em Caracas, na Venezuela, em 10 de março de 2025. — Foto: Reuters
Cerca de uma hora após o início do ataque dos Estados Unidos, o governo da Venezuela divulgou um comunicado afirmando que Nicolás Maduro havia decretado estado de emergência e ativado planos de mobilização para derrotar a “agressão imperialista”.
Pouco depois, no entanto, os Estados Unidos confirmaram que haviam capturado o ditador venezuelano. A vice-presidente Delcy Rodríguez disse não saber onde Maduro estava e pediu uma prova de vida.
Com Maduro fora do país, Delcy fez um pronunciamento em rede nacional e convocou ministros e a população venezuelana a resistir a uma intervenção dos Estados Unidos. Ela pediu calma e afirmou que a Venezuela “nunca será uma colônia”.
Após a posse, Delcy afirmou que nenhum “agente externo” governa a Venezuela. Ao mesmo tempo, em um aceno aos EUA, disse que o país está aberto a manter relações energéticas nas quais todas as partes se beneficiem.
membro do grupo paramilitar conhecido como 'colectivos' participa de uma marcha que pede a libertação de Nicolás Maduro, em Caracas, Venezuela, em 4 de janeiro de 2026 — Foto: REUTERS/Gaby Oraa
A Venezuela intensificou a repressão nas ruas após a prisão de Maduro. Cidadãos passaram a ser interrogados em postos de controle, e houve registros de prisões, inclusive de jornalistas.
busca e captura em âmbito nacional de todos os envolvidos na promoção ou no apoio ao ataque armado dos Estados Unidos
— Na segunda-feira, o governo de Delcy Rodríguez ordenou que a polícia iniciasse imediatamente uma .
Na quarta-feira (7), o jornal The New York Times revelou que ao menos 14 jornalistas e outros seis cidadãos haviam sido detidos na Venezuela desde a operação norte-americana.
Nos últimos dias, as forças de segurança interrogaram pessoas em postos de controle, entraram em ônibus públicos e revistaram os celulares dos passageiros, buscando evidências de apoio à destituição de Maduro
— disse o jornal, com base em relatos de venezuelanos e de grupos de direitos humanos.
Em meio ao estado de emergência, moradores relataram o aumento da presença de policiais e agentes de segurança nas ruas, incluindo milícias que atuam mascaradas e armadas.
A ONG Foro Penal informou ainda que dois irmãos idosos foram presos em uma área rural após comemorarem a prisão de Maduro. Segundo advogados, eles dispararam tiros para o alto e fizeram piadas com vizinhos simpatizantes do governo, que acionaram a polícia.
Já na quinta-feira (8), o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, anunciou que o país libertaria “um número significativo” de prisioneiros venezuelanos e estrangeiros. No entanto, ONGs denunciaram que apenas 11 foram soltos.
A operação dos Estados Unidos na Venezuela dividiu líderes mundiais. Países alinhados a Maduro, como Rússia, China, Cuba e Irã, condenaram a ação. Já lideranças de direita, principalmente na América do Sul, elogiaram Trump.
No Brasil, o presidente Lula (PT) divulgou uma nota condenando o ataque. Ele afirmou que os bombardeios e a captura de Maduro representam uma afronta à soberania venezuelana e criam um “precedente perigoso” para a comunidade internacional.
Na segunda-feira, o Brasil e outros 21 países condenaram a operação durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU. Na ocasião, a Venezuela pediu que o órgão atue para impedir que o governo Trump se aproprie de recursos naturais do país.
Durante a sessão, o embaixador da Rússia na ONU, Vasily Nebenzya, pediu a libertação imediata de Maduro e acusou os EUA de serem “hipócritas e cínicos”. Segundo ele, a Casa Branca não escondeu o caráter de uma “operação criminosa” voltada à tomada de recursos energéticos venezuelanos.
nenhum país tem autoridade para agir como polícia ou tribunal internacional
— Já o embaixador chinês na ONU, Fu Cong, disse estar “profundamente chocado” e afirmou que . Ele também achou a ação de “bullying” do governo norte-americano.
Protesto contra os ataques dos EUA à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro na cidade de Nova York — Foto: REUTERS/Jeenah Moon
Para o analista Uriã Fancelli, mestre em relações internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, os objetivos dos Estados Unidos na Venezuela ficaram mais claros ao longo dos últimos dias.
Segundo ele, a ofensiva do governo Trump não tem como foco derrubar o regime chavista nem promover uma transição democrática imediata, mas forçar uma mudança de comportamento do governo venezuelano.
A lógica passa a ser a seguinte: se houver cooperação, as ameaças militares podem ser suspensas, sanções poderão ser aliviadas e investimentos privados estimulados. Se não houver, a pressão continua de todas as formas possíveis
— diz.
Nesse cenário, Fancelli afirma que o chavismo tem se reorganizado em torno da presidente interina, Delcy Rodríguez, que enfrenta um dilema. Ela precisa ceder o suficiente para garantir a sobrevivência do poder, sem desmontar a narrativa de resistência ao “imperialismo”, que ainda sustenta parte da base interna.
É justamente por isso que Delcy permanece ali: porque o regime precisa de alguém capaz de negociar com o exterior, algo que Padrino López e Cabello não conseguem fazer
— afirma.
Segundo Fancelli, o objetivo comum do atual regime chavista é evitar a perda do poder, já que uma ruptura interna teria consequências graves, incluindo risco de prisão, exílio ou morte. Nesse contexto, a tendência é de manutenção da repressão e de negociações pontuais com os Estados Unidos.
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