De volta temporariamente ao mandato de senador para votar na eleição que deve reconduzir Davi Alcolumbre (União-AP) à presidência do Senado, o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Wellington Dias (PT-PI), afirmou que qualquer reforma ministerial que seja feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve ter como foco não só a governabilidade, mas as alianças políticas para as eleições de 2026.
"Nós estamos trabalhando não só uma base aliada para os bons resultados junto à Câmara e ao Senado, mas também para 2026. A gente vai ter que organizar do ponto de vista político os partidos que vamos estar junto em 2026", declarou o ministro ao Valor.
Dias avalia que as declarações dos presidentes do PSD, Gilberto Kassab, e do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), que criticaram o governo Lula e não garantiram apoio ao petista em 2026, como críticas válidas e que podem ter como pano de fundo um movimento para ganhar mais espaço no Executivo.
“Eu amo a democracia porque ela permite a liberdade de cada um expressar suas opiniões e é isso que nos empurra para frente", afirmou Dias.
O ministro pondera que, apesar da queda na avaliação, Lula ainda lidera as pesquisas de intenção de voto para presidente em 2026.
"[Kassab e Pereira] são líderes experientes e sabem que no mundo real não funciona o achismo. Na última pesquisa presidencial, Lula aparece superando todos os candidatos possíveis. Nós temos um país que manteve um grau de polarização, mas o desgaste político é para todos. Ter, nesse ambiente, uma aprovação de 47% não é baixa. É claro que queremos mais elevada, mas é preciso situar", argumentou.
Na linha do tom que Lula tem adotado, Dias acredita que o país irá colher os frutos das medidas econômicas adotadas pelo Executivo desde a posse em 2023.
Assim como o presidente, ele também não tem no radar a necessidade de novas medidas fiscais, complementares ao pacote de contenção de gastos enviado pelo Executivo no ano passado. A avaliação de agentes do mercado de que as propostas aprovadas são insuficientes para garantir a sustentabilidade fiscal tem gerado expectativa de que a equipe econômica tome novas iniciativas para frear despesas.
"Eu sou otimista que nós vamos ter um crescimento, novamente, acima de 3,5%. Nós vencemos essa etapa de desarmar as bombas que estavam no nosso caminho", disse.
Dias também aposta que a nova comunicação do governo irá contribuir para a melhora na avaliação e disse que o novo ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, é um especialista e "conhece o coração do presidente".
"Nós sabemos o grande desafio enfrentado pelo ministro Paulo Pimenta. Foram 24 meses de tempestade constante. Mas o presidente, entendendo a mudança que tem no formato da comunicação, viu a importância de ter alguém com uma experiência em comunicação em um sentido amplo"
O ministro avaliou como esperada a queda apresentada nos números do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mostrou o fechamento de mais de 500 mil postos de trabalho formal em dezembro. A queda foi a maior no período desde a pandemia.
"Todo o mês de dezembro você tem um saldo negativo no Caged. Isso tem a ver com fenômenos como as contratações temporárias de final de ano, alguns setores como a construção civil que demitem ou dão férias coletivas e lá na frente retomam, e existe uma cultura no Brasil de obras e programas que são anualizados", pontuou.
Dias afirmou que o saldo de 2024, com a criação de mais de 1,6 milhões de vagas, ainda é positivo e disse que o resultado mostra a efetividade do Bolsa Família.
Dos mais de 3,5 milhões de postos criados entre janeiro de 2023 a outubro de 2024, mais de 3,2 milhões (92%) foram para o público do Bolsa Família e do Cadastro Único. Desse montante, cerca de 2,5 milhões (71%) são referentes a vagas para o público do programa de transferência de renda e mais de 736 mil vagas (21%) para cadastrados no CadÚnico.
“É o povo do Bolsa Família. 92% das vagas do saldo positivo do emprego de 2023 e 2024 é do Bolsa Família e do Cadastro Único. É por isso que o pessoal tá saindo da miséria e saindo da pobreza. Até novembro de 2024, a gente tinha 1,3 milhões de pessoas que saíram da pobreza”, disse.
O ministro destacou ainda o número de beneficiários do programa abriram negócios como microempreendedor individual (MEI).
"De 16,5 milhões de MEIs, o microempreendedor individual, já mais de 5 milhões são do Bolsa Família do Cadastro Único. Tem uma renda baixa, mas já está empreendendo, está com CNPJ e formalizando. Estamos reduzindo a informalidade. O estímulo ao trabalho e ao empreendedorismo é o que vai permitir um resultado positivo", acrescentou Dias.
O ministro destacou o pente fino realizado nos programas da pasta com intuito de coibir fraudes e afirmou que a pasta deve realizar novas auditorias nos cadastrados.
"Alcançamos agora mais de 4 milhões de benefícios que saíram poque tinha fraude. Isso só no Bolsa Família. Alcançamos um grau de eficiência muito elevado. Cada 1 milhão de famílias que saem do Bolsa Família, representa R$ 8,4 bilhões de economia", disse.
Segundo Dias, a alta no preço dos alimentos um "problema real" e já há sinais de que esse cenário será revertido. O caminho, segundo Dias, passa pela queda do dólar, a estabilidade da inflação e os bons números projetados para as próximas safras devem acarretar numa queda nos preços.
"É um problema real, não é um problema de fake news, de comunicação, ele é real. O maior desafio é porque ele é decorrente do aumento da renda e consequentemente da demanda. Impactou também o dólar, mas dólar parou de crescer e passou a ter queda frente ao real, a inflação começou a ceder, principalmente nos alimentos", pontuou. "O ministro [Carlos] Fávaro (Agricultura) estima um crescimento da produção, inclusive dos produtos básicos, em cerca de 10% na safra 2024/25. Esses tendem a ser componentes para baixar o preço dos alimentos", complementou.