Autoridades suíças afirmaram nesta sexta-feira (2/1) que o bar atingido por um incêndio devastador durante as comemorações de Ano Novo na estação de esqui de Crans-Montana não passava por inspeções de segurança havia cinco anos.
O fogo deixou ao menos 40 mortos e 116 feridos, segundo diferentes balanços divulgados ao longo do dia.
A principal hipótese investigada é que o incêndio tenha começado quando velas de faísca — conhecidas no Brasil como velas vulcão — colocadas em garrafas de champanhe entraram em contato com o teto do estabelecimento. A informação foi confirmada pela procuradora-geral do cantão de Valais, Beatrice Pilloud, durante uma entrevista coletiva.
Imagens do interior do bar, o Le Constellation, mostram que o teto era revestido por painéis de espuma usados para isolamento acústico. Segundo as autoridades locais, esses materiais nunca foram avaliados quanto à resistência ao fogo. Técnicos do município disseram que, no passado, apenas os níveis de ruído do local haviam sido verificados, quando os proprietários solicitaram autorização para estender o horário de funcionamento.
O prefeito de Crans-Montana, Nicolas Feraud, reconheceu que o bar não foi submetido a inspeções, auditorias ou vistorias de segurança por um período de cinco anos, apesar de a prefeitura realizar, em regra, revisões anuais em bares, restaurantes e hotéis da região para identificar riscos de incêndio, como cozinhas mal adaptadas ou equipamentos de combate a fogo sem manutenção.
Nós lamentamos isso. Devemos isso às famílias e vamos assumir a responsabilidade
— disse Feraud a jornalistas. Ele afirmou que a prefeitura quis ser "imediatamente transparente" assim que percebeu a falha, mas descartou renunciar ao cargo.
Segundo o prefeito, a equipe municipal responsável pelas inspeções é composta por apenas cinco pessoas, encarregadas de fiscalizar mais de 10 mil edifícios na região.
Ele disse que a legislação local não exige a verificação de materiais de isolamento acústico instalados em tetos e que caberá agora às autoridades decidir se essa exigência deve ser incorporada às normas.
Feraud também anunciou a proibição imediata de todos os tipos de velas de faísca em estabelecimentos da cidade, classificando a medida como "óbvia".
As autoridades acreditam que as faíscas chegaram muito perto do teto revestido de espuma, o que teria facilitado a rápida propagação das chamas.
A prefeitura informou que está colaborando com a administração do bar para reconstruir exatamente o que aconteceu, mas ressaltou que não cabe ao município determinar responsabilidades criminais.
Isso será decidido pelas autoridades judiciais
— disse o prefeito, reforçando que o objetivo do conselho municipal é garantir total transparência "porque devemos isso às vítimas e às suas famílias".
Em paralelo, promotores suíços colocaram sob investigação criminal os dois gerentes do bar, um casal francês identificado pela imprensa local como Jacques e Jessica Moretti. Eles são suspeitos de homicídio culposo, lesão corporal culposa e incêndio culposo.
se tivesse sido alertada previamente sobre qualquer risco.
— Durante a coletiva, Feraud também afirmou que os gestores do local tinham a obrigação de conhecer e respeitar as normas de segurança, incluindo limites de lotação. Ele disse ainda que a prefeitura teria agido "imediatamenteEu teria preferido muito que alguém tivesse batido à minha porta antes e dito que não era uma questão de 'se', mas de 'quando' algo iria acontecer", afirmou.
Vou me lembrar daquela noite e da tristeza de todas aquelas famílias para sempre
— Ao encerrar a sessão com jornalistas, o prefeito disse que a semana havia sido "muito difícil" do ponto de vista pessoal. , declarou.
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O incêndio ocorreu durante uma festa de Ano Novo no Le Constellation, bar que é uma "verdadeira instituição" local na estação de esqui de Crans-Montana, como descreveu Silvia Costeloe, uma das jornalistas da BBC que atuou na cobertura do incêndio.
Apesar de a região ser conhecida pelo luxo, o bar não era suntuoso. Tinha um espaço amplo, onde muitos turistas e moradores locais iam se divertir.
Na virada do ano, estava cheio principalmente de jovens, que estão entre as principais vítimas da tragédia.
Os relatos de desespero de testemunhas e pessoas que estavam no local no momento em que o bar pegou fogo dão dimensão do que aconteceu.
As pessoas corriam em todas as direções, gritando e chorando
— contou Daniella, uma turista italiana. "Um jovem veio até mim e disse que tinha visto o inferno — coisas que jamais esqueceria."
Vi pessoas queimando... Encontrei pessoas queimando da cabeça aos pés, sem roupa nenhuma
— Um jovem de 18 anos que não quis se identificar disse que entrou no bar durante o incêndio para procurar seu irmão mais novo. , disse ele.
Não conseguíamos enxergar nada por causa da fumaça
— Axel Clavier disse que ficou preso no prédio em chamas e precisou quebrar uma janela para escapar. , disse ele à agência de notícias AFP, "metade das minhas roupas sumiu, foi uma loucura."
O fogo teve início na parte de baixo do bar. Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram o momento em que o teto começa a pegar fogo, quando diversas garrafas com velas de faísca são erguidas para o alto.
Em questão de segundos, todo o teto estava em chamas. Tudo era de madeira
— disseram duas turistas francesas, Emma e Albane, emendando que as chamas "começaram a subir muito rápido" e que "todo o teto estava pegando fogo, até o primeiro andar".
As vítimas tinham entre 14 e 39 anos. O local era conhecido por atrair um público mais jovem na cidade turística, onde a idade legal para consumo de bebidas alcoólicas é 16 anos.
Um especialista ouvido pela BBC deu uma possível explicação para a velocidade com que o fogo se espalhou.
Em entrevista ao programa The World Tonight, Richard Hagger, presidente da Associação Britânica de Investigadores de Incêndios, afirmou que o fenômeno conhecido como "flashover" pode ter tornado o incêndio particularmente letal.
Segundo ele, o flashover ocorre quando um foco inicial de incêndio faz com que as chamas e a radiação térmica subam rapidamente até o teto, espalhando-se pelo ambiente. Em seguida, essa radiação se propaga para baixo, atingindo outros materiais combustíveis, como móveis e mesas.
Na prática, o local fica completamente tomado pelas chamas em questão de segundos
— Com o aumento extremo da temperatura, esses materiais passam por decomposição térmica e liberam gases inflamáveis, que acabam se incendiando quase instantaneamente. , explicou.