O resultado da última reunião do ano aproxima a Selic do valor em que estava em janeiro: 11,75%. Na época, a previsão do Boletim Focus era encerrar o ano em 9%. O indicador chegou a 10,5% em maio, valor no qual ficou estacionado até setembro, quando subiu para 10,75%. Em novembro, mais uma alta, para 11,25%.
“2024 começou com um cenário muito mais favorável. A inflação estava sob controle, mas está subindo bastante. O quadro mudou de maneira rápida e radical”, diz Alexandre Espírito Santo, coordenador de economia e finanças da ESPM. “Enquanto a taxa de juros estava caindo, tivemos um aumento do crédito que aqueceu o consumo, o que também pressionou a inflação.”
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor, que mede a inflação, subiu 0,39% em novembro — o resultado acumulado nos últimos 12 meses foi de 4,87%, acima do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A meta é de 3% para 2024, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual, para mais ou para menos.
A alta da inflação esteve relacionada a diferentes fatores, como o crescimento econômico do Brasil, influenciado por indicadores como Produto Interno Bruto (PIB), que avançou 0,9% no terceiro trimestre de 2024 (uma alta de 3,3% no ano), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O percentual de desempregados no país caiu para 6,2% no trimestre encerrado em outubro, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua).
Os eventos climáticos, como as enchentes no Rio Grande do Sul e as queimadas, também tiveram a sua participação. “O aumento do índice pluviométrico e da temperatura afetam algumas culturas, o que dificulta a vida dos produtores em manter a oferta”, afirma Renan Pieri, professor de economia da FGV-EAESP. Ele também cita uma percepção do mercado de que faltou ao governo ímpeto para cumprir o arcabouço fiscal e estabilizar a dívida pública.
“Ocorreu uma expansão relevante de gastos, como o aumento de programas sociais. O governo diz que o ajuste fiscal acontecerá, que a dívida será estabilizada, que segurará gastos, e que as taxas de juros poderiam voltar a cair, mas as pessoas não estão convencidas disso. O pacote de gastos anunciado recentemente vai na direção correta, mas foi visto como insuficiente”, afirma Pieri.
Com o aumento da Selic nos últimos encontros, o momento é de cautela e conservadorismo ao solicitar crédito, diz André Sacconato, economista da FecomercioSP. “Hoje temos um mercado de trabalho aquecido, com a renda subindo e uma mínima histórica de desemprego. A economia continuará aquecida nos próximos dois meses, mas a perspectiva não é da manutenção desse crescimento. Não dá para esperar que o governo brasileiro injete tanto dinheiro na economia como nos últimos dois anos”, afirma.
O economista sugere que os empreendedores sejam seletivos no momento de solicitar crédito. “Quando a taxa de juros está alta, o retorno do investimento deve ser alto também para valer a pena tomar crédito. O empreendedor deve olhar se o negócio é promissor o suficiente”, afirma. Segundo Sacconato, os segmentos de turismo, eventos e supermercados estõ em boa fase. Ele também recomenda que o empreendedor faça uma busca em diferentes instituições, como fintechs, que podem oferecer créditos a valores mais baixos.