As mudanças climáticas vêm impondo grandes desafios ao setor elétrico. A ocorrência de chuvas torrenciais, secas severas e vendavais que ultrapassam 100km/h requer investimentos que tornem o sistema brasileiro mais resiliente, na opinião de especialistas. O seminário “Eventos climáticos extremos: experiência internacional e impactos nas redes de energia elétrica”, realizado no último dia 11 de dezembro, em Brasília, propôs uma reflexão sobre o problema que atinge o mundo todo e promoveu uma troca de experiências sobre soluções inovadoras para a questão.
Um dos participantes do seminário foi o consultor e ex-VP da distribuidora de energia Florida Power Michael Spoor, que expôs como a companhia do estado americano da Flórida, na rota de furacões cada vez mais fortes e perigosos, vem se adaptando a essa situação.
“Em 2005, com o furacão Wilma, levamos 18 dias para restabelecer a energia na Flórida. Em 2022, após o furacão Ian, que foi muito mais forte, foram necessários oito dias, sendo que 66% dos consumidores já tiveram o fornecimento restabelecido em 24 horas. Mas, para chegarmos a esse ponto, foram quase duas décadas de forte investimento”, contou Spoor.
De acordo com o especialista, no período entre os dois fenômenos, a empresa investiu pesado na melhoria da infraestrutura e em avançadas tecnologias para automação das redes, reduzindo, assim, o tempo de desligamento. Spoor ainda destacou a importância da cooperação entre as distribuidoras americanas para restabelecer a energia aos consumidores no caso de eventos extremos.
De acordo com o presidente da Abradee, Marcos Madureira, as distribuidoras brasileiras seguem no mesmo caminho, realizando investimentos para gerenciar os impactos e minimizar os danos à população.
“Além dos R$ 130 bilhões de investimento para os próximos quatro anos, já tivemos duas missões internacionais para troca de experiências (Estados Unidos e Reino Unido). Trabalhamos em desenvolvimento de tecnologias e fomentamos o compartilhamento de equipes entre distribuidoras no Brasil. Essa parceria já foi realizada este ano, durante os eventos climáticos do Rio Grande do Sul e de São Paulo”, explicou Madureira. “Estamos enfrentando um desafio de adequação das infraestruturas dos centros urbanos, e este seminário é mais uma ação para buscar soluções inovadoras”, acrescentou o presidente da Abradee.
Durante o encontro, foi discutida também a experiência de países que adotam soluções regulatórias para tornar as redes mais preparadas, sem que isso impacte de forma significativa na tarifa de energia. Uma estratégia nesse sentido é estabelecer regras específicas para o reconhecimento de investimentos em resiliência, o que permite sua aplicação de forma ágil e efetiva.
“Eventos grandes não podem ser previstos. Então, é importante que as empresas tenham um financiamento adicional para quando for preciso agir rapidamente. Tem que existir uma combinação do financiamento anterior com o investimento em resiliência. E, quando necessário, outro financiamento para apoiar os esforços extras das concessionárias depois dos eventos”, disse o diretor de Assuntos Regulatórios da S&C Electric Company, do Reino Unido, e ex-integrante do Departamento Britânico Para Assuntos Regulatórios de Energia (Ofgem), Grant McEachran.
O especialista defende que as ações regulatórias sejam ampliadas para incentivar e financiar projetos de prevenção e não apenas para bancar os custos de recomposição.
Mediador do painel sobre impactos, mitigação e recomposição de redes diante de eventos climáticos extremos, o CEO do grupo Energisa, Ricardo Botelho, destacou que a palavra de ordem agora é “adaptação”. “Essa palavra de ordem vale para sociedade, reguladores, poder público e empresas. É um assunto que exige uma colaboração ampla de toda a cadeia de valor do setor de energia elétrica. As concessionárias de distribuição são parte da resposta e um elo para a solução”, disse Botelho.
De acordo com Nivalde de Castro, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel/UFRJ), que também participou do seminário, a revisão tarifária periódica, realizada pela agência reguladora do Brasil, corresponde à incorporação dos investimentos em plano de resiliência. Para ele, o modelo europeu é uma referência de reconhecimento de custos. “As redes não foram construídas para esse novo paradigma climático”, ressaltou o especialista.
Já na avaliação de Walmir Freitas, doutor em Engenharia Elétrica e professor titular da Unicamp, a abordagem regulatória mais apropriada e efetiva para melhorar o tempo de recomposição após eventos extremos deve ter como base a oferta de incentivos e não somente o caráter punitivo.
“Eu não vejo a solução via regulação de penalidades. Temos que ter incentivos e nos comunicar melhor. O brasileiro ainda não entende como é difícil resolver esses problemas e o investimento que precisa ser feito”, afirma o professor.
Manejo arbóreo e impacto nas redes elétricas é tema de painel
Evento debateu importância do planejamento urbano e da arborização diante da emergência climática
Um dos temas que geraram mais debates no seminário “Eventos climáticos extremos: experiência internacional e impactos nas redes de energia elétrica” foi o planejamento urbano e a arborização diante da emergência climática. Especialistas apresentaram análises propostas para a atual situação.
Para o biólogo e pesquisador do Instituto de Pesquisa Tecnológica de São Paulo Sergio Brazolin, o controle das árvores deve ser de responsabilidade das prefeituras. “Não deve e não pode ser uma função da concessionária. O Plano Diretor de Arborização Urbana é o documento que regulamenta isso”, destacou.
A sócia da Delta Infra e consultora legislativa Rose Hofmann compartilha da mesma opinião: “A manutenção de árvores localizadas em centros urbanos deve ser considerada como um serviço recorrente”.
O meteorologista do Climatempo Pedro Regoto disse que os dados meteorológicos são a grande fonte de informação para uma melhor resposta às ocorrências climáticas. Ele defendeu mais investimentos para uma maior cobertura de estações e radares.
“Faltam dados no Brasil. Os Estados Unidos são inteiramente cobertos por radares, que, junto com as estações meteorológicas, são as principais ferramentas para termos melhores previsões”, observou.
Já a mediadora do debate, a vice-presidente de Regulação, Institucional e Sustentabilidade da Neoenergia, Solange Ribeiro, afirmou que as discussões sobre o assunto não devem se limitar a recursos e investimentos.
“A questão climática é um grande desafio global e um dos riscos mais relevantes para as empresas do setor elétrico. Por isso, é preciso pensar em soluções para aumentar a resiliência climática. E essa estratégia vai muito além do investimento, é uma forma de fazer diferente”, disse.