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Jornada de empresas ao 'net positive' passa por medir seu verdadeiro impacto na sociedade e natureza | ESG

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 19/03/2025 às 06:30 · Atualizado há 3 dias
Jornada de empresas ao 'net positive' passa por medir seu verdadeiro impacto na sociedade e natureza | ESG
Foto: Reprodução / Arquivo

No livro “Net Positive” (“Impacto Positivo”, na tradução livre), Paul Polman, ex-CEO da Unilever, e Andrew Winston, renomado consultor e escritor na área de sustentabilidade, defendem que as empresas não devem só mirar no lucro, mas também ter um impacto socioambiental positivo. Em outras palavras, as companhias não devem se preocupar apenas em minimizar os danos que causam à natureza e à sociedade - isso é importante, claro -, mas também precisam se reinventar para, com sua atuação, ganharem dinheiro gerando benefícios aos stakeholders. E eles vão além: acreditam que o futuro das empresas está em lucrar solucionando os problemas do mundo, não os criando, o chamado de “net positive”.

Apesar de o status de ‘net positive’ parecer ainda distante da realidade da maioria dos negócios, a jornada passa, necessariamente, por uma etapa fundamental: a mensuração do verdadeiro impacto dos negócios, seja ele positivo e/ou negativo, direto e/ou indireto.

A Afya, hub de educação e soluções para a prática médica do Brasil, se valeu de um estudo robusto com métodos mistos para calcular os impactos sociais de suas escolas de Medicina, combinando dados qualitativos e quantitativos ao longo do tempo, nas regiões onde atua.

O Relatório de Avaliação de Impacto, desenvolvido em parceria com a Flow.Ers e publicado recentemente, apontou, por exemplo, o fato de a empresa existir, ou seja, atuar com educação no ensino superior na área médica, ajudou a reduzir a taxa de internação por doenças preveníveis em 15,2% e nas condições sensíveis à atenção primária em 14,0% entre 2004 e 2021, nos 20 municípios em que o grupo atua.

Segundo Stella Brant, vice-presidente de Marketing e Sustentabilidade da Afya, o fato de as faculdades de Saúde e Medicina atraírem alunos de outras regiões do país para estudar e, muitos, se fixarem nos locais para trabalhar, é um dos fatores que ajuda a explicar os resultados. Após os estudos, 12% dos estudantes ficam no local ou nas proximidades.

Além de contribuir com a injeção de recursos nas economias locais, particularmente em cidades do interior do Brasil, a educação médica também tem um efeito direto na melhoria das condições de saúde pública e nas economias locais.

Em números, a conclusão é que, para cada R$ 1,00 investido em seus cursos de Medicina, são gerados R$ 3,58 em benefícios sociais para a população. O impacto econômico é estimado em cerca de R$ 15,8 bilhões entre 2020 e 2021, considerando que os investimentos feitos pela empresa foram da ordem de R$ 4,4 bilhões no período.

Para chegar a essa conta, o estudo se baseia no cálculo do chamado Retorno Social do Investimento (SROI). No caso do setor de saúde, uma das principais variáveis é a estimativa do Valor Estatístico da Vida (VSL), que quantifica o valor monetário atribuído à prevenção de mortes, ou seja, o quanto a existência da empresa contribui para a expectativa de sobrevida das pessoas que deixaram de morrer em cada município que atua.

Utilizando parâmetros globais, como os da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e metodologias regionalizadas para o Brasil pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o estudo da Afya concluiu que, em 2021, foram salvas 2.827 vidas por intervenção de suas escolas de Medicina nos 20 municípios avaliados.

“É interessante que, a partir do estudo, vemos que nosso negócios não só é financeiramente viável, mas socialmente rentável porque gera muito impacto nas comunidades em que atua”, afirma. Outro ângulo da análise é a percepção de que o impacto positivo está intrínseco à expansão do negócio. “Quanto mais a Afya cresce, mais impacto ela gera.”

Afya passou a medir seu impacto econômico e social nas cidades que atua, considerando presença de médicos e melhorias ao atendimento à saúde — Foto: Arquivo/ Afya

Brant reitera que, ao monetizar o impacto gerado ponderado pelos investimentos feitos, também fica mais fácil tomar melhores decisões sobre alocação de recursos. Isso tanto em projetos de responsabilidade social corporativa quanto para a prosperidade do negócio em si.

“Quanto mais conseguimos medir isso, mais clareza temos para colocar intencionalidade na nossa estratégia”, acrescenta.

Ela cita, por exemplo, a decisão tomada recentemente de reforçar as frentes de atenção primária à saúde, a doenças previsíveis que podem ser evitadas com imunização, e redução de internações como um dos resultados da análise. “Com o entendimento das populações locais e produção de pesquisas científicas, vamos direcionar esforços para estas áreas onde entendemos que já geramos mudanças e podemos ter ainda mais”, comenta Brant.

A meta principal do compromisso é realizar 5 milhões de atendimentos gratuitos de saúde até 2030, incluindo atendimentos médicos, de psicologia, fisioterapia, odontologia, entre outras especialidades. Para isso, a empresa pretende chegar a uma rede de 27 ambulatórios próprios, 16 unidades de graduação e expandir os serviços de telemedicina, de acordo com Stella Brant.

Stella Brant, VP de Marketing e Sustentabilidade da Afya: Empresa tem compromisso de realizar 5 milhões de atendimentos gratuitos de saúde até 2030 — Foto: Afya/ Divulgação
Stella Brant, VP de Marketing e Sustentabilidade da Afya: Empresa tem compromisso de realizar 5 milhões de atendimentos gratuitos de saúde até 2030 — Foto: Afya/ Divulgação

Agora, o foco será acrecentar ao SROI o cálculo dos efeitos do uso, pelos médicos e profissionais da saúde, dos softwares de gestão e atendimento a pacientes desenvolvidos pela empresa. Este trabalho está começando em cinco cidades-teste e deve ainda levar alguns anos para ficar pronto.

O foco do SROI é, porém, restrito ao campo social. A opção por este foco se deve ao próprio negócio, que gera mais impacto à sociedade que ao meio ambiente. Mas isso não significa que a Afya não tenha outros desafios.

Apesar de 17 unidades de graduação já contarem com usinas fotovoltaicas nas instalações, e a empresa comprar energia elétrica de fonte renovável, garantindo a procedência com certificados I-RECs (International Renewable Energy Certificate), ela ainda precisa trabalhar para reduzir, por exemplo, o consumo de energia por ar-condicionados. Sozinho, o item representa 30% de todas as emissões de gases de efeito estufa da companhia no escopo 1, das operações diretas. A Afya se comprometeu publicamente em reduzir, até 2035, 30% a intensidade de suas emissões de Escopo 1, 30% da intensidade do volume de água captada e diminuir também o percentual de resíduos que vai parar em aterros sanitários.

“Medir em si é interessante para mostrar externamente o trabalho e a evolução, mas o verdadeiro benefício mesmo da mensuração é dar subsídio para a empresa direcionar os esforços e priorizar as frentes de trabalho”, comenta Angela Pinhati, diretora de Sustentabilidade da Natura. A Natura &Co. foi pioneira no Brasil em rastrear com profundidade sua pegada no planeta e adotar uma estratégia de negócio regenerativa, ou seja, que visa gerar impactos sistêmicos positivos para pessoas, natureza e sociedade.

Depois de alguns anos de aprendizado, em 2020, a fabricante de cosméticos adotou um balanço integrado que inclui resultados financeiros e também as métricas de outras dimensões: capital humano, capital social e capital ambiental. “Ao longo do tempo, vamos entendendo melhor o conceito e o que ele agrega. Não é algo exclusivo da Natura; trabalhamos com outras instituições, como a Capital Coalition, para chegar a uma metodologia confiável”, explica a executiva da empresa. O resultado é o chamado Integrated Profit & Loss (IP&L), uma ferramenta de gestão que integra ganhos e perdas para medir e reportar os efeitos socioambientais da operação.

O último balanço do IP&L, publicado em meados do ano passado com dados de 2023, aponta que, para cada R$ 1 de receita líquida, a Natura gera R$ 2,70 de impacto positivo no planeta e nas pessoas. O próximo documento, com informações de 2024, vai ser publicado nos próximos meses.

Cada dimensão se desdobra em uma série de indicadores. No capital natural, por exemplo, a empresa avalia consumo de água, poluição, impacto na biodiversidade e as emissões de gases de efeito estufa no uso da terra. Mas também pondera os efeitos positivos do desenvolvimento da cadeia de insumos da sociobiodiversidade da Amazônia. “O único capital negativo que temos hoje é o natural. Por isso, precisamos seguir com o plano de transição climática”, conta.

A executiva explica que as operações industriais e dos centros de distribuição da empresa representam apenas 4% das emissões de GEE. O calcanhar de Aquiles mesmo, portanto, está no escopo 3, ou seja, na cadeia de matérias-primas, nas embalagens, na logística e outras atividades fora das instalações próprias. A meta é chegar ao status de carbono neutro até 2030 nos escopos que ela controla diretamente (1 e 2) e reduzir 42% do escopo 3 até 2030, neutralizando as emissões totais até 2050.

É também no campo ambiental que a empresa tem mais espaço para inovar. O Natura Ekos Hidratante Concentrado de Castanha, lançado em 2024, é um dos exemplos. Primeiro do mundo de seu tipo, ele levou três anos de pesquisa e desenvolvimento sobre ingredientes, avaliações físico-químicas, sensoriais e de eficácia pelo time da Natura para ir ao mercado. O resultado foi um óleo concentrado em que, ao ser acrescido de água e agitado, se transforma em um creme hidratante com 95% de produtos naturais na fórmula.

Além da própria inovação de produto, também foi desenvolvida uma embalagem refilável feita 100% com plástico retirado dos rios amazônicos e reutilizável. O frasco do concentrado apresenta uma redução de 81% no uso de material plástico em relação ao refil convencional, o que diminui em 55% a geração de resíduos e, conforme mede a empresa, emite 20% menos gases do efeito estufa e requer 75% menos caminhões para o transporte.

Natura pondera os efeitos positivos do desenvolvimento da cadeia de insumos da sociobiodiversidade da Amazônia em seu IP&L — Foto:  Divulgação
Natura pondera os efeitos positivos do desenvolvimento da cadeia de insumos da sociobiodiversidade da Amazônia em seu IP&L — Foto: Divulgação

“Cada componente desse produto carrega consigo o benefício de uma pele mais saudável, um planeta mais sustentável e um convite a um novo jeito de consumir”, comentou, na ocasião do lançamento, Tatiana Ponce, vice-presidente de Marketing, Pesquisa e Inovação da Natura.

Outro exemplo de produto regenerativo é a linha de shampoos sólidos Biome, cuja matéria-prima é óleo de palma produzido em sistema agroflorestal e não usa plástico na embalagem. A empresa também lançou uma saboneteira produzida através da captura do gás metano, após ser transformado em uma bioresina.

Os desafios hoje, segundo Angela Pinhati, são adicionar outras variáveis ao cálculo do IP&L e terminar de integrar à avaliação algumas partes da Avon, empresa adquirido pela Natura &Co em 2019. Colocar a Avon na mesma página que a Natura foi, certamente, um dos maiores obstáculos, mas também um dos marcos de transformação, segundo Pinhati. Ao combinar suas forças de venda, a empresa não só expandiu sua atuação, mas também ampliou o impacto no capital humano, especialmente das consultoras de vendas. "A produtividade aumentou no modelo combinado, o que resultou em um aumento na renda das consultoras, impactando positivamente o capital humano", destaca a líder.

A Natura já incorporou as operações da Avon no Brasil e na América Latina, e a expectativa é integrar completamente os mercados do México e da Argentina até o primeiro semestre de 2025. Durante esse processo, a empresa também está focada em otimizar seus centros de distribuição e reduzir suas emissões de carbono, com a reorganização de fábricas.

Ao IP&L deve ser adicionada uma nova dimensão, a cultural, e a, ainda na dimensão social, a empresa se aprofunda no impacto que seus produtos causam no bem-estar das pessoas. Em parceria com o National Wellness Institute e o Global Wellness Institute, a empresa está desenvolvendo iniciativas para dimensionar o conforto físico, hidratação e limpeza da pele e, em última instância, o bem-estar dos consumidores. “Este é um foco importante para 2024, onde vamos avançar ainda mais no impacto positivo que nossas fórmulas e produtos podem trazer para a qualidade de vida das pessoas”, comenta a executiva.

A Natura foi, inclusive, um dos cases destacados por Polman e Winston no livro Net Positive. Na publicação, destacaram o uso de ingredientes sustentáveis, práticas éticas de abastecimento e compromisso com a biodiversidade da Amazônia, com práticas de negócios alinhadas com a conservação ambiental e o desenvolvimento social.

Natura e Afya fazem parte, porém, de um pequeno time de organizações que já entendeu que precisa rastrear com profundidade seu impacto social e ambiental no mundo se quiser se adequar a novos tempos e demandas.

“Se a empresa não vê um valor reputacional e/ou financeiro, é mais difícil contratar serviços de mensuração de indicadores de impacto”, comenta Adriana Graziela de Moraes, coordenadora de Sustentabilidade na Fundação Eco+, que nasceu para atender às necessidades da BASF, mas hoje atua de forma independente e presta serviço para diversas outras companhias.

Ela conta que as demandas que mais chegam são ainda bem primárias. “Muitas empresas pedem para a gente ajudar a entender quais os temas e pilares que elas devem atuar, montar estratégia de governança, construir a materialidade”, comenta Moraes.

Ela explica que, no passado, era mais comum pedirem a construção da matriz de materialidade, que leva em consideração o que os stakeholders externos e internos viam como essencial em questões ambientais, sociais e de governança (ESG) para a gestão. Agora, o conceito de dupla materialidade - que considera o impacto externo da empresa no planeta e na sociedade, e o impacto do planeta e da sociedade no resultado da empresa -, já é mais disseminado. “Não adianta uma indústria ter água como primordial, se ela usa a água de um manancial e não devolve com a mesma qualidade à população”, exemplifica.

Dentre os próximos desafios para as empresas estão, na opinião da executiva, a mensuração do impacto bilateral entre a atividade empresarial e a natureza nas análises. Isso passa, por exemplo, por entender a interdependência de recursos naturais - água é um dos exemplos -, mas também da biodiversidade. “O grande desafio da atualidade é pensar de forma sistêmica sobre natureza e biodiversidade, as práticas regenerativas, o capital natural e o impacto nos negócios”, diz Moraes.

Ela cita que a Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) tende a ganhar relevância, à medida que mais empresas busquem relatar e agir em questões relacionadas à natureza e à biodiversidade. Mas alerta que o diálogo com o financeiro - mensuração do impacto econômico de não ter mais os recursos naturais ou mesmo da perda de fauna e flora - ainda é falho.

“O desafio é como fazer as empresas a identificarem outros indicadores além do carbono. Dentro da análise do ciclo de vida de produtos, por exemplo, que considera a entrada e saída do processo industrial, estamos falando de 11 categorias de impacto ambiental que vão muito além do carbono”, afirma.

Mesmo o carbono é um tema que precisa avançar, especialmente na mensuração das emissões indiretas do escopo 3. “Quando sai da porta da empresa, a maior parte das empresas ainda enfrenta dificuldade em conseguir dados e engajar a cadeia de valor”, aponta Moraes.

A legislação também ajuda a puxar a agenda. Além da própria aprovação do mercado regulado de carbono, também cita as legislações de devida diligência, rastreabilidade e reporte de dados aprovadas na União Europeia, que acabam cascateando para multinacionais com filiais na América do Sul e no Brasil. Energia limpa, economia circular e agricultura sustentável - ligado ao combate ao desmatamento - são outros temas que começam a ser exigidos das unidades brasileiras.

Para ajudar no diagnóstico do estágio de maturidade e engajamento da empresa com as práticas sustentáveis, a Fundação Eco+ criou o SustenBOT, chatbot gratuito que, a partir de respostas para 10 perguntas, mostra o grau de maturidade de companhias em diversos temas ESG em poucos minutos.


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