Tércia Figueiredo, de 19 anos, ficou à deriva no mar por mais de 40 minutos após uma peça da vela quebrar. Surpreendentemente, foi resgatada por Romário, astro do Flamengo, que fazia um passeio de barco pelo litoral.
Tércia, que é militar do Exército do Brasil, se formou em Educação Física. Ela é paratleta do tiro com arco e representou o país nos Jogos Para-panamericanos de Santiago, em 2023.
Flamengo e Botafogo atuaram no Estádio Castelão, e o Rubro-Negro perdeu por 3 a 1. O Glorioso viria a se tornar o campeão brasileiro no ano em que o rival celebrava o centenário.
Era um domingo, dia 24 de setembro de 1995. Ansiosa para ver o clássico entre Flamengo e Botafogo, no Castelão, em Fortaleza, pelo Campeonato Brasileiro, a velejadora Tércia Figueiredo, então com 19 anos, decidiu sair de casa pela manhã para treinar no litoral cearense. O foco estava em prestigiar o Rubro-Negro nas arquibancadas do estádio ao lado do pai sem deixar o treino de lado. Ela, de fato, cumpriu o plano, mas o encontro com Romário foi bem antes do horário do jogo - e em alto mar.
Tércia Figueiredo zarpou do Iate Clube Fortaleza para velejar. E tudo transcorria dentro da normalidade, até que uma peça da vela de seu barco quebrou. A jovem ficou à deriva no mar por mais de 40 minutos e teve um resgate para lá de inesperado - a cena, surpreendente, está no último episódio da na série "1995 - no tempo dos bad boys", produção da Globoplay e do sportv.
— Ninguém apareceu, comecei a ficar desesperada. Comecei a pular no barco com o colete amarelo e ninguém me viu. De repente, um iate passando próximo da costa, me viu. Graças a Deus! E quem era? O Romário! Eu paralisei (risos). Como assim ele aqui? Daqui a quatro horas tem jogo. O que esse homem está fazendo aqui, gente? Pelo amor de Deus! Ele fez tudo, jogou corda, amarrou, puxou o barco. Ele foi conversando comigo, me deu água, comida, foi totalmente atencioso. O Rodrigo (Paiva), assessor, também - relembra Tércia, torcedora de Ceará e Flamengo, em entrevista ao ge.
Tércia Figueiredo posa com Apolinho (jornalista e técnico do Flamengo) e Romário — Foto: Arquivo Pessoal
Romário não precisou pular na água para resgatá-la. O iate encostou para que Tércia pudesse saltar para a embarcação maior. Ela conta que estava de cabeça baixa, atenta à hélice e preocupada com possíveis danos ao seu barco. Por isso, ficou em choque ao olhar para cima e ver o astro do Flamengo, campeão da Copa do Mundo com a seleção brasileira no ano anterior.
Mãe, por favor, vem me busca aqui no hotel, o Romário me salvou
— — Quando olhei para cima e levantei a cabeça, vi que era ele. Eu ria tanto. Juntou a felicidade de alguém me resgatar.... e era logo ele. Foi a única vez que o barco quebrou. Foi só naquele dia. Eu tinha passado várias semanas dizendo em casa que o Romário iria lá almoçar com a gente. Quando eu cheguei no Marina Park Hotel, onde os jogadores estavam hospedados, eu liguei para a minha casa. . Ela falou: "Para com essa brincadeira, Tércia. O seu pai está chateado, era para você já ter chegado". "Eu juro para a senhora que é verdade". Passei o telefone para ele, e ela acreditou que eu não estava zoando.
A fama de marrento de Romário não se confirmou. Tércia afirma que o camisa 11, astro do "melhor ataque do mundo" ao lado de Sávio e Edmundo, foi cordial.
— O Romário foi super simpático. Eu esperava aquele malandrão, carioca da gema, que poderia até ser safado, de tanto que falavam na televisão. Nunca acreditei muito nessas mídias de fofoca. E ele não era assim. Foi atencioso, conversava normal, parece que tinha um Romário na TV e outro fora da TV. Era uma pessoa totalmente diferente pelo lado positivo. Eu não vi essa malandragem que as meninas ficam falando, não vi nada disso. Não fui desrespeitada, muito pelo contrário, todo mundo teve cuidado.
Vitória no clássico contra o Flamengo embalou o Botafogo rumo ao título brasileiro de 1995
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Tércia Figueiredo relembra ajuda de Romário após problema no barco: "Totalmente atencioso"
A convite do Flamengo, Tércia Figueiredo acompanhou o elenco rubro-negro. Foi de ônibus com a equipe ao Castelão, visitou o vestiário e jantou com a delegação. Assistiu ao jogo com o pai na arquibancada e virou celebridade em Fortaleza por algumas semanas. Ela se diverte ao lembrar que foi procurada pela revista masculina "Playboy".
. O que é isso, minha filha? Vocês estão pensando que eu sou o quê? É brincadeira? Algum amigo meu zoando? Quero nem escutar nada. A conversa acabou ali, desliguei o telefone. Eu passava na rua e o pessoal ficava olhando por causa da história. Algumas pessoas no shopping ou nas competições, diziam:
— — Eu atendi a ligação, e a mulher: "Aqui é da PlayboyVocê é a Tércia do Romário". Não sou do Romário, não (risos). Todo mundo perguntava a mesma coisa. Os novos amigos, que não me conheciam na época, viram a série agora e perguntaram se era eu. Jesus, quando isso vai acabar (risos)? — declarou.
Tércia Figueiredo e Romário deram entrevista ao Fantástico após o clássico — Foto: reprodução/TV Globo
Apaixonada por esportes, Tércia Figueiredo conciliava a vela e o triatlo com a faculdade de Educação Física, concluída em 1999. Dez anos depois, ingressou no Exército Brasileiro depois de ser aprovada em um concurso público para oficiais. A grande mudança, porém, viria em 2011, ao cair de um barranco enquanto ministrava um exercício de Orientação - para ensinar oficiais a se localizarem pela mata - em Divinópolis (MG). A moita escondeu um desfiladeiro e, quando Tércia pisou, o "chão" desapareceu.
Tércia Figueiredo ficou em quinto lugar no Parapan de Santiago, em 2023 — Foto: Arquivo Pessoal
Tércia conta que o impacto da queda não foi decisivo para deixar sequelas, e sim, um erro médico. Aos 35 anos, perdeu o movimento das pernas.
— Quebrei o pé, torci o joelho. O problema não foi a queda, foi o tratamento médico, não cuidaram do nervo na época e, somente depois de um ano e três meses, descobriram que afetou o nervo. Era uma dor insuportável. Voltei a andar de muleta, mas era um problema degenerativo. Eu perdia força e caía. Fiquei forçando, caí várias vezes, quebrei perna, braço. A cabeça move o corpo, mas tem limite para essa frase. Fiquei com sequelas, hoje sou cadeirante. Demorei quatro anos para aceitar a deficiência. Quando aceitei a cadeira de rodas, em 2014, comecei a ter uma vida mais ativa.
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O golpe demorou a ser absorvido, especialmente, por quem foi triatleta e velejadora. Tércia não via mais o esporte em seu horizonte, até ser apresentada a uma nova modalidade.
— Participei de um projeto social da Polícia Militar de Minas Gerais e comecei a conhecer o mundo paradesportivo, com uma equipe multidisciplinar, e vi que existe vida depois da deficiência. A gente acha que tudo acabou. Depois veio o camp militar do CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro), em dezembro de 2018. Levaram todos os militares para São Paulo, apresentaram 18 modalidades paralímpicas e lá eu conheci o tiro com arco. Eu gostei e comecei a treinar. Com menos de dois anos estava na seleção e ganhando medalhas — disse a cearense, que também pratica tiro esportivo.
Tércia Figueiredo em ação no tiro com arco — Foto: Arquivo Pessoal
Na nova empreitada, Tércia reencontrou o prazer da atividade física. E reacendeu o espírito de competição. Em 2023, disputou os Jogos Parapan-Americanos de Santiago, uma das maiores competições do calendário esportivo.
Minha filha, não sei nem como você está aí, era para estar em um caixão. Como está triste com um quinto lugar?
— — Eu vinha ganhando medalhas nos Parapan-Americanos da modalidade. Mas, quando voltei após conseguir a vaga, peguei Covid. Foi séria, quase morri, fiquei entubada. Saí do hospital mais de um mês depois com sequelas: asma, hipertensão e hipoglicemia. Eu mal conseguia treinar. Fiz um tratamento respiratório que me atrapalhou demais. Fiquei em quinto lugar no Parapan, queria muito a medalha. Chorei muito e liguei para a minha mãe, que falou: . Fiquei com aquela raiva de atleta e ganhei várias medalhas no ano seguinte .
Resgatada por Romário, velejadora é paratleta do tiro com arco e cita "choque" ao ver jogador
após ser salva pelo craque. Ela se diverte ao recordar fama repentina que rendeu até sondagem da revista
— Tércia Figueiredo aparece no documentário "1995: No Tempo dos Bad BoysPlayboy"
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