A taxa de fecundidade do país em 2022 foi a menor em 62 anos e pode sinalizar crescimento populacional ainda mais fraco do que previsto por especialistas, na análise da demógrafa Suzana Cavenaghi, consultora em produção e análise de dados. Doutora e mestre em Sociologia/Demografia pela Universidade do Texas (Austin), Cavenaghi disse que a taxa surpreendeu. “Não esperava que fosse tão baixa”, disse.
A Taxa de Fecundidade Total (TFT), ou número médio de filhos por mulher em idade reprodutiva (15 a 49 anos), foi de 1,55 em 2022, informou nesta sexta-feira (27) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado consta da pesquisa “Censo Demográfico 2022: Fecundidade e migração, resultados preliminares da amostra”. Além de inferior à observada no Censo de 2010 (1,9), é a menor taxa registrada na série iniciada em 1960.
O resultado é também inferior à chamada “taxa de reposição”, de 2,1, mencionada costumeiramente por demógrafos. De acordo com especialistas da área, esse é o número médio de filhos que cada mulher precisa ter para que uma geração seja substituída pela seguinte, mantendo o tamanho da população estável ao longo do tempo.
“É óbvio que uma taxa de fecundidade abaixo da taxa de reposição indica que a população vai diminuir em valores absolutos” disse. “Mas lembre-se que uma taxa de fecundidade de 6 na década de 60 também era um ritmo muito grande”, comentou.
A especialista observou que uma população com crescimento muito intenso também inspira cuidados ao Estado. Isso porque, continuou, implica o fortalecimento de políticas públicas, em número e em variedade, para atender a todos em serviços básicos, como saúde e educação.
No entendimento dela, uma população com crescimento mais fraco não necessariamente é algo ruim. Ela admitiu que, em quadro de crescimento populacional mais fraco e maior processo de envelhecimento, é preciso pensar em nova modalidade de Previdência.
“A população de 60 anos ou mais vai ficar mais elevada”, disse. “Antes se construíam mais escolas, talvez agora tenhamos que construir mais casas de idosos”, exemplificou. “A dinâmica demográfica é que conduz a política pública”, notou.
Assim, na análise da demógrafa, o que é preciso fazer, futuramente, agora que o IBGE anunciou dados mais recentes sobre o tema, é “ajustar as políticas públicas à nova realidade da população brasileira”. Para isso, continuou, são necessários mais estudos na área, principalmente para detalhar mais as razões de as mulheres brasileiras não quererem mais ter tantos filhos, como no passado.
Cavenaghi não descartou, ainda, que o IBGE possa realizar ajustes na TFT, anunciada hoje, visto que isso ocorreu em censos anteriores. No entanto, admitiu que, mesmo com ajuste no ritmo de fecundidade das mulheres do país “a tendência não muda, é de queda”, reconheceu.