O resultado da eleição americana, seja com vitória para Donald Trump ou Kamala Harris, deve trazer impactos heterogêneos na exportação brasileira, conforme o setor, diz Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de comércio exterior.
Ele lembra que há setores brasileiros ainda afetados pelas medidas baixadas por Trump em seu primeiro mandato. “É o caso dos setores de aço, alumínio, cobre. Já houve aumento de tarifas nas importações americanas desses produtos na primeira gestão de Trump. Hoje algumas dessas exportações enfrentam cotas ou medidas antidumping. As tarifas foram elevadas por Trump e Biden [Joe Biden, atual presidente dos EUA] não as tirou.”
Agora a promessa de Trump é o amplo aumento de taxação na importação americana, linear em 10%, de forma geral, além dos 60% para os produtos chineses, lembra Barral. Se houver isso, diz ele, alguns produtos exportados pelo Brasil poderão ser afetados. “É bom lembrar que a exportação brasileira aos americanos inclui produtos básicos, mas também parte importante de manufaturados. Há muita exportação intrafirma relacionada aos investimentos americanos no Brasil e isso poderá ser prejudicado”, diz, lembrando que os EUA são o investidor externo mais importante para o Brasil.
Outra questão, diz ele, é que o Brasil concorre com os EUA na exportação de produtos agropecuários tendo a China como destino. Ele lembra que durante o mandato anterior de Trump — de janeiro de 2017 a janeiro de 2021 — o conflito entre Estados Unidos e China se acirrou e isso fez com que os chineses passassem a comprar mais produtos agrícolas do Brasil, como a soja. Isso, explica, permitiu a expansão da produção agrícola no Brasil.
“Obviamente o aumento do protecionismo não é bom para ninguém. No final todos vão sair perdendo, mas os efeitos são heterogêneos entre as diversas cadeias. A grande questão do Trump é que ele é mais imprevisível. O governo Biden também foi protecionista, mas foi by the book: estabeleceu investigações, aplicou antidumping e salvaguardas, cumpriu as regras do comércio internacional. O que se espera é que a Kamala, se eleita, siga esse caminho de Biden”, diz.
Há expectativas de aumento de republicanos no Congresso americano, o que é algo também importante, diz Barral. “O Executivo nos EUA já tem muito poder em matéria de comércio, com muitas medidas que podem ser tomadas pelo Departamento de Comércio e pelo USTR [Representante Comercial dos EUA, órgão do governo americano que trata de comércio exterior], mas com o apoio do Congresso isso pode ficar muito perigoso.”
Kamala é vista como alguém que deve dar continuidade à política de Biden, aponta Barral. “Em termos econômicos, também há preocupações. Ela tem prometido muitos subsídios e programas que aumentam gatos. Isso, claro, gera um temor fiscal, o que afeta juros, com efeitos no mundo todo, inclusive o Brasil.”