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Líderes negros trabalham para moldar negócios e abrir caminhos para novas gerações

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 08/11/2025 às 06:01 · Atualizado há 1 dia
Líderes negros trabalham para moldar negócios e abrir caminhos para novas gerações
Foto: Reprodução / Arquivo

Íris Barbosa Barreira iniciou sua trajetória aos 16 anos, como atendente de lanchonete no McDonald’s. Três décadas depois, chegou ao posto de executiva C-level responsável por mais de 100 mil funcionários em 20 países. “As pessoas perguntam como fiquei tanto tempo na mesma empresa. Mas não era o mesmo desafio. Foram 15 cargos diferentes em 31 anos”, contou.
A executiva, que hoje é presidente do Instituto Pactuá, organização que quer acelerar talentos negros nas empresas, dividiu sua experiência durante o Afro Cubo Day 2025, realizado na última quinta-feira (6/11) em São Paulo, pelo Cubo Itaú. Denis Tassitano, vice-presidente regional da SAP para a América Latina e Caribe, também participou do painel. Os dois dividiram suas experiências como líderes negros que chegaram ao topo — e agora trabalham para abrir caminho a outros.
Aos 48 anos, Barreira decidiu trocar o setor de alimentação pela tecnologia, aceitando um convite da Apple. “Era sair da zona de conforto. Eu estava bem no McDonald’s, mas quis me provar em outro ambiente. Foi preciso coragem — e foi a melhor decisão que tomei.”
A transição, explica, só foi possível graças à estabilidade financeira que construiu ao longo da carreira.
“A gente fala pouco sobre dinheiro. Mas construir liberdade financeira me deu a segurança de me arriscar. Isso é fundamental, especialmente para mulheres negras.”
Foi na Apple que Barreira se deu conta da escassez de representatividade em cargos de liderança. “Eu era 0,4% de mulheres negras. Isso me incomodou. Nunca tinha parado para pensar sobre racismo antes. Quando entendi a dimensão disso, decidi agir”, lembrou. Dessa inquietação nasceu o Instituto Pactuá, criado por um grupo de executivos negros — entre eles, Tassitano, que a acompanhou no painel — para acelerar o desenvolvimento de profissionais negros na alta gestão.
“O Instituto foi criado para transformar indignação em impacto real”, afirmou Tassitano. A organização atua em três pilares: conexão, inspiração e educação, promovendo mentoria, formação técnica e fortalecimento emocional. “Queremos destravar o caminho de quem já está perto do topo, mas enfrenta barreiras invisíveis”, completou.
Em um dos momentos mais marcantes da conversa, Tassitano falou sobre o desafio de lidar com a rejeição. “A maior parte da vida de qualquer profissional é negativa. Eu, como executivo de vendas, aprendi a lidar com o ‘não’. Mas quando não sou escolhido, reflito: será que eu estava preparado? Será que dominava o idioma, tinha o repertório ou os relacionamentos necessários?”, disse.
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Para ele, é essencial agir sobre o que está ao alcance. “Não dá para atuar em tudo. Se é preconceito, é difícil combater sozinho. Mas eu posso atuar no que me cabe: aprender, me preparar, me conectar.”
Barreira concorda. “Se vocês tiverem que sair daqui com uma palavra, que seja 'preparo'”, disse. A executiva lembrou que já perdeu uma promoção por não dominar o inglês — e, depois, conquistou outra por falar espanhol. “Fui estudar por iniciativa própria. Quando surgiu a vaga de líder de treinamento para a América Latina, fui escolhida justamente por falar espanhol. Então, se preparem. E se preparem com coisas relevantes, que importam para o futuro.”
Além do preparo, ela destaca o posicionamento. Barreira contou que, em uma empresa anterior, pediu para participar de uma reunião estratégica da qual não tinha sido convidada. “Entrei só para ouvir. Na segunda vez, levantei a mão e fiz uma contribuição que mudou a decisão do grupo. Depois disso, passei de ouvinte a referência. Se você tem algo relevante a dizer, levante a mão e fale — porque isso muda o jogo.”
O público reagiu com aplausos quando Tassitano abordou um tema sensível: a autoconfiança.
“A gente tem autoconfiança para o Instagram, para o samba, mas precisa levar essa mesma confiança para o universo corporativo. Vai construindo o seu sim. O que não dá é desistir, porque se a gente recua, deixa de abrir caminho para quem vem depois.”
A fala ecoou quando Barreira complementou: “Às vezes, o outro não confia em você, mas você também não confia em si. O primeiro passo para mudar o jogo é acreditar na sua própria competência.”
O aparente retrocesso nas políticas de diversidade em algumas empresas internacionais, especialmente no Vale do Silício, também foi tema. Barreira reconheceu o desafio, mas defendeu a perspectiva de longo prazo. “Ao longo da história, há avanços e quedas. Mas, a cada ciclo, a gente evolui um pouco. Está longe da velocidade ideal, mas hoje eu, uma mulher negra que começou limpando chão, estou aqui no Cubo Itaú falando sobre liderança. Isso já é um sinal de mudança.”
Outro ponto levantado foi a solidão nas posições de liderança. Tassitano foi direto: “Hoje, a gente não está mais só. O Pactuá e outras redes como Best in Black e Black Empire ajudam a criar comunidade. É mais fácil quando você encontra pares com histórias parecidas.”
Ele reforçou, porém, a importância de não carregar um peso excessivo. “Eu não coloco a pressão de ter que levar todo mundo comigo. Primeiro, coloco a máscara em mim — depois, se posso, ajudo quem está ao lado. Mas ninguém consegue fazer isso se não estiver bem.”
Barreira completou dizendo que o sentimento de solidão precisa ser combatido com movimento. “Às vezes, a mudança é dar adeus a um ambiente que não te cabe mais. É ter coragem de buscar um espaço onde sua trajetória faça sentido.”
Ao final, um participante veterano — engenheiro e ex-executivo — destacou a importância da resiliência negra e da mentoria. Barreira concordou: “Tomar três conduções para trabalhar, enfrentar preconceitos, tudo isso desenvolve competências que o mundo corporativo não mapeia. É coragem, é força. E a gente precisa contar essas histórias, sem medo de parecer vitimista.”
Ela encerrou com uma reflexão: “Quando eu conto que já fritei batata e limpei chão, não é para gerar pena. É para mostrar que todo trabalho tem valor quando é feito com intenção. Isso me trouxe até aqui. A gente não precisa romantizar o esforço — mas precisa reconhecer que ele nos moldou.”
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