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Sobre a difícil missão de incentivar a leitura | Isabel Clemente

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 06/12/2024 às 06:00 · Atualizado há 18 horas
Sobre a difícil missão de incentivar a leitura | Isabel Clemente
Foto: Reprodução / Arquivo

Volta e meia para um carro da polícia na porta da livraria do André. De tanto ver camburão e outras viaturas da Polícia Militar estacionados na rua em frente, um cliente abordou o livreiro para saber. “Você tá dando dinheiro pros caras?” André riu. “Claro que não. Quem disse que policial não lê?”

André Paulo Cardoso Pereira tem 54 anos e há oito mantém uma livraria no centro de Xerém, em Duque de Caxias, município do Rio, bairro conhecido por ser a casa de Zeca Pagodinho e do centro de treinamento do Fluminense.

Entre os clientes assíduos da livraria, tem um policial formado em Direito como André, cabo da PM e fã de clássicos de Dostoiévisk e Tolstói. Nos tempos da faculdade, André estagiou na área criminal. Frequentou delegacias, e trouxe de lá contatos que explicam o entra-e-sai de policiais, grupo que, ao lado de mães e professores, sustenta o (pouco) movimento da loja. “Vendo R$ 3 mil por mês na livraria. Mal dá para cobrir os gastos”, diz.

Apesar de tudo e contra todos, André, com a ajuda de sua mulher, Geisa, trilhou um caminho cada vez mais raro quando o negócio é livraria. Ele começou na internet e chegou à loja de rua porque precisava de um depósito para os milhares de títulos que oferece em quatro lojas virtuais onde progrediu e está bem avaliado. “Na loja recebo pessoas e doações. É um ponto de referência. Então não esquento a cabeça, e faço planos para buscar mais movimento”, diz o livreiro, que vende livros online desde 2015 e já teve minutos de fama emprestando cenário e ele mesmo para o documentário "Viver é Raro", da Globoplay.

Num país que tem mais não-leitores do que leitores, vender livros de forma independente assim é quase um ato de heroísmo. O histórico de falências das grandes redes que o diga.

Saiu mês passado a Sexta Edição de Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro. O resultado da pesquisa deixou muita gente triste. É triste que, pela primeira vez, um país do tamanho do nosso tenha mais pessoas que não leram nem trecho de livro três meses antes da pesquisa. Até quem leu passou a ler menos, alegando falta de tempo, de acordo com a pesquisa.

A prática da leitura melhora nossa capacidade de interpretar, entender metáforas e fazer inferências sobre textos, que são algumas das habilidades testadas num exame internacional chamado PIRLS e aplicado a crianças do quarto ano fundamental. Estudantes do Brasil participaram pela primeira vez em 2021, a última edição. O Brasil ficou em 58º entre os 65 países participantes.

Dizem que o hábito de ler se constrói desde criança. Eu não tenho tanta certeza disso. Tenho duas filhas com hábitos de leitura bem distintos. Uma gosta, a outra não. E não é por falta de incentivo nem de exemplo em casa. A pesquisa Retratos da Leitura mostra que até o público leitor prefere usar o tempo livre com WhatsApp, redes sociais, TV, vídeos do que com livros.

Meu sobrinho Fabrício, pai de um menino de um ano e meio, está apresentando esse universo para o filho. Gosta de levá-lo à única livraria de rua de Araucária, onde mora, município vizinho de Curitiba. Outro dia me enviou uma foto com um e-moji triste. Nela vejo Murilo de costas, com uma camiseta laranja, bermuda cinza por cima da fralda e tênis, mão apoiada numa prateleira preta cheia de livros coloridos que ele olha entretido. Legenda: “Murilo ama ler, mas a livraria vai fechar.”

A Nosso Livro fica a 860 km da livraria do André e passa por dificuldades parecidas. Aberta em 2021, em plena pandemia, a livraria surgiu pela obstinação de uma professora, formada em Letras, que adora contar histórias. Angela Maria Pietrasko ainda lecionava quando percebeu a oportunidade. As pessoas estavam lendo mais. E isso era bom. Ângela fez a parte dela. Sem retorno financeiro, decidiu focar nas feiras literárias, com as quais vêm trabalhando desde 2018.

“É um mercado que enfrenta concorrência do Kindle, do PDF, do audiobook, mas nosso maior concorrente é o modo de vida do brasileiro que, em sua maioria, quer coisas rápidas, rasas. Não são todos, mas é difícil lutar contra um modo de vida que vai se instalando como cultura”, disse.

Nunca são todos. Somos 47% da população que lemos livros ou trechos de livros, quase 100 milhões de pessoas. Se cada uma arrastar outra para o grupo, já pensou?


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