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Aparição de suposta raposa em condomínio aguça curiosidade de moradores e traz alerta em P

Suposta raposa-do-campo foi registrada em condomínio em Paulínia (SP) — Foto: Paulo Valadão

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 09/01/2026 às 14:05 · Atualizado há 1 dia
Aparição de suposta raposa em condomínio aguça curiosidade de moradores e traz alerta em P
Foto: Reprodução / Arquivo

Suposta raposa-do-campo foi registrada em condomínio em Paulínia (SP) — Foto: Paulo Valadão

O que você faria se ficasse sabendo que existe uma raposa circulando pelos arredores da sua casa? Para quem gosta de natureza essa é uma notícia que instiga e motiva a uma simples ação: registrar a presença desse ilustre visitante.

Eu fiquei sabendo da presença dessa possível raposa por um amigo meu que é biólogo e observador de aves. Eu estava fazendo atividade física quando ele comentou que estava com a câmera porque esse animal estava aparecendo à noite na área social

— E foi exatamente isso o que aconteceu com alguns moradores de um condomínio de Paulínia (SP) nos últimos dias. , comenta Regina Brisolla Manzur, escrevente do Tribunal de Justiça e fotógrafa de natureza.

Moradores filmam raposa em área de lazer em condomínio em Paulínia (SP)

Isso ocorreu na sexta-feira (2), depois retornei nessa área do ‘clube’ no domingo (4), na segunda (5) e na terça (6) e o avistei todos esses dias, apenas na quarta-feira (07) que não o encontrei, mas acredito que seja pelo fato do lugar estar muito movimentado

— Pouco tempo depois dela receber a notícia, o canídeo apareceu. , acrescenta a observadora de aves, que chegou a convidar amigos para ver e fotografar o bicho de perto.

Eu comentei com alguns amigos, pois sei que eles gostariam de ver, e deu certo, eles registraram e adoraram. E de fato ver esse bicho de pertinho é sensacional, até porque é um animal difícil de ver na natureza, foi muito legal

— pontua.

Canídeo está sendo observado por moradores que frequentam área de lazer do local — Foto: Paulo Valadão

Aproveitei a primeira oportunidade e fui até lá. Presenciar mamíferos, especialmente um canídeo raro como este, é uma experiência indescritível. Nós percebemos que ele encontrou no gramado do clube um local ideal para se alimentar. O fato de não ser permitida a entrada de cães e a distração das pessoas nas telas contribuem para que ele permaneça despercebido e tranquilo no local

— Paulo Valadão, engenheiro aeronáutico e fotógrafo de natureza, foi um dos amigos que foi convidado pela moradora para fotografar a espécie. , comenta.

Em um primeiro momento, devido ao porte e a algumas características morfológicas, os moradores acreditaram que o visitante selvagem se tratava de uma raposa-do-campo (Lycalopex vetulus) um canídeo endêmico do Brasil e que é considerado ameaçado.

De acordo com pesquisadores trata-se de um indivíduo jovem — Foto: Regina Manzur

Mas ao analisar os registros dos amantes da natureza, pesquisadores do Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado alertaram sobre a possibilidade de se tratar de um canídeo híbrido, resultado do cruzamento de indivíduos de raposa-do-campo com o graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus), espécie que ocorre no Sul do país.

Este indivíduo jovem parece sim ser uma raposa-do-campo. As características morfológicas são mais parecidas com a da raposa, porém não podemos descartar a possibilidade de que este indivíduo seja de fato um híbrido, pois existem casos de híbridos com características morfológicas mais parecidas com a raposa e híbridos com características morfológicas semelhantes aos graxains.

— explica Giulianny Machado, bióloga e pesquisadora do PCMC.

Apesar de parecer um caso inédito, a hibridização entre esses dois canídeos que ocorrem no Brasil já é conhecida pela ciência há mais de dez anos. E devido à ocorrência de casos conhecidos de canídeos híbridos em regiões próximas como Piracicaba (SP), por exemplo, não se deve descartar a possibilidade do animal registrado não ser de fato um indivíduo puro.

Aparição de canídeo em condomínio atraiu olhares de fotógrafos de natureza — Foto: Regina Manzur

Enquanto para o animal essa aproximação nas áreas urbanas pode ser um grande risco, para os moradores é uma oportunidade de se encantar com a natureza. Casos assim por sua vez, comprovam como, no dia a dia, o cidadão comum, pode contribuir com a ciência, ao gerar registros e informações e também ajudar a conscientizar mais pessoas.

Este registro me fez lembrar o encontro entre o Pequeno Príncipe e a Raposa, e devemos nos sentir responsáveis pelo o que nos cativa, protegendo esse canídeo e respeitando, observando-o com cuidado para que ele possa se alimentar e sobreviver num ambiente tão próximo à ocupação humana

— diz Paulo.

À direita, graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus) e à esquerda, raposa-do-campo (Lycalopex vetulus) — Foto: Jeferson e Kennedy Borges / iNaturalist

De acordo com pesquisadores, desde 2010 estudos vêm comprovando a ocorrência de casos de canídeos híbridos em diferentes regiões do interior paulista. Uma situação que preocupa, já que os indivíduos que são frutos do cruzamento entre essas duas espécies deixam descendentes que continuam perpetuando essa mistura e enfraquecimento genético. A situação é considerada grave, principalmente a raposa-do-campo que é uma espécie ameaçada de extinção.

Mas afinal, por qual motivo essas duas espécies estão se encontrando e reproduzindo, já que naturalmente não dividem o mesmo ambiente? A resposta está na antropização. Graças à interferência humana, que causou também mudança dos ambientes naturais, essas duas espécies passaram em um determinado momento a se encontrar. Com aumento de pastagens e ambientes abertos, os graxains começaram a se deslocar para o Sudeste, e passou a encontrar a raposa-do-campo no interior paulista.

Raposa-do-campo é espécie endêmica do Cerrado — Foto: Frederico Gemesio Lemos e Fernanda Cavalcanti de Azevedo

O canídeo de pequeno porte pode pesar até 4 kg e é conhecido também como raposinha ou raposinha-do-campo. Apresenta o corpo delgado com pelagem marrom-acinzentada, ventre e extremidades dos membros são mais claros. A cabeça é pequena, o focinho é curto e enegrecido. Destacam-se as orelhas grandes. Possui como característica marcante manchas na base e na ponta da cauda, que agem como impressão digital do animal.

É um carnívoro, porém se alimenta também de insetos, como cupins e besouros. De hábito crepuscular e noturno os indivíduos dessa espécie apresentam comportamento solitário na maior parte do tempo. No período reprodutivo, meados de abril podem ser avistados aos pares. Utilizam tocas que são geralmente adaptadas de buracos feitos por tatus.

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