"Um investidor estrangeiro, por exemplo, pode estar de olho em ter acesso ao mercado consumidor brasileiro. Um estratégico, buscando escala e sinergias. Um de private equity, mirando empresas em setores com oportunidades de crescimento para aumentar o valuation e serem vendidas após alguns anos", diz Claudio Oksenberg, sócio do Mattos Filho Advogados, na área de Societário/M&A.
A pesquisa da Value Capital aponta ainda que investidores e fundos têm levado em consideração aspectos como mudanças geracionais, expansão ou necessidade de capital, ao olharem para médias empresas. Os dados são corroborados por outros levantamentos de mercado. “Isto é menos um tema de porte e mais uma decisão que envolve os blocos ‘dono, empresa e mercado’”, diz Marco França, sócio-fundador da Auddas, consultoria especializada em empresas em fase de expansão.
Em 2024 foram registradas cerca de 1.582 operações de M&A, um crescimento de aproximadamente 5% frente a 2023, de acordo com dados da KPMG obtidos em 43 setores da economia. Em termos de valor, segundo levantamento da RGS Partners, foram R$ 178 bilhões em negócios em 2024, um aumento de 27% em comparação a 2023.
Fusões e aquisições, segundo os especialistas, devem ser vistas como etapas na trajetória de empresas, sejam elas familiares, médias ou emergentes. Não é o fim da linha. As ferramentas devem ser encaradas como uma transação financeira que transforma a estratégia e exige um novo planejamento, uma nova reflexão e um renovado profissionalismo.
“Antes de pensar em fusão ou venda, é fundamental que o dono entenda onde ele está nesses três aspectos: ele como dono, empresa e mercado”, diz França, da Auddas. As perguntas a serem feitas são: Qual seu momento de vida? A empresa está estruturada? O mercado oferece boas oportunidades ou enfrenta turbulências? Essas reflexões estratégicas ajudam na decisão por um M&A — e não apenas se a empresa “tem tamanho suficiente”. Muitos negócios médios podem não ser grandes, mas apresentam diferencial competitivo que atrai investidores específicos.
"Para uma M&A bem-sucedida em uma empresa familiar de médio porte, o ideal é ter um acordo de acionistas claro, em que as regras de governança e de transferência de ações estejam bem delineadas. E que um acionista seja o interlocutor dos vendedores com o comprador, representando os demais acionistas", diz Oksenberg, da Mattos Filho.
Não são raros os casos em que empresas familiares enfrentam o dilema da sucessão — na verdade, no Brasil, isso é bem comum. Quando os herdeiros não têm interesse no negócio, “o M&A surge como uma alternativa que garante liquidez ao fundador e continuidade ao legado”, diz França. A venda total ou parcial da empresa pode permitir que o nome, cultura e história da companhia sigam de certa forma vivos com novos sócios ou gestores, além de trazer capital e governança para seu próximo momento de vida.
Muitos fundadores acreditam que a decisão entre vender uma parte ou toda a empresa é puramente financeira — mas estamos falando, na verdade, do bom, velho e viciante controle. As perguntas que serão feitas: Quem fica no comando? Como será o papel dos antigos donos? Vale mais a pena manter o fundador na gestão ou trazer um CEO do mercado? Essas decisões precisam ser discutidas com antecedência, tudo deve ser debatido e colocado à mesa com pragmatismo, uma opinião unânime dos especialistas consultados.
O interesse dos fundos pode variar. “Alguns buscam empresas em crescimento acelerado, outros focam em negócios com potencial disruptivo e há os que miram empresas mal geridas”, diz França. Ter um diferencial competitivo e atuar em um mercado com bom potencial endereçável são pontos que se destacam. No Brasil, apesar da recuperação dos volumes, fatores do dia a dia como taxa de juros elevada e incerteza fiscal continuam a pesar para investidores estrangeiros e nacionais. "O investidor de médias empresas — seja ele estratégico ou financeiro — busca uma empresa escalável, que cresça significativamente após a transação e sem surpresas contratuais ou de relacionamento", afirma Martes.