Não existe um nível “normal” de desejo sexual; a libido varia entre pessoas e ao longo da vida.
Oscilações são esperadas em fases de estresse, pós-parto, menopausa e mudanças importantes de rotina.
A queda passa a ser um problema quando é persistente e causa sofrimento ou impacto na qualidade de vida.
Dor durante o sexo, ressecamento, cansaço extremo e alterações de humor são sinais de alerta.
Avaliação médica é individual e o tratamento depende da causa; automedicação não é recomendada.
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Em consultórios médicos, a diminuição do desejo sexual aparece associada a dúvidas recorrentes: até que ponto a queda da libido é parte natural da vida? Quando ela passa a indicar um problema de saúde? E por que comparar a própria sexualidade com padrões externos costuma mais atrapalhar do que ajudar?
Quem traz à reportagem as perguntas —e também as respostas a elas— são quatro especialistas em ginecologia, urologia e sexualidade. Ao g1, eles reforçam um ponto central: não existe um padrão universal de libido.
O desejo sexual varia amplamente entre as pessoas e também ao longo da vida de um mesmo indivíduo. Transformar essa variação em régua de normalidade é um dos principais equívocos quando se fala em sexualidade.
Na prática clínica, o foco não está na frequência das relações, mas no impacto que a mudança provoca na vida da pessoa. A ginecologista Raquel Magalhães, do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas, explica que o desejo sexual saudável é aquele que não gera sofrimento.
Se a pessoa tem relações sexuais uma vez por semana, uma vez por ano ou quase nunca, e isso não causa desconforto nem para ela nem para a parceria, não há problema algum
— afirma.
Essa abordagem ajuda a desmontar a ideia de que libido baixa é, automaticamente, sinal de doença. Em muitos casos, trata-se apenas de uma resposta do corpo e da mente ao momento vivido.
O desejo sexual é altamente sensível ao ambiente emocional, físico e social. Períodos de estresse intenso, sobrecarga de trabalho, conflitos familiares, luto ou projetos que exigem grande investimento mental costumam deslocar a energia psíquica para outras prioridades. Nessas fases, é comum que o interesse sexual diminua —e depois retorne.
O mesmo vale para momentos de transição, como o pós-parto, a amamentação, o climatério e a menopausa. A uroginecologista Rebeka Cavalcanti, membro da Sociedade Brasileira de Urologia e da International Urogynecological Association, observa que libido não funciona de forma linear.
O que chama atenção na consulta não é a quantidade, mas a mudança de padrão e o impacto na qualidade de vida
— detalha.
Relacionamentos longos também passam por fases de maior ou menor desejo, o que não significa, necessariamente, perda de vínculo ou falha afetiva.
A linha que separa uma oscilação natural de um problema de saúde não está na ausência de desejo em si, mas na persistência da queixa e no sofrimento associado.
Especialistas recomendam atenção quando a diminuição da libido dura meses, surge sem um gatilho claro ou vem acompanhada de outros sinais físicos e emocionais. Dor durante a relação, ressecamento vaginal, ardor, sangramento, cansaço extremo, alterações importantes de humor ou perda generalizada de prazer não devem ser ignorados.
A dor, em especial, nunca deve ser normalizada. Médicos explicam que o corpo tende a evitar experiências associadas a desconforto, e isso pode levar a um silenciamento progressivo do desejo. Nesses casos, tratar apenas a libido, sem abordar a causa da dor, costuma gerar frustração.
Procure um profissional de saúde se a diminuição da libido:
Alterações hormonais podem influenciar o desejo sexual, mas dificilmente atuam de forma isolada. Na prática clínica, elas costumam se somar a fatores emocionais, relacionais e ao estilo de vida.
O ginecologista Mauricio Abrão, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que a queda da libido quase nunca tem uma única origem. Podem entrar na equação:
Doenças como depressão, ansiedade, diabetes e distúrbios da tireoide também podem interferir na resposta sexual, tanto por alterações metabólicas quanto pelo impacto no humor e na energia. Além disso, medicamentos usados no tratamento dessas condições —como antidepressivos —podem afetar o desejo em parte dos pacientes, embora esse efeito não seja universal.
Embora a queixa exista em ambos os sexos, a forma como ela se manifesta costuma ser distinta. Nas mulheres, o desejo tende a ser mais dependente do contexto: conforto físico, ausência de dor, vínculo emocional e sensação de segurança têm peso central.
Nos homens, a diminuição do desejo frequentemente aparece associada a dificuldades de desempenho sexual. O urologista Rafael Grunewald, disponível na plataforma Doctoralia, destaca a importância de diferenciar queda de libido de disfunção erétil —condição que pode estar ligada a doenças cardiovasculares e metabólicas e exige investigação específica.
Quando a pessoa procura ajuda, a avaliação começa com uma conversa detalhada sobre história de vida, saúde emocional, rotina, sono, uso de medicamentos e qualidade dos relacionamentos. Exames laboratoriais são solicitados apenas quando fazem sentido para aquele contexto específico, não como protocolo automático.
O tratamento, quando indicado, pode envolver ajustes de medicamentos, controle de doenças de base, terapias locais para dor ou ressecamento, acompanhamento psicológico, fisioterapia pélvica ou terapia sexual. A abordagem costuma ser multidisciplinar.
Especialistas alertam para os riscos da automedicação e do uso indiscriminado de hormônios ou suplementos. Além de não resolver a causa do problema, essas estratégias podem trazer efeitos colaterais e aumentar a frustração.
No fim, reforçam os médicos, sexualidade saudável não é cumprir expectativas externas, mas viver o próprio corpo com conforto, autonomia e bem-estar ao longo das diferentes fases da vida.
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