A mudança na perspectiva da nota de crédito do Brasil pela Moody’s, de positiva para estável, parece mais um movimento de normalização, já que, desde que a agência de classificação de risco aumentou o "rating" do país e manteve a perspectiva positiva, em outubro do ano passado, não houve avanços na pauta fiscal, diz Rai Chicoli, economista-chefe da Citrino Gestão de Recursos.
"A gente teve uma melhora no fim do ano passado que não teve muita justificativa. Para mim, essa perspectiva agora até parece a correção, entre muitas aspas, de um erro. Talvez, eles tenham confiado que o país iria fazer as reformas necessárias. Também não aconteceu nada tão drástico para mudar a nota, então, acho que eles corrigindo um otimismo que eles tiveram colocando uma perspectiva mais condizente, mais realista", afirma.
Quando a Moody's revisou para cima a nota do Brasil, a agência deu um peso grande às surpresas com o crescimento do país. Mas, embora o Brasil tenha crescido acima do potencial nos últimos anos, isso não contribuiu para uma melhora do resultado primário, observa Chicoli. "Isso não virou um ganho de melhora fiscal, basta olhar para o próprio resultado primário estrutural. O crescimento ajuda o fiscal, mas o nível de despesas não permite que só o crescimento coloque as contas em ordem", afirma.
Ao mudar a perspectiva do Brasil para estável, a Moody's menciona a necessidade, por exemplo, de se desvincular benefícios sociais do salário mínimo, uma discussão que, apesar de ter ganhado fôlego novo com sugestões recentes do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, não é nova, observa Chicoli.
"Mas, de outubro para cá, teve aquele pacote fiscal no fim do ano passado, que não foi um pacote na verdade e ainda veio com o projeto de aumentar a isenção do Imposto de Renda. O Banco Central subiu mais os juros do que se esperava, até como reação a isso. Então, o fiscal, para não falar que piorou, com certeza não melhorou, porque é mais pagamento de juros e o governo, quando teve oportunidade, não apresentou uma proposta mais robusta", afirma Chicoli.
O resultado, diz, é que a dívida deve subir 3% este ano, 4% no ano que vem, e assim por diante. "Não tem uma trajetória crível de primário que estabilize a dívida nos próximos anos", afirma.
Além disso, para Chicoli, existem várias discussões em andamento "com a cabeça em 2026", diz, em referência à eleição presidencial. "Ainda que eu não veja nada com grande impacto fiscal, vamos estar sempre sob esse risco, de talvez ter um aumento do Bolsa Família, um aumento mais forte do salário mínimo", afirma.
Apesar disso, como o quadro fiscal do Brasil já é conhecido e o mercado está muito suscetível, ultimamente, ao cenário externo, Chicoli diz não esperar reações expressivas dos ativos financeiros à decisão da Moody's.
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