Um caso curioso que viralizou no Reddit reacendeu o debate sobre cultura organizacional e descuido corporativo em empresas americanas. Um gerente de serviços recém-contratado em Nova York relatou ter ficado chocado ao descobrir que o escritório que herdou ainda guardava os pertences de um antigo funcionário — morto em 2018 — e que o local havia permanecido intocado desde então.
A história foi compartilhada no fórum pelo usuário u/groovytunesman, que publicou uma foto do ambiente repleto de papéis velhos e objetos acumulados. “Comecei um novo emprego e acabei de receber meu escritório. Acontece que o funcionário anterior morreu em 2018 e eles nunca o limparam”, escreveu. A publicação já acumula mais de 87 mil curtidas.
Em entrevista ao site da revista Newsweek, o profissional, de 36 anos, contou que começou o trabalho em 7 de outubro e foi informado de que o ex-ocupante havia morrido havia sete anos. “Eles disseram que não quiseram remover nada na época, caso a família quisesse algo. Mas desde então nada foi feito. Presumo que por preguiça”, afirmou.
O ambiente também apresentava problemas estruturais. Segundo o novo funcionário, o aquecimento do prédio não funcionava naquela ala, e aquecedores eram proibidos por questões de segurança. “Dois gerentes passaram por aqui depois da morte dele e recusaram o espaço por causa disso”, contou.
Sem apoio da empresa, ele mesmo começou a limpar o escritório. “Grande parte é só lixo e coisas tão velhas que não servem mais”, disse. O episódio, segundo ele, é apenas “um dos muitos sinais de alerta” que percebeu desde que entrou no emprego.
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Apesar do incômodo, o profissional decidiu permanecer no cargo por necessidade financeira: “Preciso do salário. Estou subempregado há algum tempo e preciso organizar minhas finanças.”
Nos comentários do Reddit, a situação gerou espanto. “Como uma empresa não limpa um escritório em sete anos?”, escreveu um internauta. Outro resumiu o sentimento geral: “Mesmo que tenha começado como um gesto de respeito, sete anos é tempo demais. Isso reflete muito mal na gestão.”
Para analisar os impactos desse tipo de situação, a reportagem de PEGN ouviu Eduardo Shinyashiki, neuropsicólogo, especialista em desenvolvimento de competências socioemocionais, escritor e palestrante, e Ana Ferreira, psicóloga e especialista em gestão de pessoas.
Shinyashiki destaca os efeitos de uma decisão como essa sobre os profissionais. "Quando um profissional se vê sozinho diante de uma estrutura abandonada, seja literal ou simbolicamente, o impacto vai muito além do trabalho em si. Ele sente que está carregando algo que não lhe pertence, e isso gera cansaço, frustração e um sentimento de desvalorização. No fundo, é como se a empresa dissesse, mesmo sem palavras: ‘Você está por sua conta’. O que era para ser um momento de mudança, renovo e alegria, torna-se frustração, desânimo e até arrependimento de estar ali."
Ele também dá orientações para lidar com ambientes mal geridos sem perder autenticidade. "O primeiro passo é reconhecer os limites, entender o que é sua responsabilidade e o que pertence à gestão. Depois, é essencial comunicar com clareza, expor a situação ao gestor, propor soluções, mas sem se colocar no papel de ‘salvador’."
Ana Ferreira complementa a análise, focando na liderança e cultura organizacional. "A percepção dos funcionários é fundamental para determinar o que torna uma empresa um bom lugar para trabalhar. Um ambiente que tem, por exemplo, uma xícara de café parada por sete anos mostra total descaso. O impacto de trabalhar em um local sujo é enorme – algo que influencia diretamente a motivação, o bem-estar e a produtividade."