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Depois da COP 30, segue a luta e a necessidade de ouvirmos as ciências indígenas - Beatriz Jucá

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 05/12/2025 às 07:00 · Atualizado há 16 horas
Depois da COP 30, segue a luta e a necessidade de ouvirmos as ciências indígenas - Beatriz Jucá
Foto: Reprodução / Arquivo

Nos últimos meses, Teka Potiguara deixou a Povoação Mundo Novo, no município de Monsenhor Tabosa, e viajou até Fortaleza para participar de eventos com o intuito de discutir temas a serem levados para a COP 30, a conferência do clima que aconteceu em Belém, no mês de novembro. “Acho que a nossa segmento porquê indígena estamos fazendo. Não estamos desmatando nem fazendo queimadas. Estamos preservando as matas, as caças e os animais”, diz ela. “Estamos fazendo a nossa segmento de deixar a mata em pé”, diz.

O evento acabou sem que os países se comprometessem de roupa com a eliminação de combustíveis fósseis e do desmatamento, mas ficou marcado pela ampla participação dos povos ancestrais. Em plena Amazônia, quase 3 milénio delegados indígenas participaram do evento global, levando seu conhecimento e lutas pela conservação da natureza. Teka Potiguara não cortou o setentrião do país até o Pará, mas acompanhou tudo da Povoação Mundo Novo.

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“Eu não fui para a COP 30, mas acompanhei tudo daqui. Foram vários companheiros indígenas do Ceará: Tapeba, Tabajara. Minha participação maior foi na pré-COP”, conta. Antes da cúpula do clima, Teka falou para parentes e não indígenas sobre os riscos do aquecimento global e a premência de frear o desmatamento. 

Em meio a tudo isso, ela conta que sua luta é global, mas também lugar. “A gente também luta pela demarcação do nosso território. Uma coisa é o território, a outra é a terreno”, diz. “O território tem muitas riquezas. Tem pintura rupestre, a caça, a pesca,a medicina tradicional, as árvores em extinção”, enumera. Dos museus aos sítios arqueológicos, o povo Potiguara tenta preservar o sumo de tudo. Luta pela demarcação, luta contra a mineração de urânio. Sabe que é preciso respeitar a ancestralidade para manter o estabilidade e prometer o porvir. 

A milhares de quilômetros da povoado onde Teka mora, na Amazônia, especialistas indígenas e não indígenas têm defendido que, para possuir porvir, os não indígenas precisam entender que o conhecimento indígena é ciência. Há poucos meses, fiz um trabalho com alguns deles para o veículo jornalístico Sumaúma. À intervalo, ouvi uma lição de Francy Baniwa e Justino Rezende, que ressaltavam a premência de considerar seus fundamentos filosóficos, científicos e políticos e suas contribuições para a sustentabilidade nestes tempos de emergência climática. 

Legenda: Marcha Global dos Povos Indígenas, evento paralelo à COP30, aconteceu em novembro, em Belém (PA).

Foto: Bruno Peres/Filial Brasil.

Justino, que é doutor em antropologia social pela Universidade Federalista do Amazonas, onde atua porquê pesquisador, e também foi o assessor e técnico em questões indígenas durante o Sínodo da Amazônia no Vaticano, nos lembra que todos os povos têm capacidade de pensar sobre o mundo, sobre seus territórios, sobre heterogeneidade de vidas. 

“Não existe nenhum povo que não consiga fazer essa leitura profunda de sua veras. A antropologia, ou filosofia ocidental grega, chamou isso de cosmologia, cosmovisão, cosmovivência. Logo [é] levante sentir, [esta] capacidade de enxergar, de saber organizar. Em Tuyuka se diz wedé-iño-tiré, que significa “falar-mostrar-fazer”. Essa é a emprego da ciência, a emprego dos conhecimentos que os nossos especialistas vão elaborando a partir da sua compreensão do cosmo, do mundo, dos territórios, do mundo das águas, das florestas, através de diversas práticas de vida”, muito pontuou. 

Com Francy Baniwa e seu livro Umbigo do Mundo, recebemos um invitação para nos iniciar a outros saberes, outras fórmulas.

“Às vezes, você acha que já conhece seu mundo porque nasceu para esse mundo seguindo regras, seguindo orientações, mas você nunca questiona o porquê de toda essa orientação rígida, que tem a ver com o corpo, que tem a ver com lugares sagrados, que tem a ver com território, que tem a ver com o humano e os animais do território, com o território vivo.Mas você nunca se questiona sobre o processo de porquê isso surgiu”, disse naquela lição para Sumaúma.

Ela conta que ortografar o Umbigo do Mundo sob a orientação do pai a fez repensar milénio vezes o próprio mundo, a partir das explicações sobre as ciências indígenas, as antropologias indígenas e os conceitos Baniwa. “É olhar para o mundo e saber que aquele mundo é vivo, respira porquê nós, é um grande xamã. Você vê que está em um território vivíssimo. Tem que ter esse olhar”, ela disse naquela ocasião.

Precisamos aprender com os indígenas porquê olhar para levante mundo para produzir futuros possíveis. A COP 30 em Belém diversos povos dos mais variados lugares do Brasil, embora tenha deixado mesmo compromissos — necessários! — pelo caminho porquê tantas outras conferências. Que na luta que vai continuar, as ciências e vozes indígenas sejam protagonistas.

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