O Data Center da rede social TikTok, que deve ser instalado em Caucaia, nas proximidades do Multíplice Industrial e Portuário do Pecém, continua no meio de uma intensa discussão sobre o uso de chuva para manter as máquinas funcionando sem interrupção. Porém, o presidente da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), Yuri Castro, considera que o sítio terá “um consumo muito simples”.
Em entrevista ao Quotidiano do Nordeste, o gestor garantiu que o uso projetado para o empreendimento “não é muito significativo” e, mesmo em potencial supremo, não corresponderá ao consumo quotidiano de um condomínio com 150 famílias.
Em abril deste ano, a Secretaria dos Recursos Hídricos (SRH), à qual a Cogerh é vinculada, concedeu dois documentos de Outorga do Recta de Uso da Chuva para que o Data Center explore dois poços no região de Catuana, pertencente à bacia hidrográfica da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) - o maior meio consumidor de chuva do Estado.
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Cada poço teve um volume outorgado de 26.280 m³/ano, com vazão de 0,83 l/s e captação autorizada 24 horas por dia, sete dias por semana. Ou seja, ao todo, a SRH permitiu 52.560 m³/ano e vazão contínua de 1,66 litros por segundo.
Isso dá uma média de 144 milénio litros por dia, considerando os 365 dias do ano.
O pedido de licença prévia do Data Center, ao qual o Quotidiano do Nordeste teve chegada, solicitou uso de 19,7 milénio litros/dia, considerando consumo quotidiano totalidade abrangendo uso sanitário, regadura e sistemas de Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado. Um valor sete vezes menor que o autorizado.
Ou seja, a empresa responsável pelo empreendimento poderá utilizar todo o volume outorgado pela SRH, embora alegue que precisará de menos.
“Quando a gente fala na estudo da outorga, é muito simples: ela vê a disponibilidade hídrica frente ao uso. Logo, se não tem uso, tem disponibilidade”, explica Yuri Castro. Segundo o presidente, o uso de 144 milénio litros por dia “parece muito”, mas na prática se torna uma vazão “praticamente inexpressiva”.
“Equivale, vamos expressar assim, ao consumo quotidiano de um condomínio de 150 famílias, ou dois campos e meio de futebol irrigados. Logo, é um consumo muito simples”, argumenta.
Segundo o gestor, há consumos muito mais expressivos no Estado. O região industrial do Pecém, por exemplo, consome um tanto em torno de 1.000 litros por segundo. “No caso do Data Center, a gente está falando de uma vazão de 1,6 litro por segundo”, diz. Proporcionalmente, representa 0,001% desse valor.
Aliás, Castro diz que a outorga ocorreu dentro de um terreno privado, com poços construídos pelo próprio empreendimento, ou seja, não deve impactar no provimento público da população. “Logo, não tem zero de irregular no que foi outorgado”, acredita.
A outorga da SRH é válida até abril de 2035. Conforme o documento, “o outorgado responderá social, penal e administrativamente, por danos causados à vida, à saúde, ao meio envolvente e pelo uso inadequado que vier a fazer da presente outorga”.
Licenciamento em estudo
Desde o pregão da instalação, o processo de licenciamento do Data Center Pecém é cândido de críticas por secção de povos indígenas, comunidades tradicionais e entidades ligadas ao meio envolvente e aos direitos humanos.
Para as entidades, o empreendimento gerará impactos sociais e ambientais significativos, uma vez que o consumo massivo de força elétrica e chuva de resfriamento para manter os servidores funcionando ininterruptamente.
Em outubro, o Ministério Público Federalista no Ceará (MPF-CE) solicitou uma perícia técnica para ordenar se o licenciamento prévio já outorgado pela Superintendência Estadual do Meio Envolvente (Semace) foi tempestivo ou se deveria ter exigido um método mais rigoroso.
A Vivenda dos Ventos, empresa responsável pelo projeto, garantiu que o empreendimento é “fundamentado em sustentabilidade e inovação” e reforça o compromisso “com a transparência e o cumprimento rigoroso de todas as etapas de licenciamento ambiental”.
Lula defende sustentabilidade
Até o presidente Lula se manifestou publicamente sobre o caso. Em visitante ao Ceará, na última quarta-feira (3), ele afirmou que a Transposição do Rio São Francisco não foi feita com o objetivo de abastecer o Data Center.
Estou fazendo a Transposição para resolver um problema crônico de chuva para tomar e consumo doméstico de milhões e milhões de cearenses que precisam.
Ele ressaltou que o projeto é estratégico para a economia do Estado, mas que deve possuir cobranças para o seguimento de diretrizes ambientais corretas. Falando diretamente à diretora de políticas públicas do TikTok Brasil, Mônica Guise, presente na solenidade, ele pediu que o Data Center utilize chuva reutilizada e força renovável e “não mexer na capacidade de consumo do povo cearense”.
O ministro da Instrução, Camilo Santana, também deu uma enunciação: “Vai ser o primeiro data center totalmente ambientalmente correto. Vai usar força renovável 100%, eólica e solar. A chuva será reutilizada em seu ciclo”, ressaltou.
O TikTok Brasil, em parceria com a Omnia e a Vivenda dos Ventos, formalizou investimento de mais de R$ 200 bilhões na construção do equipamento. Para Lula, ele pode servir de exemplo para outras estruturas que possam ser montadas no país.