Foi observando sua mãe e outras mulheres do bairro que Agnes Martins, 41 anos, percebeu que a costura era uma arte intrínseca à cultura da periferia, seja como forma de complementar a renda ou de produzir presentes para a família.
Vinda de Heliópolis, uma das maiores favelas da zona sul de São Paulo, Martins transformou a habilidade herdada ainda na infância em negócio. Hoje, a empreendedora é professora de costura, dona de um ateliê e referência nas redes sociais, com alunas não só em São Paulo, mas também em países como Chile e Portugal.
Dos R$ 300 ao negócio próspero
Em 2009, Martins foi demitida e decidiu investir os R$ 300 que tinha em uma máquina de costura usada e alguns materiais básicos. "Eu comecei fazendo ecobags pra vender. No início, era tudo muito simples. Usava o material mais barato que conseguia encontrar e transformava o que tinha em algo acessível", relembra.
Sem experiência no mundo dos negócios, vendia cada ecobag por R$ 15. A costura era vista como um “bico”, um trabalho esporádico para ajudar nas contas do mês. No ano seguinte, ela conseguiu um emprego como analista de crédito em uma fábrica de roupas. Embora o cargo não fosse ligado à costura, essa oportunidade permitiu que ela conhecesse os bastidores da produção de moda, um universo que a encantou.
“Foi nessa época que me apaixonei de vez pela confecção e pelo artesanato. Mesmo trabalhando em outro setor, eu observava atentamente toda a movimentação da produção”, conta.
Após três meses na fábrica, Martins deixou o cargo e conseguiu uma vaga em um programa do governo federal que custeava um curso de confecção de bolsas no Senai. Ali, começou a vender suas peças com mais frequência e passou a enxergar a costura como uma possibilidade real de renda.
“Montei meu negócio dentro de casa. Ainda não me via como empreendedora, não sabia nada sobre gestão. Eu apenas produzia e anunciava os produtos nas redes sociais”, lembra.
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Em 2013, sua trajetória deu mais um passo importante. Ela foi uma das três finalistas em uma competição promovida pela ONG Aliança Empreendedora e ganhou um prêmio de R$ 5 mil. Com esse valor, montou seu primeiro ateliê fora de casa, em Heliópolis. O Ateliê Agnes Rasta era voltado, sobretudo, para a venda de suas confecções, como bolsas, mochilas e ecobags.
No ano seguinte, surgiu uma nova paixão: o ensino. “Comecei a dar aula por incentivo de uma das minhas professoras do Senai. Foi quando descobri que multiplicar o meu conhecimento, ajudar outras pessoas a produzir, vender e empreender era algo que eu amava fazer”, conta.
Em 2017, Martins lançou seu primeiro curso online. Hoje, são nove publicados em sua plataforma, além do conteúdo gratuito e das aulas que dá ao vivo pelas redes sociais. O negócio cresceu: seu ateliê não é apenas um local de produção e vendas, mas também um espaço criativo onde ocorrem as aulas práticas.
Aula prática no Ateliê Agnes Rasta
Reprodução / Instagram
Em fevereiro de 2020, Martins se mudou para Santo Amaro, também na zona sul da capital paulista, com o propósito de abrir um ateliê criativo, unindo a venda de produtos autorais, confecção e aulas presenciais. No entanto, apenas dois meses após a inauguração, ela precisou pausar as atividades devido à pandemia de Covid-19.
“No início, foi muito difícil. Quebrei, fiquei sem dinheiro, e a pandemia complicou ainda mais”, conta. “Mas consegui negociar o aluguel, conversar com os fornecedores e, mesmo sem poder trabalhar presencialmente, foquei nas redes. Foi nessa época que gravei mais cursos online, que sustentaram minha receita naquele período.”
Hoje, o espaço é dividido em duas partes: loja na frente e ateliê nos fundos. Martins atende turmas de quarta a sábado, com seis alunas por aula, uma por máquina. “Também vendo o material necessário para as alunas confeccionarem suas peças aqui mesmo.”
O Ateliê Aganes Rasta também disponibiliza todos os materiais para as alunas
Divulgação / Marco Carvalho
As aulas avulsas custam R$ 90, com duração de três horas, e o pacote mensal com quatro aulas sai por R$ 349. Segundo ela, cerca de 90% das alunas são mulheres que costuram como hobby, incluindo aposentadas e profissionais que usam a costura como terapia após uma semana estressante. No ateliê, o tíquete médio está entre R$ 150 e R$ 200.
“Essa foi uma mudança linda. Antes, eu atendia só quem queria empreender. Hoje, atendo também quem quer relaxar, aprender e se expressar criativamente. É um espaço afetivo. A gente toma um café, conversa, e no final da aula, a aluna já sai com a peça pronta”, diz.
De aluna a professora em eventos internacionais
Neste ano, Martins participou da Mega Artesanal, o maior evento de artesanato da América Latina, como professora, ministrando oficinas e palestras. “Foi emocionante. Ver minha trajetória me levando para um palco desses me faz perceber o quanto valeu a pena cada esforço, cada noite virada, cada bolsa vendida no começo”, afirma.
A empreendedora Agnes Martins participou como expositora do Mega Artesanal 2025, maior evento de artesanato da América Latina
Divulgação / Marco Carvalho
Martins carrega no sangue o legado da costura periférica. Sua mãe era artesã, fazia roupas, crochê e tapetes para ajudar na renda da família. “Sem perceber, eu cresci vendo essas mulheres ao meu redor criando, costurando, vendendo. Então, mesmo sem a intenção de empreender no começo, estava apenas repetindo um ciclo de força e criatividade que já existia à minha volta.”
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