Esqueça veículos elétricos ou fast fashion. O motor de algumas das maiores margens de lucro do varejo da China é um monstrinho de pelúcia, com orelhas pontudas e dentes serrilhados, chamado Labubu.
O Labubu, personagem principal da fabricante de brinquedos de Pequim Pop Mart International Group, está alimentando uma febre global por itens colecionáveis.
A empresa registrou uma margem de lucro bruto de quase 67% no ano passado, entre as mais altas das empresas chinesas com forte presença internacional. Em comparação, a margem da varejista de utilidades domésticas e brinquedos Miniso foi de cerca de 45%, enquanto as margens da fabricante de eletrônicos de consumo Xiaomi e da potência de veículos elétricos BYD ficaram em torno de 20%.
O que começou como uma obsessão por brinquedos de nicho entre jovens chineses explodiu em todo o mundo, com um Labubu de tamanho humano leiloado por até US$ 150.000 em Pequim, e fãs formando filas por horas do lado de fora das lojas da Pop Mart, de Sidney a Los Angeles, antes dos novos lançamentos.
Celebridades como a estrela de reality show Kim Kardashian, e Lisa, da megabanda de K-Pop Blackpink, exibiram seus Labubus, elevando ainda mais o status cult do boneco. Até o ator Brad Pitt e o elenco de seu novo filme “F1: O Filme” gravaram um vídeo do TikTok desembrulhando os brinquedos enquanto promoviam o projeto este mês.
O Morgan Stanley, agora, considera a Pop Mart uma das marcas globais de crescimento mais rápido já registradas. A marca tem um valor de mercado de cerca de US$ 43 bilhões. As ações subiram 182% até agora neste ano. As vendas no exterior vão superar as domésticas em 2025, afirma a instituição financeira.
O fenômeno marca um raro sucesso mainstream para a cultura pop chinesa nos mercados ocidentais, há muito dominados por gigantes como a americana Walt Disney e a japonesa Sanrio, dona da Hello Kitty.
A Pop Mart está aproveitando a tendência global dos colecionáveis, impulsionada por compras e desempacotamento de brinquedos nas redes sociais, ao mesmo tempo em que inverte o modelo tradicional de varejo: mantém os custos de fabricação baixos e vende, principalmente, por meio de suas próprias lojas, contando com uma estratégia de venda direta ao consumidor que elimina intermediários.
Há “uma tendência crescente de os consumidores buscarem ‘dopamina’ fragmentada, instantânea e acessível – fontes de felicidade – na era da internet móvel e das mídias sociais”, disse Chen Luo, chefe de pesquisa do consumidor chinês do BofA Global Research. “Acreditamos que essas tendências se manterão a médio e longo prazo.”
Muitos brinquedos têm preços mais altos nos mercados ocidentais do que na China. A Pop Mart pode obter margens de lucro de até aproximadamente 75% nos EUA, mesmo com tarifas recíprocas, afirmou o Morgan Stanley, projetando que as vendas da empresa na América do Norte se igualarão às da China até 2028-2029. As vendas da Pop Mart crescerão para US$ 6 bilhões em 2027, um aumento de mais de 500% em relação a 2023, estima a corretora.
Os Labubus são vendidos em vários tamanhos, com dezenas de roupas e acessórios, incentivando os fãs a colecionarem todos. A Pop Mart vende muitos de seus brinquedos nas chamadas caixas-surpresa, onde os compradores não sabem qual figura estão recebendo —o que leva a compras repetidas em busca de personagens específicos.
Uma caixa surpresa do Labubu do tamanho de um chaveiro é, atualmente, oferecida on-line por 99 yuans (US$ 14) na China continental, em comparação com US$ 28 nos EUA.
O rápido sucesso da Pop Mart no Ocidente se destaca em meio às crescentes tensões comerciais, já que ela evita restrições à exportação que desafiaram empresas chinesas como a Huawei Technologies. Enquanto os fabricantes chineses de veículos elétricos registraram seu primeiro declínio anual nas vendas na Europa em 2024 devido a atritos comerciais, a Pop Mart expandiu sua presença global com pouca resistência política.
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