Depois de se formar, ela foi para o mercado de trabalho, mas não conseguiu se adaptar ao status quo. Ela conta que encontrou um cenário que simplesmente tinha de confrontar – um esquema que desvalorizava a mão de obra básica, ou seja, costureiras e modelistas, e priorizava só o criador da marca. “Isso me incomodava demais, porque pensava na minha mãe, arrimo de família, que nos criou com dificuldade porque ganhava pouco”, recorda-se Oliveira.
O caminho natural para ela foi empreender, mesmo sem saber o que era isso nem como fazer direito. Ela se envolveu em diferentes negócios, alguns de cunho social, onde ganhar dinheiro nem era pensado adequadamente. Na época, ela estava interessada em compartilhar seu conhecimento de moda com outras mulheres da Barreira, comunidade de São Cristóvão, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde mora.
Ao lado da mãe, Fafá Souza, 78 anos, transformou a costura e o artesanato em ferramentas de protagonismo para dezenas de pessoas do bairro ao criar oficinas de capacitação em costura para essa população. Era com esses mesmos instrumentos – máquinas de costura doadas e resíduos descartados pela indústria têxtil – que ela produzia peças para comercializar por meio de sua marca, a Retalhos Cariocas, criada em 2008. “É a identidade do meu trabalho: reaproveitar materiais descartados e inserir o Rio de Janeiro como homenagem à cidade que sempre me inspirou a criar moda”, diz.
No final do ano passado, a designer de moda decidiu se organizar para dar uma nova chance ao negócio. “Voltei a estudar, inclusive sobre empreendedorismo, e pude resgatar muitas coisas”, conta. Uma das oportunidades que encontrou pela frente foi o projeto EmpreendaE, oferecido pela Águas do Rio (empresa de saneamento básico do Rio de Janeiro) que disponibiliza uma plataforma onde interessados podem oferecer seus produtos e serviços, dando visibilidade a pequenos empreendedores.
A Retalhos Cariocas foi um dos negócios que se beneficiou. Para Oliveira, só depois dos cursos e de estar na plataforma, algo que aconteceu recentemente, há cerca de dois meses, é que sua empresa, de fato, entrou nos trilhos. “Hoje, minhas atividades são planejadas e presto atenção ao fluxo de caixa. Entendo se é o momento de avançar ou se preciso segurar, e sou capaz de enxergar as forças que tenho e os pontos que preciso aprimorar. Isso é fundamental para direcionar o trabalho”, diz.
Do ateliê de costura, atualmente saem bolsas e bijuterias feitas com retalhos e material reciclável, como garrafas PET e lacres de latinhas de alumínio; e panos de prato, toalhas de mesa e almofadas – as peças podem ser compradas no ponto físico, pelo Instagram ou por telefone, que consta na bio da rede social e, eventualmente, em feiras.
“Agora que me organizei, me vejo como empreendedora e sinto a diferença no trabalho e na administração do negócio. Com novas ferramentas em mãos, estou colocando o conhecimento em prática, desconstruindo vícios e reconstruindo hábitos. Empreender pode ser fácil ou difícil, só depende da gente. Empreendo há muito tempo, mas ainda não tinha aprendido como ter sucesso. Quero crescer, sair deste ateliê, que chamo de Kinder Ovo, para um lugar maior. E quero rodar o Brasil dando workshops para mais mulheres terem inspiração e direção para construírem seus próprios sonhos”, resume.