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O segundo turno das eleições municipais em dez pontos. Veja o que está em jogo | Eleições 2024

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 26/10/2024 às 07:05 · Atualizado há 1 dia

Neste domingo (27), 33,9 milhões de eleitores voltam às urnas no segundo turno das eleições em 51 cidades do Brasil - sendo 15 delas capitais. Além da escolha do prefeito que vai governar os municípios pelos próximos quatro anos, a votação mexe com as forças políticas e tem impacto para 2026, quando serão eleitos novos governadores, deputados, senadores e Presidente da República.

Maria Cristina Fernandes, colunista e repórter especial do Valor, elaborou uma lista com os dez principais pontos de atenção destas eleições. Veja abaixo:

Abstenção em viés de alta

No segundo turno, a abstenção é sempre maior. Desta vez, não há motivos par ser diferente. A justificação do voto pelo aplicativo da Justiça Eleitoral é parte dessas taxas maiores de abstenção. Em média, nas eleições municipais, a abstenção cresce 3,5 pontos percentuais no segundo turno. Se mantiver esta média, o segundo turno também confirmará a maior taxa à exceção daquela da pandemia, em 2020. Tirando esta eleição, a abstenção no primeiro turno foi a mais alta dos últimos 20 anos. É uma curva crescente dos 14,2% em 2004 até os 21,7% de 6 de outubro passado.

Queda de braço dos partidos

O PSD (878 municípios) ultrapassou o MDB (845) e, como cada um dos partidos só disputa 10 prefeituras no segundo turno, entre as 51 em jogo, o ranking não vai mudar. O que ainda pode virar são as receitas e a população a serem administradas por cada um. Eventual reeleição de Ricardo Nunes (São Paulo) desequilibraria os dois quesitos a favor do MDB. O domínio do PL nos 103 municípios com mais de 200 mil eleitores tende a crescer porque o partido disputa em quase metade (23) deles no segundo turno. Já o PT tem a chance de voltar a comandar uma capital, das quatro em que disputa - Cuiabá, Fortaleza, Natal e Porto Alegre – e assim ombrear com o PSB, maior partido municipal da esquerda, que só ganhou uma capital no primeiro turno (Recife).

Governadores medem força

Apenas dois governadores elegeram aliados nas capitais no primeiro turno, Jorginho Mello (SC) e Gladson Cameli (AC), ante 14 que viram seus candidatos naufragarem. No segundo turno, porém, a balança pode ser reequilibrada porque dez governadores têm aliados em campo: Tarcisio Freitas (SP), com Ricardo Nunes, Ronaldo Caiado (GO), com Sandro Mabel, Ratinho Jr (PR), com Eduardo Pimentel, Eumano de Freitas (CE), com Evandro Leitão, Marcos Rocha (RO), com Mariana Carvalho, Vanderlei Barbosa (TO), com Janad Valcari, Fátima Bezerra (RN), com Natália Bonavides, João Azevedo (PB), com Cícero Lucena, e Fabio Mitidieri (SE), com Luiz Roberto. Já no conjunto dos municípios, o domínio dos governadores é inconsteste. Em 16 unidades da federação, foi o partido do governador que elegeu o maior número de prefeitos no primeiro turno.

A recondução recorde da história de 81% dos prefeitos que disputaram novo mandato no primeiro turno não está em questão. A dúvida agora é sobre o desempenho nas capitais. No primeiro turno, 11 reelegeram seus prefeitos. Se os sete em disputa no segundo turno saírem vitoriosos, o número de reeleitos se aproxima do feito de 2008, quando, dos 20 prefeitos em disputa nas capitais, apenas um não conseguiu se reeleger - Serafim Correia (Manaus). Impulsionam este cenário o caixa das prefeituras, com capacidade de pagamento acima daquela de 2020, segundo o Tesouro, além da mais alta taxa de confiança que as gestões locais já desfrutaram desde 2009 (Ipec).

Das 51 cidades em disputa, 13 têm candidatas e sete delas são capitais – Aracaju, Curitiba, Natal, Palmas, Porto Alegre, Porto Velho e Campo Grande. Como, nesta última, são duas mulheres as finalistas, haverá, pelo menos uma capital, entre as 26 do país, a ser governada por uma mulher, mesmo cenário de 2020. Nos últimos 20 anos, apenas quatro capitais (Fortaleza, Boa Vista, Natal e Palmas) elegeram prefeitas. Da redemocratização para cá, somam-se São Paulo e Salvador. No primeiro turno, a eleição de 724 mulheres evidencia um descompasso com um eleitorado de maioria feminina (13% x 52%), ainda que seja 9% maior do que em 2020. No grupo de 103 com mais de 200 mil eleitores, apenas cinco mulheres foram eleitas no primeiro turno.

O atentado contra o prefeito e candidato à reeleição em Taboão da Serra (SP), uma semana antes do segundo turno, com características inequívocas de participação do crime organizado, como o uso de fuzil, foi apenas um dos 338 episódios de violência política. Grupo de Investigação Eleitoral da Universidade Federal do Estado do Rio identificou um aumento de 115% de episódios de violência contra candidatos e seus familiares entre julho e setembro na comparação com o trimestre anterior. Foi o trimestre com o maior número de casos desde o início da série história do levantamento, em 2019. São Paulo, Rio, Bahia, Ceará e Paraíba, pela ordem, são os Estados que lideram o ranking.

O crescimento da direita, evidenciado no primeiro turno, também trouxe fraturas que se acentuaram na segunda etapa com o ex-presidente Jair Bolsonaro patrocinando candidaturas contra governadores de seu campo político com pretensões presidenciais. É o que acontece nas campanhas de Curitiba, onde apoia Cristina Graeml (PMB) contra Eduardo Pimentel (PSD), candidato de Ratinho Jr, e Goiânia, com o apoio a Fred Rodrigues (PL) contra a candidatura de Sandro Mabel (União), apoiada por Ronaldo Caiado.

A eleição de Fortaleza será decisiva para a federação que o PSB espera formar com o PDT. O PSB pretende enfrentar a hegemonia petista no seu campo politico com vistas a 2026 e o PDT, escapar da cláusula de barreira. Com o terceiro lugar do prefeito e candidato à reeleição pelo PDT, Roberto Claudio, e seu posterior apoio a André Fernandes (PL), contra o petista Evandro Leitão (PT), no segundo turno, a federação subiu no telhado. Como Ciro Gomes, que permanece como a maior liderança do PDT no Estado, deu anuência a este apoio, corre o risco de ser expulso do partido para que a federação se viabilize.

O governador de São Paulo já saiu vitorioso do primeiro turno ao ter uma participação decisiva na derrota do candidato do PRTB, Pablo Marçal, mas só uma vitória do prefeito Ricardo Nunes (MDB) lhe daria a liderança da direita. Foi esta a razão pela qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) desembarcou na eleição paulistana no segundo turno, depois da postura dúbia da primeira etapa. Os três principais partidos do governo Tarcisio (Republicanos, PSD e PL) elegeram 64% das prefeituras do Estado no primeiro turno. O desempenho mostra terreno seguro para a reeleição. Só o segundo biênio do governo Lula demonstrará em que terreno pisará numa eventual candidatura presidencial.

Esta foi a disputa municipal, das três que já participou no exercício do cargo, em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) menos se expôs. O acidente doméstico que sofreu no último fim de semana não o impediu de subir em palanque nesta reta final, e, sim, de viajar para o encontro do Brics na Rússia. Lula voltou ao Palácio do Planalto pela terceira vez, depois do pior desempenho do PT numa eleição municipal, movido pelo antibolsonarismo. Eleição municipal não determina resultado majoritário nacional, mas esta demonstrou que a direita não está apenas sob o chapéu do ex-presidente. Cresceu enraizada, encorpou um projeto político e projetou novas lideranças. E, por outro lado, aprofundou as divisões no seu partido que afetarão seu rumo em 2026.

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