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Limitação para análise de dado é mais um episódio de Censo complexo | Brasil

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 02/05/2025 às 06:07 · Atualizado há 1 hora

O comunicado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de que não será possível analisar o rendimento da população a partir informações coletadas em todos os domicílios brasileiros no Censo Demográfico 2022 é mais um episódio de destaque em uma operação censitária marcada por dificuldades e atrasos.

As polêmicas começaram ainda em 2019, quando o comando do instituto reduziu o orçamento da pesquisa em 27%, para R$ 2,3 bilhões, sob pressão dos cortes orçamentários do então governo federal. O então ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a dizer que venderia prédios do IBGE para financiar o Censo.

O Censo foi adiado por dois anos seguidos – primeiro em 2020 por causa da pandemia e depois em 2021 por falta de recursos no Orçamento da União. A pesquisa ficou para 2022, após determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para a realização.

A coleta dos dados só começou em agosto de 2022 e durou oito meses – quase três vezes o tempo tradicional da pesquisa, que é de três meses. Ao longo do trabalho de campo, eram comuns as reclamações de recenseadores sobre pagamentos atrasados. A primeira divulgação dos dados ocorreu no fim de junho de 2023, mas o ritmo também tem sido mais lento que em operações censitárias anteriores e ainda há dados para serem publicados pelo menos até o fim de 2025.

“O Censo é a operação estatística mais importante do país e envolve um trabalho longo de planejamento e execução. É uma operação complexa e dessa vez foi à campo com um orçamento muito abaixo do estimado inicialmente”, afirma o ex-presidente do IBGE Roberto Olinto, que deixou o comando do instituto em 2019 e alertou na época para possíveis consequências da mudança.

A redução dos questionários do Censo foi um dos caminhos encontrados pela gestão da presidente Susana Cordeiro Guerra para reduzir os custos. Entre os demógrafos, havia duas correntes diferentes na avaliação sobre os questionários.

De um lado, um grupo defendia a simplificação e a diminuição do número de perguntas para reduzir o tempo de duração de entrevista e ampliar a produtividade dos recenseadores. A outra corrente destacava os riscos de questionários mais enxutos para a disponibilidade das informações e o impacto nas séries históricas dos dados.

A pesquisa enfim foi a campo com menos perguntas. Há dois tipos de questionários no Censo: o básico, que é menor e aplicado em todos os lares - no que o IBGE chama de total do universo - e o completo, mais detalhado e feito em parte dos domicílios, uma amostra da população.

Nesta quarta-feira (30), o IBGE informou que o Censo Demográfico 2022 não permitirá análise do rendimento da população a partir de informações coletadas no universo da pesquisa. Essa análise, segundo o instituto, será possível apenas para a amostra da população.

A situação reflete, segundo o instituto, a redução das perguntas sobre renda no questionários básico em 2022. Em nota, o IBGE citou “restrições para a produção e análise de indicadores sociais” para justificar a impossibilidade da análise desses dados.

No Censo 2022, o quesito de rendimento do questionário básico investigou apenas a renda da pessoa responsável pelo domicílio, ante uma investigação mais ampla em 2010, que incluiu todos os moradores com 10 anos ou mais.

Com isso, explicou o IBGE, não foi possível calcular o rendimento domiciliar per capita, indicador que precisaria do rendimento dos demais integrantes do domicílio.

“Devido a essa limitação, não podem ser produzidos indicadores como Índice de Gini do rendimento domiciliar, linhas de pobreza monetária e outros que necessitam da captação de todas as fontes de rendimentos da totalidade dos moradores das unidades domiciliares”, aponta o texto divulgado pelo IBGE.

Tradicionalmente os dados de renda são mais difíceis de serem pesquisados. Há cautela da população em dar esse tipo de informação e alguns nem mesmo sabem sua renda completa, como no caso de parte dos trabalhadores informais.

“A renda é uma variável muito sensível, nem sempre as pessoas querem falar ou se esquecem. Nesse caso, é ainda mais importante ter uma base com mais dados e mais rico, como é a do que chamamos de universo. Com a amostra, temos informações mais limitadas para calcular distribuição de renda, por exemplo”, explica Olinto.

Chefe do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Ricardo Ojima afirma que o comunicado do IBGE não traz nenhuma novidade em relação aos alertas feitos em 2019.

“Quando o questionário foi cortado, ficou claro que não haveria essas informações para todos os domicílios. A grande perda é que a falta de comparabilidade com os dados de 2010”, diz.

Diante das transformações nas políticas sociais nos últimos anos, o demógrafo acredita que seria importante ter dados mais completos para os rendimentos: “A diversidade e a complexidade da população brasileira exige um questionário do Censo que represente essa complexidade”.

Na sua avaliação, no entanto, a limitação para a análise nos dados da amostra e não da população como um todo não invalidam as informações. “A ausência da informação não invalida nem desmerece o trabalho do IBGE. Será possível fazer a análise de rendimentos pela amostra da população. E o IBGE ainda prezou pela transparência com esse comunicado”.

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