A indústria automotiva global está sob crescente pressão pela redução nas emissões de gases de efeito estufa e o tema da mudança climática coloca as escolhas tecnológicas do setor automotivo no centro das atenções. Em 2025, as estratégias estarão voltadas às soluções que promovam a transição e a mobilidade sustentável, sem impactar negativamente a economia. A adaptação às novas demandas do mercado exige abordagens multifacetadas, que envolvem inovações, conscientização e a criação de um cenário favorável para investimentos em infraestrutura.
O modelo baseado no motor a combustão interna, ainda dominante, enfrenta desafios imensos em termos de eficiência energética e impacto ambiental. O cenário atual exige uma nova revolução, como reduzir a pegada de carbono sem perder a funcionalidade dos veículos. A resposta pode ser a convergência de várias tecnologias emergentes, como os motores elétricos, híbridos e a incorporação de biocombustíveis.
Os motores elétricos representam uma solução promissora, por sua eficiência energética e ausência de emissões diretas. No entanto, desafios como a limitação da infraestrutura de recarga e os impactos ambientais na produção de baterias, especialmente no uso de minerais críticos, ainda precisam ser superados. A infraestrutura de carregamento deve ser prioridade, assim como espera-se que os preços sejam reduzidos, para que o país se beneficie da transição tecnológica com mais acessibilidade aos veículos eletrificados
Por outro lado, os motores híbridos representam a solução prática da transição. Operando com eletricidade e menos combustíveis fósseis, oferecem flexibilidade, eficiência no consumo e redução das emissões. O investimento em tecnologias que integrem biocombustíveis em motores híbridos tem ganhado destaque e o Brasil irá se beneficiar dessa integração.
As tecnologias híbridas têm papel crucial no transporte pesado, onde a eletrificação completa enfrenta limitações operacionais pelo peso das baterias e baixa autonomia. Neste setor, combustíveis renováveis como o biometano e o biodiesel são incorporados com sucesso, garantindo a redução das emissões de gases poluentes sem comprometer o desempenho.
Energéticos sustentáveis em foco
Os biocombustíveis continuam sendo uma das opções mais viáveis para a transição energética, especialmente no Brasil, líder na produção de etanol, biodiesel e com enorme potencial para o biometano. A utilização desses energéticos em motores a combustão interna representa solução acessível e eficaz para a redução das emissões de CO2. A adaptação de motores a diesel para biodiesel ou HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado) está sendo adotada sem grandes modificações no veículo, facilitando a descarbonização de frotas existentes, especialmente no setor de transporte de carga. No caso do biometano há bons programas de adaptação dos veículos que estão se tornando modelo.
Embora os motores a combustão modificados com biocombustíveis ofereçam uma solução imediata, o hidrogênio também é uma tecnologia promissora, especialmente no transporte pesado. O uso de células de combustível de hidrogênio permite zerar as emissões de poluentes, sendo relevante para caminhões e ônibus de longa distância. Apesar da infraestrutura limitada e do custo elevado de produção, o desenvolvimento do hidrogênio verde, obtido a partir de fontes renováveis, tem recebido investimentos significativos. Com isso, espera-se que essa tecnologia ganhe escala e se torne uma solução viável para a descarbonização do setor de transportes pesados nos próximos anos, sem esquecer que o hidrogênio também é um combustível que pode ser injetado diretamente no motor, vencidos os desafios de armazenagem e transporte do energético.
Para que a transição energética seja bem-sucedida é fundamental que políticas públicas apoiem a adoção de tecnologias sustentáveis e incentivem investimentos. A neutralidade tecnológica, essencial, defende a liberdade de escolha entre alternativas, permitindo que soluções sejam adotadas conforme as necessidades de cada contexto.
O setor privado tem se mostrado cada vez mais comprometido com a transição energética, com exemplos de investimentos em tecnologias que visam reduzir as emissões nos setores agrícola e de transporte pesado. Essa adoção de tecnologias mais limpas, aliada a políticas públicas eficientes, será essencial para garantir que o Brasil esteja mais avançado na jornada da mobilidade sustentável e lidere esta transição global, principalmente pela sua experiência com biocombustíveis e energias renováveis.
O Brasil acaba de aprovar a mais avançada Lei de incentivo à descarbonização na mobilidade, no mundo, o Combustível do Futuro, a Lei 14.993. A combinação de tecnologias adaptadas às necessidades locais, infraestrutura disponível e políticas de incentivo à inovação com investimentos em biocombustíveis, hidrogênio, eletrificação e híbridos, nos traz protagonismo. É preciso uma comunicação eficaz e uma agenda regulatória que transforme tudo isso em realidade.
- José Arnaldo Laguna é membro do Acordo de Cooperação Mobilidade de Baixo Carbono para o Brasil (MBCB) e presidente do Conselho Nacional de Retífica de Motores (CONAREM).
- Everton Lopes é diretor da MAHLE América do Sul.
- Gilles-Laurent Grimberg é CEO da Actioil América Latina.
(*) Este artigo reflete a opinião do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.
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