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A Índia está cada vez mais rica, mas suas cidades seguem sujas e caóticas. Por quê?

Quer conhecer o charme real de Jaipur? Não venha aqui, compre apenas um cartão-postal", ironizou um taxista local durante minha recente visita à "Cidade Rosa...

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 10/01/2026 às 17:31 · Atualizado há 5 dias
A Índia está cada vez mais rica, mas suas cidades seguem sujas e caóticas. Por quê?
Foto: Reprodução / Arquivo

Quer conhecer o charme real de Jaipur? Não venha aqui, compre apenas um cartão-postal

— ironizou um taxista local durante minha recente visita à "Cidade Rosa", no noroeste da Índia.

Eu havia perguntado por que a capital do Rajastão, de tons âmbar — vibrante com seus turistas atraídos pelos palácios suntuosos e fortes majestosos —, parecia tão decadente.

A resposta dele refletiu um sentimento resignado de desesperança diante da deterioração urbana que afeta não apenas Jaipur, mas muitas cidades indianas: sufocadas pelo trânsito, envoltas em ar poluído, cheias de montes de lixo não recolhido e indiferentes aos vestígios de seu glorioso patrimônio histórico.

Em Jaipur, é possível encontrar exemplos sublimes de arquitetura centenária disputando espaço com oficinas mecânicas e manchas com marcas avermelhadas no chão - causadas pelo hábito de cuspir tabaco mascado.

Isso levanta uma pergunta: por que as cidades indianas estão se tornando cada vez mais inabitáveis, mesmo com centenas de bilhões gastos em um grande "embelezamento" nacional?

O rápido crescimento da Índia, apesar das altas tarifas cobradas, baixo consumo privado e manufatura estagnada, tem sido impulsionado em grande parte pelo foco do governo de Narendra Modi em obras de infraestrutura financiadas pelo Estado.

Nos últimos anos, o país construiu aeroportos modernos, rodovias nacionais de múltiplas faixas e redes de metrô reluzentes.

Ainda assim, muitas de suas cidades aparecem nas últimas posições dos índices de qualidade de vida. No último ano, a frustração chegou ao ponto de ebulição.

Em Bangalore — frequentemente chamada de o "Vale do Silício" da Índia por concentrar empresas de tecnologia e sedes de startups — houve protestos tanto de cidadãos quanto de empresários bilionários, fartos dos engarrafamentos e das pilhas de lixo.

Em Mumbai, a capital financeira, moradores realizaram um raro protesto contra o agravamento do problema dos buracos nas ruas, enquanto redes de esgoto entupidas despejavam dejetos em vias alagadas durante a prolongada temporada de monções.

No inverno em Delhi, a capital, a névoa tóxica deixou crianças e idosos sem ar, com médicos aconselhando alguns a deixar a cidade. Até a visita do jogador Lionel Messi neste mês foi ofuscada por torcedores entoando gritos contra a má qualidade do ar da capital.

Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.

Então, por que — ao contrário da China durante seus anos de boom — o crescimento acelerado do PIB da Índia não está levando à regeneração de suas cidades decadentes?

Por exemplo, por que Mumbai — que nos anos 1990 alimentava publicamente o sonho de se tornar uma nova Xangai, o centro financeiro chinês — é incapaz de concretizar essa ambição?

A causa raiz é histórica — nossas cidades não têm um modelo de governança confiável

— disse à BBC Vinayak Chatterjee, veterano especialista em infraestrutura.

Quando a Constituição da Índia foi escrita, ela falava da descentralização do poder para os governos central e estaduais — mas não imaginava que nossas cidades cresceriam a ponto de se tornarem tão gigantescas a ponto de precisar de uma estrutura de governança própria

— afirma.

O Banco Mundial estima que mais de meio bilhão de indianos — ou quase 40% da população do país — viva hoje em áreas urbanas, um aumento impressionante em relação a 1960, quando apenas 70 milhões de indianos moravam em cidades.

finalmente permitir que as cidades assumissem o controle de seus próprios destinos

— Em 1992, houve uma tentativa de por meio da 74ª emenda à Constituição.

Os governos locais receberam status constitucional e a governança urbana foi descentralizada — mas muitas das disposições jamais foram plenamente implementadas, diz Chatterjee.

Interesses arraigados não permitem que a burocracia e os níveis mais altos de governo descentralizem o poder e fortaleçam os governos locais.

Isso é bem diferente da China, onde prefeitos exercem amplos poderes executivos, controlando o planejamento urbano, a infraestrutura e até a aprovação de investimentos.

A China segue um modelo de planejamento altamente centralizado, mas os governos locais têm liberdade de implementação e são monitorados pelo centro, com sistemas de recompensas e punições, afirma Ramanath Jha, pesquisador sênior do centro de pesquisas Observer Research Foundation, da Índia.

Há diretrizes nacionais fortes em termos de rumo e metas físicas que as cidades são encarregadas de cumprir

— escreve Jha.

importantes trampolins para promoções futuras

— Prefeitos das principais cidades chinesas contam com padrinhos poderosos no alto escalão do Partido Comunista e fortes incentivos de desempenho, o que torna esses cargos , segundo o centro de pesquisas Brookings Institution, dos EUA.

Quantos nomes de prefeitos de grandes cidades indianas nós sequer conhecemos?

— questiona Chatterjee.

, em tradução livre), um livro sobre a história dos problemas de saneamento da Índia, afirma que os prefeitos e conselhos locais que administram as cidades indianas são

— Ankur Bisen, autor de Wasted (algo com "Degradadoos órgãos mais fracos do Estado, os mais próximos da população, mas encarregados dos problemas mais difíceis de resolver".

Eles estão completamente esvaziados — e têm poderes limitados para arrecadar receita, nomear pessoas e alocar recursos. Em vez disso, são os chefes de governo dos Estados que agem como superprefeitos e dão as cartas.

Houve casos excepcionais — como a cidade de Surat, após a epidemia de peste nos anos 1990, ou Indore, no estado de Madhya Pradesh — em que burocratas, empoderados pela classe política promoveram mudanças transformadoras.

Mas esses foram exceções à regra — dependiam do brilho individual, e não de um sistema que continue funcionando mesmo depois que o burocrata já se foi

— diz Bisen.

Além de uma governança fragmentada, a Índia enfrenta desafios mais profundos.

Seu último censo, realizado há mais de 15 anos, registrou 30% da população vivendo em áreas urbanas. De forma informal, acredita-se que quase metade do país já tenha assumido um caráter urbano, com o próximo censo adiado para 2026.

Mas como começar a resolver um problema se você não tem dados sobre a dimensão e a natureza da urbanização?

— questiona Bisen.

O vazio de dados e a não implementação dos marcos para transformar as cidades indianas, bem articulados na 74ª emenda constitucional, refletem um enfraquecimento da democracia de base da Índia, afirmam especialistas.

É estranho que não haja um clamor em torno das nossas cidades, como houve contra a corrupção alguns anos atrás

— disse Chatterjee.

ciclo natural de conscientização

— A Índia terá de passar por um , afirma Bisen, citando como exemplo o Grande Fedor (Great Stink) de Londres, em 1858, que levou o governo a construir um novo sistema de esgoto para a cidade e marcou o fim de grandes surtos de cólera.

Geralmente é em momentos como esses, quando a situação chega ao ponto de ebulição, que os problemas ganham relevância política.

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