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Como é a 'universidade de espiões' da França: 'Não sei o nome verdadeiro de vários alunos'

O professor universitário Xavier Crettiez reconhece que não sabe o nome verdadeiro de muitos alunos da sua classe.

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 07/01/2026 às 16:55 · Atualizado há 3 dias
Como é a 'universidade de espiões' da França: 'Não sei o nome verdadeiro de vários alunos'
Foto: Reprodução / Arquivo

O professor universitário Xavier Crettiez reconhece que não sabe o nome verdadeiro de muitos alunos da sua classe.

É uma situação altamente incomum no mundo acadêmico, mas o trabalho do professor também é fora do padrão. Ele ajuda a treinar espiões franceses.

Raramente conheço os antecedentes dos agentes de inteligência quando eles são encaminhados para o curso e duvido que os nomes informados sejam verdadeiros

— ele conta.

Se a intenção era criar um ambiente para uma escola de espionagem, o campus da Universidade Sciences Po Saint-Germain-en-Laye, nos arredores da capital da França, Paris, parece bastante adequado.

Suas austeras construções do início do século 20, com aparência que chega a ser sombria, são cercadas por intimidadores portões metálicos, que levam a rodovias comuns e movimentadas. Tudo muito discreto.

A diferença é o seu diploma único, que atrai igualmente estudantes típicos com pouco mais de 20 anos e membros ativos do serviço secreto francês, normalmente entre os 35 e 50 anos de idade.

O curso se chama Diplôme sur le Renseignement et les Menaces Globales — Diploma em Inteligência e Ameaças Globais, em tradução livre. Ele foi desenvolvido pela universidade, em associação com a Academia de Inteligência, o setor de treinamento do serviço secreto francês.

As aulas foram um pedido das autoridades francesas, uma década atrás. Depois dos ataques terroristas em Paris, em 2015, o governo da França promoveu uma campanha de recrutamento em massa nas agências de inteligência do país.

Por isso, o governo pediu à Sciences Po, uma das principais universidades francesas, que criasse um novo curso para formar possíveis novos espiões e fornecer treinamento contínuo para os agentes atuais.

Grandes empresas francesas também demonstraram interesse rapidamente, tanto para levar seus funcionários de segurança para o curso, quanto para contratar muitos dos formandos mais jovens.

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O curso tem 120 horas-aula e dura quatro meses. Para alunos externos (espiões e funcionários de empresas), o custo é de cerca de 5 mil euros (cerca de R$ 31,7 mil).

O principal objetivo do programa é ensinar os alunos a identificar ameaças em qualquer lugar, como rastreá-las e superá-las.

Os principais temas incluem aspectos econômicos do crime organizado, jihadismo islâmico, coleta de inteligência comercial e violência política.

a inteligência e a dependência excessiva da tecnologia

— Para comparecer a uma das aulas e conversar com os alunos, precisei receber aprovação prévia dos serviços de segurança franceses. O tema da lição era .

Um dos alunos com quem conversei foi um homem na casa dos 40 anos, que se apresenta com o nome de Roger. Ele me conta, em inglês muito preciso e polido, que é banqueiro de investimentos.

Ofereço consultoria em todo o oeste africano e entrei no curso para fornecer avaliações de risco aos meus clientes na região

— ele conta.

Crettiez leciona radicalização política. Ele explica que os serviços secretos franceses passaram por uma enorme expansão nos últimos anos.

Existem agora cerca de 20 mil agentes, segundo o professor, no que ele chama de "círculo interno", composto pelo DGSE, que cuida dos assuntos internacionais (o equivalente francês ao MI6 britânico ou à CIA americana) e pelo DGSI, voltado às ameaças internas (como o MI5 britânico ou o FBI dos EUA).

Mas nem tudo trata apenas de terrorismo, segundo o professor.

Existem as duas agências de segurança principais, mas também a Tracfin, uma agência de inteligência especializada em lavagem de dinheiro.

Ela cuida do aumento da atividade mafiosa, especialmente no sul da França, incluindo a corrupção nos setores público e privado, principalmente devido aos lucros massivos do tráfico de drogas ilegais

— explica ele.

Outros professores incluem um agente do DGSE que já foi destacado para Moscou, na Rússia, um ex-embaixador francês na Líbia e um agente sênior da Tracfin.

O chefe de segurança da gigante francesa de energia EDF também é responsável por um dos módulos do curso.

O interesse do setor privado pelo diploma aparentemente continua em crescimento.

Grandes empresas demonstram cada vez mais disposição para contratar os alunos para enfrentar as implacáveis ameaças de espionagem, cibersegurança e sabotagem. Elas incluem especialmente companhias do setor de defesa e aeroespacial, mas também marcas francesas de produtos de luxo.

Recentemente, os formandos vêm sendo recrutados pela operadora francesa de telefonia celular Orange, pela gigante aeroespacial e de defesa Thales e pela LVHM, dona de quase tudo, desde a Louis Vuitton e a Dior até as marcas de champanhe Dom Perignon e Krug.

Vinte e oito estudantes estão matriculados para as aulas deste ano. Seis deles são espiões.

É possível identificar quem são estes alunos. Eles se reúnem durante os intervalos, longe dos estudantes mais jovens, e não ficam muito entusiasmados quando me aproximo deles.

Com os braços cruzados e sem declarar exatamente seu cargo, um deles afirma que o curso é considerado um trampolim para uma rápida promoção do escritório para o trabalho de campo.

Outro conta que consegue ter ideias novas no ambiente acadêmico. Ambos assinaram a lista de presença do dia apenas com seus primeiros nomes.

Um dos alunos mais jovens é Alexandre Hubert, de 21 anos. Ele conta que queria compreender melhor a iminente guerra econômica entre a Europa e a China.

Observar a coleta de inteligência do ponto de vista de James Bond não é importante

— afirma ele. "A questão é analisar os riscos e trabalhar para combatê-los."

Outra estudante é Valentine Guillot, também com 21 anos. Ela conta ter se inspirado na popular série de TV francesa Le Bureau des Légendes (2015-2020).

Vir aqui para descobrir este mundo que eu não conhecia, exceto pela série de TV, é uma oportunidade memorável

— diz ela.

E, agora, estou muito interessada em entrar nos serviços de segurança.

Quase a metade dos alunos da classe, na verdade, são mulheres. Esta é uma mudança relativamente recente, segundo um dos professores, Sebastien-Yves Laurent, especialista em tecnologia de espionagem.

O interesse das mulheres pela coleta de inteligência é algo novo

— segundo ele. "Elas estão interessadas por acreditarem que irão colaborar para um mundo melhor."

E, se existir uma linha comum entre todos esses jovens estudantes é que eles são muito patriotas e isso é novo, em comparação com 20 anos atrás

— explica o professor.

Se você quiser se matricular no curso, um requisito essencial é possuir cidadania francesa. Mas são aceitas algumas pessoas com dupla cidadania.

O professor Crettiez conta que precisa ser cauteloso na seleção de candidatos.

Recebo regularmente inscrições de mulheres russas e israelenses muito atraentes, com ótimos currículos

— ele conta. "É claro que elas são imediatamente descartadas."

Em uma foto recente do grupo de estudantes, é possível identificar imediatamente quem são os espiões. Eles ficam de costas para a câmera.

Todos os estudantes e espiões profissionais que conheci são elegantes e esportistas, mas Crettiez pretende desfazer o mito das aventuras de James Bond.

Poucos novos recrutas acabarão no campo

— segundo ele. "A maioria dos empregos nas agências de inteligência francesas são para trabalhar no escritório."

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