Uma pinta na pele acendeu o alerta que levou o pai de Willian Peter Boelcke a descobrir um câncer em estágio avançado. Durante dois anos de tratamento, o futuro empreendedor acompanhou de perto o trabalho dos médicos — experiência que o inspirou a olhar com mais atenção para o mercado de saúde.
Foi desse impulso que nasceu a AI Pathology, startup fundada por Boelcke ao lado de Lucas Lacerda de Souza, dedicada ao desenvolvimento de um algoritmo para detectar câncer de pele.
Inspirado pelo papel dos dentistas em equipes multidisciplinares voltadas ao cuidado de pacientes oncológicos, Boelcke optou por cursar odontologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Desde o primeiro semestre, me interessei por biologia molecular para entender a fundo sobre o câncer e por que ele não tem cura”, diz.
O câncer de pele não melanoma é o mais comum no Brasil, representando 30% dos tumores malignos registrados. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), mais de 220 mil novos casos são estimados anualmente no país entre 2023 e 2025.
Boelcke conheceu o sócio durante o doutorado, quando Souza venceu um prêmio por um estudo que utilizava inteligência artificial. “Bati na porta dele e disse que ele estava deixando dinheiro na mesa. Já tinha o desejo de empreender e veio a ideia de trabalhar com o câncer de pele por ser um dos mais presentes”, lembra.
A dupla desenvolveu um modelo próprio de IA a partir de redes neurais convolucionais (CNNs), recurso de machine learning usado para classificação de imagens. O sistema foi treinado com créditos em nuvem de big techs, alcançando 75% de acurácia na primeira versão. A parceria com a Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto elevou o índice para 93% e permitiu a análise de 90 mil imagens.
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Esse resultado levou a AI Pathology a ser selecionada no hackathon de inovação em saúde da Harvard em 2025, o que garantiu incubação e investimento da instituição. “No Brasil, a dificuldade é grande para receber investimentos, mas há fomento público fora do país”, observa Boelcke.
Como funciona
O algoritmo Nevo identifica precocemente indícios de câncer de pele a partir de fotos feitas por celular. O sistema é acessado via QR Code, sem necessidade de app, e integrado a plataformas médicas, acelerando a triagem de pacientes.
Treinado com imagens de brasileiros, o modelo carrega diversidade genética e étnica considerada vantagem competitiva. “Temos a maior diversidade de peles do mundo. Isso permite exportar a tecnologia sem viés. Hoje, a maioria dos algoritmos é treinada com peles brancas. Nós levamos o nome do Brasil para o mundo”, afirma.
A solução já é usada em parceria com a Natura, que implementou o sistema entre os 8 mil funcionários, a partir de QR Codes espalhados pelas fábricas. Colaboradores vão enviar imagens trimestralmente por um ano, e os casos suspeitos serão encaminhados à equipe médica da companhia. Boelcke estima que entre 20 e 40 diagnósticos relevantes sejam identificados.
Com a licença da Anvisa prevista para outubro, a startup pretende acelerar a expansão. O plano é atuar em setores de alta exposição solar, como agronegócio e esportes, além de negociar a integração ao SUS.
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Para sustentar a estratégia, a empresa abriu uma rodada no exterior de US$ 1 milhão (R$ 5,3 milhões) por 10% da startup. “Nos EUA sentimos um tapete vermelho, enquanto aqui ouvimos que ainda é cedo ou que pedimos um cheque alto demais. O apetite para healthtechs e deeptechs no Brasil é baixo”, avalia.
A AI Pathology prepara também a entrada nos Estados Unidos em 2026, mantendo a sede no Brasil. “Lá, o atendimento é prioritariamente privado, e a pressão para reduzir custos é grande. Queremos expandir para a Europa também, é um plano megalomaníaco, mas com muito potencial”, finaliza Boelcke.
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