Publicidade
Capa / Econômia

O papel do homem no avanço das políticas de proteção à mulher | ESG

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 23/10/2024 às 06:30 · Atualizado há 1 dia
O papel do homem no avanço das políticas de proteção à mulher | ESG
Foto: Reprodução / Arquivo

Sendo o homem o principal causador e catalizador das inúmeras formas de violência diariamente sofridas pelas mulheres, cabe também ao homem o dever de lidar com as responsabilidades que recaem sobre ele e de se engajar de forma efetiva no combate a qualquer das vertentes em que tal violência possa se materializar – física, moral, sexual, psicológica, patrimonial, etc.

Quando me questionam sobre o papel do homem no avanço das políticas de proteção à mulher, geralmente faço menção a um processo tripartite que desenvolvi para uso pessoal, com o objetivo de facilitar o meu próprio entendimento dos aspectos envolvidos. É o mesmo processo que adoto quando discuto tais tópicos com outros homens. Falaremos mais detidamente sobre cada uma das etapas desse processo, mas, em suma: é preciso conscientizar-se, educar-se e agir.

Etapa 1: A conscientização

Quando um homem pretende refletir ou discutir sobre qualquer tema relacionado à mulher, deve iniciar com um exercício de humildade, que lhe permita visualizar a perspectiva privilegiada de que desfruta no contexto socialmente construído ao longo do tempo, e que reflete as diretrizes estabelecidas majoritariamente pelo sujeito masculino, na consolidação de uma estrutura e sistema patriarcais.

Ao despertar para essa necessária conscientização, o homem se permite romper os limites de compreensão aos quais sempre se manteve confortavelmente confinado. Limites que lhe são impostos não apenas por si próprio, mas também por seus pais, amigos e por parte significativa da sociedade, ao (preferir) adotar e/ou promover um olhar enviesado dos acontecimentos pretéritos, correntes e prospectivos. Viés esse que traz consigo a falsa e incorreta percepção de que as coisas são como são para os homens, inclusive com suas marcantes distinções e idiossincrasias em comparação a como são para as mulheres, por ter ele, na sua condição e qualidade de homem, o direito de que tais coisas assim o sejam. Como se fosse ele merecedor, por uma força que se sobrepõe a todas e todos, do status quo que tanto o beneficia e que reluta em ver alterado.

Somente a partir dessa conscientização é que será possível a um homem experimentar um despertar de interesse para a busca de informações que lhe permitam compreender de forma mais completa o seu papel no desenrolar das coisas. Tal conscientização constitui, portanto, condição essencial para que homens consigam bem e efetivamente desempenhar o que deles se espera (e que lhes cabe) em relação a avanços nas políticas de proteção à mulher.

Etapa 2: O processo educativo

Ultrapassada a primeira etapa, e já despido daquele véu cravejado de privilégios que até então lhe encobria a vista, deverá o homem então iniciar uma incansável procura e coleta de informações e esclarecimentos que lhe municie de dados, relatos, queixas, reclamos e pleitos associados a violências, restrições, privações, preconceitos e limitações enfrentadas cotidianamente por um sem-número de mulheres, aqui e acolá.

E, nesse contexto, que sejam consultadas as fontes (por palavras ditas ou escritas) com autoridade para tratar dos temas em questão. Se quando estamos enfermos, consultamos um médico especialista naquela dada enfermidade; se quando enfrentamos uma questão jurídica, contratamos um advogado que conheça a fundo a temática envolvida; por que razão nós, homens, em questões que se refiram ou afetem as mulheres em geral, insistimos em nos arrogarmos um conhecimento que não temos ou que não nos pertence? Precisamos dar ouvidos às mulheres. E não o façamos para, cinicamente, agraciá-las com o direito de serem ouvidas. Façamos isso para, genuinamente, aprendermos algo.

Esse processo educativo é fundamental para que um homem tenha condições de entender a real magnitude e proporção do estrago causado às mulheres e de enxergar de que modo sua postura e atitudes contribuíram, contribuem e/ou contribuirão para a manutenção do atual estado das coisas.

E também para atinar para ajustes, mudanças e reformulações que possam contribuir para a transformação social há tanto reclamada, na incessante busca por um estágio de evolução e civilidade em que uma mulher não seja vítima de violência (por qualquer forma) simplesmente pelo fato de ser mulher; em que uma mulher não tenha de sentir medo de percorrer vias ou utilizar o transporte público pelo tão-só fato de ser mulher; em que não seja mais necessário discutir e reivindicar a adoção de ações afirmativas que tenham o propósito de assegurar direitos às mulheres, inclusive a sua efetiva participação em todas as instâncias e esferas de poder, na vida pública ou privada.

Mais do que desempenhar um papel secundário, de mero apoiador de uma causa que supostamente não lhe pertence, e de manifestar, de tempos em tempos, sua contida e tímida empatia pela luta das mulheres, deve o homem assumir um papel ativo, de verdadeiro agente de transformação.

A começar por mudar a si próprio e incorporar em seu cotidiano postura e atitudes que tenham o potencial de chacoalhar o tal status quo, e que não tenham a finalidade, ou possam implicar, em desautorização leviana de uma mulher (inclusive por meio do malfadado mansplaining), em subestimação de suas ideias, anseios e/ou desejos, em negação a seus direitos, ou em sua objetificação, para citar apenas alguns exemplos.

Mas isso não basta. Para além de mudanças internas ou estritamente relativas a si próprio, deve o homem também exercer a sua influência sobre outros homens, com vistas a amplificar o alcance dos esforços e de incrementar as chances de que a almejada transformação social seja de fato implementada.

Mesmo as pequenas iniciativas têm a potencialidade de trazer resultados efetivos. Seja a proposição franca e desinibida do tema naquele almoço com seus colegas de escritório ou no churrasco com os amigos do futebol; seja o engajamento honesto em discussões nas pequenas rodas de conversa entre homens da sua família ou do seu convívio mais próximo ou rotineiro; seja a repreensão sincera de uma fala ou atitude de um homem no tocante a uma mulher, com a qual você não concorde; seja, ainda, o posicionamento concreto e público contra toda e qualquer forma de violência contra a mulher.

E tenham certeza de uma coisa: ao fazê-lo, não estarão os homens aderindo ao partido do “politicamente correto”, não estarão eles contribuindo para que a sociedade se torne “mais chata”, tampouco abdicando de sua hombridade. Já passou da hora de colocarmos as coisas (e certas pessoas) nos seus devidos lugares.

Agir é, sem dúvidas, um ato de coragem. E coragem é algo que não deveria faltar a um homem. Ao menos essa é a fantasia e a (amarga) ilusão de que nós, homens, sempre tentamos convencer a todos. E você: é corajoso?

​Igor Silva de Lima é sócio das áreas de Societário e M&A e Reestruturação e Insolvência do BMA Advogados. Possui ampla experiência em reorganizações societárias e operações de M&A nacionais e internacionais, bem como em reestruturação de empresas e insolvência. Igor possui Mestrado em Direito (LL.M - with Merit) pela University College London e Especialização em Direito Civil e Processo Civil pela Universidade Estadual de Londrina.

Igor Silva de Lima é sócio das áreas de Societário e M&A e Reestruturação e Insolvência do BMA Advogados — Foto: BMA Advogados/ Divulgação

(*) Disclaimer: Este artigo reflete a opinião do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.


Source link

Comentários (0)

Faça login ou cadastre-se para participar da discussão.

Seja o primeiro a comentar!

Publicidade