Operação "One Way Trip" mira transportadoras e bloqueia R$ 1 milhão em bens de organização criminosa que enviava entorpecentes para Europa e Ásia
Fortaleza, CE – A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira, 10 de dezembro de 2025, a Operação "One Way Trip" (Viagem só de ida), com o objetivo de desmantelar uma sofisticada rota de tráfico internacional de drogas que utilizava o Ceará como ponto estratégico para envio de entorpecentes a países da Europa e Ásia. A ação mobilizou dezenas de agentes da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO/CE) e resultou no cumprimento de mandados de busca e apreensão em transportadoras suspeitas de atuarem de forma coordenada com a organização criminosa.
Segundo informações divulgadas pela PF, foram solicitadas medidas cautelares de bloqueio e sequestro de bens e valores da organização criminosa, totalizando aproximadamente R$ 1 milhão. A investigação revelou que o grupo realizava viagens com destino a países europeus e asiáticos, tendo sido identificadas rotas específicas para França e Tailândia.
Investigação iniciou após flagrante
O caso ganhou dimensão após a prisão em flagrante de uma transportadora de drogas que realizou o transporte interestadual de aproximadamente 40 quilos da droga conhecida como skunk — uma variedade de maconha com alta concentração de THC — de Belém, no Pará, para Fortaleza. A partir dessa apreensão, as autoridades policiais iniciaram uma investigação minuciosa que revelou a existência de uma rede estruturada de tráfico internacional.
"A apreensão inicial foi apenas a ponta do iceberg. Ao aprofundarmos as investigações, identificamos toda uma logística complexa envolvendo múltiplas empresas de transporte, rotas estratégicas e conexões internacionais", explicou fonte ligada à investigação.
O trabalho de inteligência policial mapeou o fluxo das drogas desde a região Norte do país, passando pelo Ceará, até o destino final em países estrangeiros. A escolha do Ceará como ponto intermediário não foi aleatória: a localização estratégica do estado, com importantes rodovias e proximidade do Porto de Fortaleza e do Aeroporto Internacional Pinto Martins, facilitava a logística do crime organizado.
Transportadoras sob investigação
Um dos focos principais da operação foram empresas de transporte que, segundo as investigações, atuavam de forma coordenada para viabilizar o envio de entorpecentes em âmbito internacional. Os mandados de busca e apreensão cumpridos hoje visavam coletar provas documentais, eletrônicas e materiais que comprovem a participação dessas empresas no esquema criminoso.
Autoridades policiais não descartam a possibilidade de que funcionários dessas transportadoras estivessem diretamente envolvidos ou que a estrutura das empresas fosse deliberadamente utilizada para mascarar o transporte ilícito. A análise de documentos fiscais, registros de viagens, comunicações internas e sistemas de rastreamento faz parte da segunda fase investigativa.
"Organizações criminosas modernas operam como empresas. Elas se aproveitam de estruturas legítimas, corrompem elos da cadeia logística e utilizam tecnologia para dificultar o rastreamento. Nossa função é desmontar esse aparato", afirmou representante da FICCO/CE.
Rotas internacionais identificadas
As investigações apontaram que a droga transportada de Belém para Fortaleza tinha como destino final países da Europa e Ásia, com rotas confirmadas para França e Tailândia. O envio internacional provavelmente ocorria por via marítima, aproveitando-se do intenso fluxo de cargas no Porto do Mucuripe, em Fortaleza, ou por via aérea, utilizando conexões através do Aeroporto Internacional.
A França tem sido historicamente um importante mercado consumidor de drogas sul-americanas, especialmente cocaína e maconha de alta qualidade. Já a Tailândia, importante hub asiático, serve frequentemente como ponto de redistribuição para outros países do continente.
O valor de mercado das drogas em seus destinos finais é exponencialmente maior do que no Brasil. Especialistas estimam que os 40 quilos de skunk apreendidos inicialmente poderiam alcançar valores próximos a R$ 2 milhões no mercado europeu, dependendo da pureza e da demanda local.
Força-tarefa integrada
A Operação One Way Trip é coordenada pela FICCO/CE, força-tarefa que reúne múltiplas instituições de segurança pública. A FICCO é composta pela Polícia Federal, Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE), Polícia Militar do Ceará (PMCE), Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE), Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN) e Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização do Estado do Ceará (SAP).
Essa integração permite o compartilhamento de inteligência, recursos operacionais e expertise técnica, potencializando a eficácia das ações de combate ao crime organizado. Nos últimos anos, a FICCO/CE tem sido responsável por desarticular diversas organizações criminosas que atuavam no estado, especialmente aquelas ligadas ao tráfico de drogas e armas.
Bloqueio de bens e valores
Além das buscas e apreensões, a Justiça Federal autorizou o bloqueio e sequestro de bens e valores pertencentes aos investigados, totalizando aproximadamente R$ 1 milhão. Essa medida visa impedir que os recursos obtidos ilegalmente sejam movimentados, escondidos ou utilizados para financiar outras atividades criminosas.
O bloqueio patrimonial é uma ferramenta fundamental no combate ao crime organizado, pois atinge diretamente a capacidade financeira das organizações criminosas. Imóveis, veículos, contas bancárias e investimentos podem ser objeto de sequestro judicial quando houver indícios de que foram adquiridos com recursos provenientes de atividades ilícitas.
"Não basta prender pessoas. É preciso desmantelar a estrutura financeira do crime organizado. Quando bloqueamos bens e valores, estamos cortando o oxigênio que permite que essas organizações continuem operando", explicou fonte do Judiciário.
Ceará como rota estratégica
O Ceará tem sido historicamente utilizado por organizações criminosas como rota de passagem para o tráfico de drogas. A localização geográfica do estado, com extensa costa litorânea, importantes rodovias que conectam as regiões Norte e Nordeste, além de infraestrutura portuária e aeroportuária, torna o território atrativo para a logística do narcotráfico.
Nos últimos anos, diversas operações policiais desarticularam esquemas de tráfico que utilizavam o Ceará. Em abril de 2025, a FICCO/CE deflagrou a Operação Palma, que resultou na apreensão de 435 quilos de cocaína escondidos em um contêiner no Porto do Mucuripe. Em maio do mesmo ano, a Operação "No Show" prendeu dezenas de pessoas envolvidas em uma rede transnacional que utilizava "mulas" para transportar drogas para Europa.
Autoridades de segurança reconhecem o desafio de combater o crime organizado em um estado com dimensões continentais e infraestrutura complexa, mas reafirmam o compromisso de intensificar as ações repressivas e preventivas.
Próximos passos
Com o material apreendido hoje, as investigações entram em nova fase. Documentos, dispositivos eletrônicos, registros contábeis e outros elementos coletados serão periciados para identificar outros integrantes da organização criminosa, mapear rotas adicionais e comprovar as conexões internacionais.
Não se descarta a possibilidade de novas operações nos próximos dias ou semanas, à medida que as análises avançarem. Também há expectativa de cooperação internacional com autoridades policiais da França, Tailândia e outros países envolvidos na rota do tráfico.
Os investigados poderão responder por tráfico internacional de drogas, organização criminosa e lavagem de dinheiro. As penas somadas podem ultrapassar 30 anos de prisão, dependendo da comprovação das acusações e do grau de envolvimento de cada indivíduo.
Impacto social e econômico
O tráfico internacional de drogas não é apenas uma questão de segurança pública, mas também um problema social e econômico. Os recursos gerados pelo narcotráfico financiam outras atividades criminosas, corrompem instituições, geram violência urbana e destroem vidas.
No Ceará, facções criminosas frequentemente utilizam os lucros do tráfico para adquirir armamento, expandir territórios, aliciar jovens e financiar guerras entre grupos rivais. O combate efetivo ao tráfico, portanto, tem impacto direto na redução dos índices de homicídios e na pacificação de comunidades.
"Cada operação bem-sucedida enfraquece o crime organizado e salva vidas. Estamos falando de famílias que perdem filhos para o tráfico, comunidades reféns da violência, jovens sem perspectiva que são aliciados. Nosso trabalho vai além da apreensão de drogas — é um esforço para devolver paz e dignidade à população", afirmou representante da SSPDS-CE.