Há cerca de dois anos, uma capa da revista The Economist marcava o início de um movimento que tem mudado a forma como o mercado compreende as práticas ESG. Em editorial e numa série de reportagens, a publicação defendia que investimentos sustentáveis deveriam focar apenas nas emissões de gases causadores do efeito estufa. O conteúdo capturou uma certa sensação de partes do mercado financeiro, resultado de uma série de fatores: manipulação política do debate, casos de greenwashing, entendimentos equivocados do tema, erros de implementação da agenda e imaturidade das próprias ferramentas de aplicação e avaliação de práticas ESG.
Os argumentos apresentados podem ser considerados aceitáveis e verdadeiros: a agenda reúne temas muito variados e complexos, com eventuais trade-offs entre si, o que impede a criação de “guias coerentes” para investidores e empresas; em muitos casos é difícil demonstrar diretamente a relação entre desempenho financeiro e boas práticas; e há muita controvérsia em relação ao que pode ou não ser considerado como bons critérios de avaliação em temas ambientais, sociais e de governança - as ferramentas atuais são muito distintas entre si e por vezes manipuláveis, por medirem indicadores que não refletem exatamente o resultado que se deseja produzir.
O diagnóstico foi correto, mas a prescrição tem gerado resultados contraproducentes. O chamado movimento anti-woke, que tem sido motor das críticas ao ESG, utiliza dados isolados para invalidar a tese de que empresas com boas práticas ESG tornam-se mais resilientes a crises e, portanto, mais rentáveis no longo prazo. A partir desta desconstrução, o mercado é incentivado a assumir riscos ou desconsiderar impactos socioambientais relevantes, ignorando que invariavelmente esta conta vai chegar em algum momento futuro.
Em alguma medida, o mercado vive hoje um cabo de guerra entre defensores e ofensores do ESG. No primeiro, estão desde militantes de causas socioambientais até gestores de recursos pragmáticos e preocupados com a gestão de riscos de seus ativos, passando por investidores de impacto, filantropistas e outros grupos. No segundo, há militantes e políticos, economistas liberais e investidores preocupados com o retorno de curto prazo de seus ativos.
E é neste aspecto que reside a mais relevante disputa de interesses em torno da agenda ESG. Como trata-se de uma agenda de mitigação de riscos e perenidade (ou resiliência) dos negócios, é natural e esperado que seus retornos sejam verificáveis no longo prazo. Aliás, é exatamente a correlação entre retorno de longo prazo e boas práticas ambientais, sociais e de governança o fator que deu origem à sigla.
Contudo, o comportamento do mercado ainda é excessivamente focado no curto prazo. E nem me refiro ao day trade e às promessas enganadoras de lucro fácil hoje utilizadas para enganar incautos. Os mecanismos de gestão e de incentivos estão estabelecidos para direcionar a busca por retornos no prazo mais curto possível, mesmo que às custas de externalidades negativas. Mesmo quando há métricas criadas para mitigar tais impactos, sua relevância é proporcionalmente menor, o que faz com que o longo prazo fique sempre para depois.
Não será surpresa dizer que tal modelo é insustentável. Claro que acompanhar os resultados do tempo presente é essencial, mas produzir retorno de curto prazo a qualquer custo leva a prejuízos futuros, para a própria empresa e para as partes impactadas por ela - que na maioria das vezes sequer tem responsabilidade pelas escolhas. Não à toa, estudos sobre crises corporativas indicam que a maior parte delas poderia ser prevista e mitigada. O mesmo vale para as crises planetárias, criadas pela lógica de exploração irracional de recursos, em velocidade crescente para acompanhar a sede de maximização de retornos imediatos. Em resumo, estamos roubando o futuro.
Mas qual caminho pode ser apontado diante desta encruzilhada? Como escreveu Henry Louis Mencken no século passado, “para cada problema complexo existe uma solução simples, elegante e completamente errada”. Ou seja: se as ferramentas atuais do mercado não conseguem lidar com as diversas complexidades, a resposta deve ser a melhoria ou criação de mecanismos que permitam cumprir tal desafio com mais eficiência e eficácia. Ignorar as partes mais difíceis do problema não faz com que elas desapareçam. É necessário qualificar as ferramentas e a forma como olhamos para a agenda.
Trata-se de um momento interessante para os investimentos sustentáveis e responsáveis. É inegável que as críticas ao ESG ganham força e tornam mais lenta a adoção de tais práticas. Por outro lado, regulações favoráveis avançam, no Brasil e em outros mercados - destacadamente na Europa. No aspecto que mais importa para o mercado, apesar de alguns casos de insucesso, a performance dos investimentos sustentáveis continua superior no médio/longo prazo, especialmente em períodos de crise e maior volatilidade. É o caso, por exemplo, das debêntures verdes.
De qualquer forma, manchetes e tweets sensacionalistas podem levar a conclusões equivocadas, maximizadas pelo baixo grau de atenção e capacidade crítica (que faz o tema das informações falsas e desinformação serem o principal risco mapeado pelo Fórum Econômico Mundial). Antes de afirmar que o ESG “ficou para trás” ou “morreu”, convém lembrar que a sigla não é uma coisa só, mas um conjunto de ferramentas em constante atualização que busca elevar a capacidade de entregar valor no longo prazo em cenários de profunda transformação e repletos de riscos ambientais, sociais, econômicos e de governança.
Ao aplicar estas ferramentas de acordo com os principais riscos e impactos de cada negócio, é esperado que as empresas aumentem a sua resiliência. Esse, aliás, é o termo que vem sendo usado pela BlackRock em substituição ao ESG, numa aparente tentativa de escapar das críticas ideológicas e retomar o ponto central da tese: práticas de sustentabilidade corporativa são relevantes porque mitigam riscos que seriam classificados como não financeiros, mas que podem impactar os negócios no médio ou longo prazo.
Se há alguma perspectiva para o futuro desta agenda, diria que é esta: conforme o mercado compreende os mecanismos pelos quais estratégias de sustentabilidade adicionam valor e protegem ativos, é esperado que investidores integrem esses aspectos em seus mecanismos de avaliação, em um processo que tende a tornar a agenda parte do “pacote básico” do mercado financeiro. Sou otimista para apostar que em alguns anos deveremos chegar a esse futuro com “ESG em todo lugar”, tão comum que sequer pensaremos na sigla, mas sim nos componentes que ela traz para gestão de riscos. Talvez deixemos de escrever a sigla, mas o seu conteúdo é mais necessário do que nunca.
- Danilo Maeda é diretor geral da Beon, consultoria de ESG da FSB Holding
- Marcelo Diego é sócio da FSB Holding
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