Volta e meia para um carro da polícia na porta da livraria do André. De tanto ver camburão e outras viaturas da Polícia Militar estacionados na rua em frente, um cliente abordou o livreiro para saber. “Você tá dando dinheiro pros caras?” André riu. “Claro que não. Quem disse que policial não lê?”
André Paulo Cardoso Pereira tem 54 anos e há oito mantém uma livraria no centro de Xerém, em Duque de Caxias, município do Rio, bairro conhecido por ser a casa de Zeca Pagodinho e do centro de treinamento do Fluminense.
Entre os clientes assíduos da livraria, tem um policial formado em Direito como André, cabo da PM e fã de clássicos de Dostoiévisk e Tolstói. Nos tempos da faculdade, André estagiou na área criminal. Frequentou delegacias, e trouxe de lá contatos que explicam o entra-e-sai de policiais, grupo que, ao lado de mães e professores, sustenta o (pouco) movimento da loja. “Vendo R$ 3 mil por mês na livraria. Mal dá para cobrir os gastos”, diz.
Apesar de tudo e contra todos, André, com a ajuda de sua mulher, Geisa, trilhou um caminho cada vez mais raro quando o negócio é livraria. Ele começou na internet e chegou à loja de rua porque precisava de um depósito para os milhares de títulos que oferece em quatro lojas virtuais onde progrediu e está bem avaliado. “Na loja recebo pessoas e doações. É um ponto de referência. Então não esquento a cabeça, e faço planos para buscar mais movimento”, diz o livreiro, que vende livros online desde 2015 e já teve minutos de fama emprestando cenário e ele mesmo para o documentário "Viver é Raro", da Globoplay.
Num país que tem mais não-leitores do que leitores, vender livros de forma independente assim é quase um ato de heroísmo. O histórico de falências das grandes redes que o diga.
Saiu mês passado a Sexta Edição de Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro. O resultado da pesquisa deixou muita gente triste. É triste que, pela primeira vez, um país do tamanho do nosso tenha mais pessoas que não leram nem trecho de livro três meses antes da pesquisa. Até quem leu passou a ler menos, alegando falta de tempo, de acordo com a pesquisa.
A prática da leitura melhora nossa capacidade de interpretar, entender metáforas e fazer inferências sobre textos, que são algumas das habilidades testadas num exame internacional chamado PIRLS e aplicado a crianças do quarto ano fundamental. Estudantes do Brasil participaram pela primeira vez em 2021, a última edição. O Brasil ficou em 58º entre os 65 países participantes.
Dizem que o hábito de ler se constrói desde criança. Eu não tenho tanta certeza disso. Tenho duas filhas com hábitos de leitura bem distintos. Uma gosta, a outra não. E não é por falta de incentivo nem de exemplo em casa. A pesquisa Retratos da Leitura mostra que até o público leitor prefere usar o tempo livre com WhatsApp, redes sociais, TV, vídeos do que com livros.
Meu sobrinho Fabrício, pai de um menino de um ano e meio, está apresentando esse universo para o filho. Gosta de levá-lo à única livraria de rua de Araucária, onde mora, município vizinho de Curitiba. Outro dia me enviou uma foto com um e-moji triste. Nela vejo Murilo de costas, com uma camiseta laranja, bermuda cinza por cima da fralda e tênis, mão apoiada numa prateleira preta cheia de livros coloridos que ele olha entretido. Legenda: “Murilo ama ler, mas a livraria vai fechar.”
A Nosso Livro fica a 860 km da livraria do André e passa por dificuldades parecidas. Aberta em 2021, em plena pandemia, a livraria surgiu pela obstinação de uma professora, formada em Letras, que adora contar histórias. Angela Maria Pietrasko ainda lecionava quando percebeu a oportunidade. As pessoas estavam lendo mais. E isso era bom. Ângela fez a parte dela. Sem retorno financeiro, decidiu focar nas feiras literárias, com as quais vêm trabalhando desde 2018.
É um mercado que enfrenta concorrência do Kindle, do PDF, do audiobook, mas nosso maior concorrente é o modo de vida do brasileiro que, em sua maioria, quer coisas rápidas, rasas. Não são todos, mas é difícil lutar contra um modo de vida que vai se instalando como cultura
— disse.
Nunca são todos. Somos 47% da população que lemos livros ou trechos de livros, quase 100 milhões de pessoas. Se cada uma arrastar outra para o grupo, já pensou?
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