Os aumentos dos alimentos processados e das contas de luz foram os principais responsáveis pela alta de 1,34% do Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) em outubro, divulgado nesta quinta-feira (17).
Apesar de estar no horizonte, a magnitude do aumento superou o esperado, diz o economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) e responsável pelo indicador. O IGP-10 havia registrado alta de 0,18% em setembro.
Os maiores responsáveis pela elevação de preços em outubro têm uma origem em comum: a falta de chuvas, que atingiu o auge em setembro.
A estiagem levou o governo federal a adotar a bandeira vermelha patamar 2 no início de outubro, o que deixou as contas de luz mais caras e pesou sobre o Índice de Preços ao Consumidor (IPC). O IPC responde por 30% do IGP-10 e subiu 0,53% em outubro. Em setembro, o índice variou 0,02%.
“A tarifa de eletricidade residencial subiu de 0,83% em setembro para 6,35% em outubro pela prática de bandeira vermelha patamar 1 e 2. A energia elétrica compromete cerca de 4% do orçamento familiar e responde por metade do resultado do IPC deste mês”, diz Braz.
Para o economista, a alta nos preços de energia elétrica é o fator que pode causar mais volatilidade à inflação nos próximos meses. “Quanto mais tempo a energia permanecer mais cara, maior a expectativa de o aumento se espalhar por diferentes setores”, alerta.
Braz destaca que se a bandeira vermelha patamar 2 permanecer até o fim do ano, é provável que o IPC de 2024 fique acima do teto da meta. “Caso contrário, há mais chances de que a inflação fique dentro do nível de tolerância, ainda que alta”, observa.
A meta de inflação oficial para 2024 está em 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
Na parte dos alimentos, a seca pesou mais sobre os itens processados, especialmente carne, leite e café, do que sobre os alimentos in natura. “Parte do efeito dos alimentos processados, que subiram 3,6% em outubro, foi compensada por alimentos in natura, que caíram 3,1%", diz Braz".
"Mas o peso dos alimentos in natura é pequeno, cerca de 2,8% do IPA, enquanto os alimentos processados representam 10,5%”, pondera ao analisar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPA), que reflete a inflação no atacado e representa 60% do IGP-10.
O economista explica que a estiagem não prejudica tanto os alimentos in natura, produzidos por pequenos agricultores que conseguem manejar melhor a escassez de chuvas com a irrigação, mas afeta diretamente o preço da carne bovina e de produtos derivados do leite pela falta de pasto para alimentar o rebanho.
“É preciso entrar com rações e investir um pouco mais para compensar as perdas com a estiagem. Isso aumenta não só o preço da carne bovina e do leite, mas de todos os laticínios”, diz ele. “E quando a carne bovina sobe, também puxa o preço do frango e do porco devido à substituição feita pelo consumidor”, ressalta.
Mas a expectativa, segundo ele, é que os preços da carne e do leite caiam daqui a dois meses com o aumento das chuvas e a recuperação das pastagens.
“A carne e o leite provavelmente não serão vilões em novembro porque as chuvas devem se intensificar com a mudança de estação. E o repasse ao consumidor costuma ser rápido porque estamos falando de alimentos que estragam se não foram vendidos rapidamente”, afirma.
O câmbio, por sua vez, continua exercendo pressão sobre o IPA devido à influência sobre produtos importados que ficaram mais caros com a desvalorização do real frente ao dólar.