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Megaoperação no Rio para conter avanço do CV deixa ao menos 20 mortos | Brasil

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 28/10/2025 às 12:18 · Atualizado há 1 semana
Megaoperação no Rio para conter avanço do CV deixa ao menos 20 mortos | Brasil
Foto: Reprodução / Arquivo

Uma megaoperação das polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, deixou dois policiais civis mortos e ao menos outros oito agentes feridos, na manhã desta terça-feira. De acordo com a Polícia Civil, 18 suspeitos foram mortos, dois deles da Bahia. Quatro moradores também foram atingidos. O objetivo da ação é cumprir mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho (CV), 30 deles de fora do Rio, escondidos nos dois conjuntos de favelas, identificados pela investigação como bases do projeto de expansão territorial do CV. Até o fim da manhã, 56 pessoas foram presas e 31 fuzis foram apreendidos na ação, que mobiliza 2,5 mil policiais e também promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ).

  • Marcos Vinicius Cardoso Carvalho - policial civil da 53ª DP (Mesquita) que era conhecido como Máskara. Ele morreu no Hospital estadual Getúlio Vargas
  • Policial civil da 39ª DP (Pavuna) - morto momentos após chegar ao Hospital Getúlio Vargas
  • Três policiais civis - lotados na 38ª DP (Irajá), na 26ª DP (Todos os Santos) e na Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE)
  • Cinco policiais militares
  • 18 suspeitos mortos, entre eles dois homens apontados como traficantes vindos da Bahia
  • Quatro moradores

Um cabo do Batalhão de Operações Especiais (Bope) foi o primeiro a ser atingido durante o confronto. Ele estava numa região de mata conhecida como Vacaria e foi ferido de raspão, segundo a PM. O agente foi levado para o Hospital Central da corporação. Estão feridos ainda um morador em situação de rua que não foi identificados, e outros três moradores: Fernando Vinícius Lopes, Kelma Rejane Magalhães e Daniel Mello dos Santos. Kelma estava numa academia quando foi atingida na região dos glúteos. Todos têm estado de saúde estável.

Um dos presos é o operador financeiro de Edgard Alves de Andrade, o Doca, apontado como um dos principais chefes da cúpula do CV na Penha. O outro é Thiago do Nascimento Mendes, o Belão do Quitungo, um dos braços armados de Doca.

Moradores dos conjuntos de favelas, formados por 26 comunidades, usam as redes sociais para relatar intensos tiroteios. Fogo foi ateado em barricadas e foi possível ver colunas de fumaça à distância. Policiais foram atacados por granadas lançadas por drones, afirmou o secretário de Segurança Pública, Victor dos Santos, em entrevista ao Bom Dia Rio. O telejornal mostrou ainda criminosos fugindo por uma área de mata. Ônibus foram usados como barricadas e linhas tiveram que ser desviadas. Unidades de saúde e educação tiveram o funcionamento suspenso.

A ação que visa a capturar chefes do tráfico do Rio e de outros estados e combater a expansão territorial do CV acontece após de mais de um ano de investigações. Segundo o Gaeco, são cumpridos 51 mandados de prisão expedidos contra traficantes que atuam na região, e um total de 67 pessoas denunciadas pelo crime de associação para o tráfico, além de três homens denunciados também por tortura.

De acordo com os promotores, Doca é a principal liderança do CV no Complexo da Penha e em comunidades como Gardênia Azul e César Maia, na Zona Sudoeste, e Juramento, na Zona Norte, algumas delas recentemente tomadas da milícia. A denúncia do MPRJ aponta ainda que exercem liderança no CV Pedro Paulo Guedes, conhecido como Pedro Bala; Carlos Costa Neves, o Gadernal; e Washington Cesar Braga da Silva, o Grandão.

"Eles emitem ordens sobre a comercialização de drogas, determinam as escalas dos criminosos nas 'bocas de fumo' e nos pontos de monitoramento, e ordenam execuções de indivíduos que contrariem seus interesses", afirma o Gaeco em nota. A denúncia diz ainda que, por estar perto de algumas das principais vias expressas do Rio e ser ponto estratégico para o escoamento de drogas e armamentos, o Complexo da Penha se tornou uma das principais bases do projeto expansionista do CV, especialmente em direção a comunidades da região de Jacarepaguá, na Zona Sudoeste carioca.

Participam também da operação desta terça-feira, chamada de Contenção, policiais militares do Comando de Operações Especiais (COE) e das unidades operacionais da PM da capital e da Região Metropolitana. A Polícia Civil mobilizou agentes de todas as delegacias especializadas, das distritais, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), do Departamento de Combate à Lavagem de Dinheiro e da Subsecretaria de Inteligência.

É usado ainda aparato tecnológico, como drones, dois helicópteros, 32 blindados terrestres e 12 veículos de demolição do Núcleo de Apoio às Operações Especiais da PM, além de ambulâncias do Grupamento de Salvamento e Resgate.

Bandidos lançaram granadas

Em uma demonstração inédita de poder bélico, traficantes utilizaram drones para lançar granadas contra equipes das forças especiais da Core e do Bope. A tática representa uma nova escalada no poder de fogo do crime organizado no Rio e tem como objetivo conter o avanço da operação e proteger a alta cúpula da facção.

Para atacar os policiais, os criminosos acionam um gatilho mecânico ou elétrico que libera a carga enquanto mantêm o equipamento em voo, afastando-se sem se expor. Além de funcionar como um “bombardeiro” improvisado, o drone também é usado como instrumento de reconhecimento para orientar as reações das quadrilhas.

Imagens desta terça-feira mostram ainda barricadas em chamas, formando colunas de fumaça visíveis a quilômetros de distância.

A forte resistência à ação policial se explica pelo fato de que os complexos do Alemão e da Penha funcionam como o “QG” da facção, locais onde ocorrem reuniões da cúpula criminosa. A Penha foi apontada pelo MPRj como uma das principais bases estratégicas do Comando Vermelho (CV) para implementar seu projeto de expansão territorial rumo à Zona Sudoeste, especialmente na região de Jacarepaguá. A informação consta em denúncia apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO/MPRJ).

Por causa da operação, 46 unidades de educação municipais fecharam as portas. Vinte e nove delas ficam no Alemão e outras 17, no Complexo da Penha.

Cinco unidades de Atenção Primária que atendem a região da Penha e do Complexo do Alemão suspenderam o início do funcionamento, informou a Secretaria municipal de Saúde. De acordo com a pasta, elas avaliam a possibilidade de abertura nas próximas horas. Uma clínica da família mantém o atendimento à população, mas suspendeu as atividades externas, como as visitas domiciliares.

O Rio Ônibus informou que quatro ônibus tiveram suas chaves retiradas e foram utilizados como barricadas em diferentes regiões da cidade. Vinte linhas de ônibus também estão com seus itinerários desviados preventivamente, informou o sindicato.

Forasteiros nas comunidades do Rio

Há duas semanas, os jornais O GLOBO e Extra mostram como o Comando Vermelho intensifica sua presença em outros estados do país, numa estratégia de nacionalização frente ao Primeiro Comando da Capital (PCC), com elos dentro de presídios federais. Com esse objetivo, o grupo carioca incorpora ou se alia a facções locais, ao mesmo tempo em que abriga, nas comunidades do Rio, traficantes vindos de fora. Em áreas sob domínio da facção no Rio, órgãos de segurança pública fluminenses já identificam a presença de criminosos de 12 estados, como Ceará, Bahia, Rondônia e Minas Gerais. Por outro lado, o CV se espalha por 25 estados e o Distrito Federal.

A migração de bandidos para o Rio é um sistema de “ganha-ganha”: os criminosos de fora que chegam a comunidades como a da Rocinha e as do Complexo do Alemão conquistam proteção, status e novos conhecimentos na cidade; já o CV amplia franquias Brasil afora, incluindo poderio sobre rotas de escoamento de armas e drogas.

— Hoje está muito comum falar de trabalho híbrido ou remoto. O crime faz o mesmo. Eles entenderam que o chefe não precisa mais estar no estado de origem. Ele pode ficar protegido no Rio e tomar as decisões por videochamadas. Isso é muito vantajoso para todos eles. O chefe do tráfico fica num local de difícil acesso para a polícia, e a organização protege seus principais ativos, diminuindo a rotatividade e gerando estabilidade nos negócios, principalmente em estados que fazem fronteira com outros países — disse, dois domingos atrás, o promotor de Justiça Anderson Batista de Oliveira, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Rondônia, um dos estados que têm chefes do tráfico presentes no Rio.

A segunda maior facção do Rio, o Terceiro Comando Puro (TCP), também já adota a expansão pelo Brasil, revela a série Conexões do Crime, do EXTRA. Levantamento do jornal mostrou que a guerra entre CV e TCP, inclusive, já se replica em pelo menos cinco estados (Espírito Santo, Minas Gerais, Ceará, Bahia e Acre). As facções cariocas vêm disseminando também táticas de ocupação e exploração de territórios, como cobrança de taxas ilegais e venda de sinal clandestino de internet, além de uso de fuzis e montagem de barricadas.

Na Bahia, a Secretaria de Segurança Pública do estado afirmou a atuação de organizações fluminenses é investigada e que as apreensões de fuzis aumentaram quase 300%, de 2022 a 2024, quando foram recuperadas 22 e 86 unidades, respectivamente. Somente este ano, 114 foram apreendidos, diz a pasta.

(Por Anna Bustamante, Ana Carolina Torres, Gabriel de Paiva, Fabiano Rocha, Roberta de Souza e Marcos Nunes)

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