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Do laboratório à floresta: farmacêuticas paraenses criam cosméticos com insumos amazônicos

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 26/08/2025 às 06:01 · Atualizado há 5 dias
Do laboratório à floresta: farmacêuticas paraenses criam cosméticos com insumos amazônicos
Foto: Reprodução / Arquivo

A Mahá Biocosméticos nasceu em Santarém (PA) em meio a frascos de laboratório e anotações acadêmicas. Criada pelas farmacêuticas paraenses Melissa Silva, 25 anos, e Bruna de Souza, 30, a marca tem como base a valorização dos ingredientes amazônicos e o compromisso com o impacto socioambiental.
Formadas pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), ambas se conheceram na graduação e, ainda em 2020, iniciaram o que viria a se tornar um negócio. “Já estávamos inseridas no universo da pesquisa, e as nossas professoras sugeriram transformar isso em produtos voltados ao mercado, com insumos aqui da Amazônia”, lembra Souza.
A semente da Mahá foi plantada quando Silva desenvolveu uma pesquisa voltada à produção de cosméticos naturais. O nome da marca vem da palavra “Mahá”, que significa murumuru na língua Yanomami, uma das matérias-primas centrais dos produtos. Além do murumuru, outros ingredientes amazônicos nativos da região compõem o catálogo da empresa. Ao todo, as empreendedoras utilizam 44 tipos de óleos e três manteigas diferentes, entre eles o óleo de buriti, castanha-do-pará e o óleo de patalá.
Os produtos da Mahá Biocosméticos são feitos com insumos nativos da Amazônia
Divulgação
O objetivo inicial era atender especialmente aos cabelos crespos e cacheados, um nicho de mercado ainda pouco explorado na época. Em 2021, o projeto saiu do papel após a participação em um edital de aceleração do programa Inova Amazônia, que rendeu um aporte de R$ 36 mil e marcou o início formal do empreendimento, com a criação do CNPJ.
Desde então, a Mahá vem trilhando seu caminho. “A gente tem esse perfil técnico e científico, então passamos anos avaliando, reformulando e testando nossos produtos, sempre com o feedback do público”, afirma Souza. A produção ainda ocorre em ambiente acadêmico, com vendas feitas por WhatsApp e redes sociais. Uma plataforma de e-commerce está prevista para ser lançada em breve.
Além dos testes rigorosos, as empreendedoras apostam em feiras e eventos como forma de aproximação com o público. Para o futuro, têm o objetivo de lançar uma linha de leave-in para todos os tipos de cabelo. Agora, elas também participam de mentorias do Sebrae-PA, focadas no fortalecimento da economia do interior do estado.
Em 2024, a marca fechou o ano com um faturamento de R$ 23 mil e registrou um tíquete médio de R$ 180. O carro-chefe é o kit personalizado, que reúne shampoo e condicionador e custa R$ 140. No entanto, a máscara de nutrição também se destaca, com preços entre R$ 79 e R$ 90.
Mais do que cosméticos: impacto social na Amazônia
Um dos diferenciais da Mahá é o compromisso com a bioeconomia e a valorização das comunidades locais. A marca mantém parcerias com povos indígenas, como a aldeia Tapajós, de onde adquire óleos e manteigas naturais, além da comunidade de mulheres Amélias da Amazônia, que vivem em São Domingos, na Floresta Nacional do Tapajós. Dessa região, a Mahá compra o óleo de andiroba. Além disso, realizam oficinas com essas mulheres para o reaproveitamento dos resíduos da matéria-prima e para a criação coletiva de novos produtos.
“Isso é fazer a bioeconomia circular. Não só promovemos o uso de cosméticos da região, como também devolvemos valor financeiro e cultural para essas comunidades”, explica Silva. A relação é de troca de saberes: as empreendedoras visitam a aldeia, e as mulheres indígenas também têm acesso ao laboratório universitário onde os produtos são desenvolvidos.
Em troca da utilização do espaço da universidade para a produção dos cosméticos, elas oferecem mentorias para projetos de pesquisa e estágios, além de abrir espaço para que estudantes possam conhecer mais sobre o desenvolvimento técnico dos biocosméticos. Também promovem conversas sobre o campo do empreendedorismo, incentivando a troca de experiências com a comunidade acadêmica.
Para as fundadoras da Mahá Biocosméticos, a verdadeira “magia” dos produtos não está apenas no processo de fabricação ou na concepção das fórmulas, mas nas características únicas dos ingredientes utilizados. “São as propriedades intrínsecas dos insumos que usamos que fazem a diferença”, diz Souza.
Os ingredientes são adquiridos de comunidades tradicionais e cooperativas produtoras da região do Baixo Amazonas e também de Ananindeua, município próximo a Belém. Essa escolha faz parte de uma estratégia consciente de fortalecer a economia local e integrar a bioeconomia à cadeia produtiva do negócio.
Além disso, Silva destaca que um dos grandes diferenciais da marca são os produtos personalizados. Os clientes podem relatar as características específicas de seus fios e, a partir disso, as empreendedoras desenvolvem fórmulas sob medida, unindo conhecimento técnico com atenção individualizada.
Desafios para empreender no Pará
Apesar dos avanços, os desafios são muitos. “A logística aqui no Norte é um dos nossos maiores entraves, seja no transporte de pessoas, insumos ou embalagens. Tudo é mais caro e mais difícil fora do eixo Sudeste”, diz Souza.
Ela também destaca a dificuldade em manter uma equipe dedicada integralmente ao negócio e o alto custo da regularização sanitária, especialmente antes da regulamentação para a produção de cosméticos artesanais, que só foi oficializada em 2025. “Antes disso, mesmo sendo artesanais, precisávamos seguir exigências rígidas da Anvisa. Muitos pequenos produtores acabam trabalhando na informalidade porque os custos são inviáveis.”
Souza reforça outro ponto: a falta de preparo para lidar com a parte administrativa. “Na faculdade aprendemos a fazer o produto, testá-lo, melhorar a fórmula. Mas não nos ensinam a emitir nota fiscal, fazer controle financeiro ou gerir um negócio. Isso fomos aprendendo na prática, resolvendo os problemas conforme eles apareciam.”
Apesar dos obstáculos, as duas seguem firmes com o propósito de criar uma marca enraizada na ciência, na floresta e no respeito às pessoas que dela fazem parte. Com conhecimento técnico e conexão com o território. Para Silva e Souza, a Mahá Biocosméticos representa um novo modelo de empreendedorismo amazônico.
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