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França: negociadora revela como polícia atua no combate a terroristas

Há dez anos, a França entrava em uma de suas fases mais traumáticas com o atentado contra o jornal Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2015. O país passaria po...

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 07/01/2026 às 18:35 · Atualizado há 6 horas
França: negociadora revela como polícia atua no combate a terroristas
Foto: Reprodução / Arquivo

Há dez anos, a França entrava em uma de suas fases mais traumáticas com o atentado contra o jornal Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2015. O país passaria por um ano marcado pelo terrorismo islamista, com a tomada de reféns no Hyper Cacher e, em novembro, os ataques contra o Stade de France, bares e restaurantes parisienses e o Bataclan. Naquele período, Tatiana Brillant, então negociadora do RAID — a unidade de elite da polícia francesa —, estava no centro do dispositivo de crise.

Acho que, sobretudo, nossos interlocutores não estavam acostumados a ter mulheres nos grupos de intervenção

— Em entrevista à RFI, ela falou sobre seu trabalho e sobre os desafios da negociação em situações extremas. Durante 13 anos, Tatiana Brillant foi a única mulher oficial no RAID. Uma singularidade que, segundo ela, teve impacto direto nas negociações. , conta. “Na maioria das vezes, a presença de uma mulher causava surpresa”, ressalta.

Em situações em que os interlocutores buscavam provocar ou desafiar as forças de segurança, a dinâmica mudava.

Tenho uma lembrança muito parecida com a de todos os profissionais que atuaram naquele dia

— afirma. As recentes cerimônias de homenagem reacenderam memórias ainda muito vivas. “Dez anos é bastante tempo e, ao mesmo tempo, durante as comemorações, tivemos a sensação de que tudo tinha acontecido ontem”.

Não fico necessariamente revisitando essas datas de aniversário o tempo todo, mas é claro que elas continuam presentes

— Segundo ela, o tempo trouxe um pouco mais de serenidade, mas sem apagar a dor. , diz a ex-negociadora do RAID.

porque foram intervenções muito pesadas para os profissionais envolvidos

— Segundo ela, relembrar esse período continua sendo difícil para quem esteve na linha de frente . “A primeira coisa em que pensamos são, obviamente, todas as vítimas desses atentados. Quando a gente evoca isso, a primeira lembrança vai para as vítimas e para aqueles que ficaram, que perderam pessoas próximas”, conta Tatiana Brillant.

Costumo dizer que existem perfis muito diferentes. O terrorismo é apenas uma dessas categorias. Sempre que existe uma intenção, uma possibilidade de diálogo, e dependendo também das demandas e reivindicações, existe sim espaço para negociação. Eles não fogem à regra

— Durante anos, Tatiana Brillant foi uma das principais vozes do RAID em situações de crise, dialogando com sequestradores, foragidos armados e também terroristas. Uma pergunta surge com frequência: é possível negociar com terroristas? Para ela, a resposta é clara. .

Eles não são os únicos a adotar uma postura de tudo ou nada

— Mesmo no caso de jihadistas decididos a morrer, a negociação não é impossível — embora extremamente complexa. , explica.

Cabe a nós encontrar um ponto de entrada para tentar fazê-los dar um passo de lado e considerar uma alternativa diferente daquela que escolheram

— Em todos esses casos, o desafio é semelhante: .

Isso depende muito do contexto

— O conteúdo da negociação varia conforme a situação. , afirma Tatiana Brillant. “Na maioria das vezes, são eles que trazem os elementos da negociação”.

Já tivemos situações terroristas bem diferentes em termos de reivindicações. Nosso trabalho é escutar atentamente o que está sendo pedido, mesmo sabendo que, num primeiro momento, nem sempre temos condições de atender. A ideia é ver como podemos avançar junto com eles e explorar outras possibilidades

— Muitas vezes, o que está em jogo é o tempo. , explica.

Nossa missão principal é estabelecer comunicação para estabilizar os envolvidos, administrar a tensão e, sobretudo, obter uma rendição

— O papel do negociador é bem definido. , detalha. “Entramos em contato com a intenção de alcançar uma resolução pacífica da crise.”

Nossa intenção principal é pacificar a situação e ser uma alternativa à intervenção armada

— Se o caso envolve um indivíduo isolado, o objetivo é convencê-lo a se entregar. Se há reféns, a prioridade passa a ser a libertação dessas pessoas. .

Exatamente como o grupo de intervenção com o qual atuamos.

— “O objetivo é salvar vidas”, resume.

Nós não somos o elo da cadeia que julga. Outras pessoas fazem isso, esse é o trabalho delas

— Ao iniciar uma negociação, Tatiana Brillant costumava usar uma frase simples e direta: “Estou aqui para ajudar”. Uma postura que pode surpreender, mas que faz parte da lógica do trabalho. , explica.

A ideia é abrir um espaço de comunicação. Se ficarmos presos ao julgamento ou à autoridade, isso nos impede de estar realmente abertos

— Segundo ela, adotar uma postura excessivamente policial ou focada no crime cometido pode bloquear o diálogo. , acrescenta. O foco é compreender as motivações de quem está do outro lado da linha.

Isso permite manter a objetividade e entrar no universo do interlocutor para entender o que o motiva.

— Para isso, empatia e capacidade de escuta são fundamentais. “É indispensável”, afirma. Sem essa abertura, o risco é grande: “Como os atos são muitas vezes dramáticos, a tendência é olhar para a pessoa sob outro prisma, acusá-la ou assumir uma postura de autoridade. Mas o que queremos é estabilizar a situação e compreendê-la.”

Eu estava de plantão com muita frequência, e quando estamos de plantão, há intervenções. São mais de cem, com certeza, mas nunca contei.

— Ao longo da carreira, Tatiana Brillant participou de centenas de intervenções, mas nunca fez essa conta. Para ela, o número nunca foi o mais importante.

Se eu me debruçar sobre esses 13 anos, acredito que conseguiria lembrar de praticamente todas as intervenções.

— Algumas operações a marcaram mais do que outras, por razões específicas. Ainda assim, a memória permanece. E a primeira nunca se apaga. “Ela fica para sempre na cabeça. É o batismo de fogo, o ponto de partida da carreira.” Uma experiência que deixa clara a diferença entre treinamento e realidade: “Existe um abismo entre o treino e o que acontece de fato no terreno”, concluiu.

Leia mais reportagens como essa na RFI, parceira do Metrópoles.

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