Com a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 25% sobre o aço importado pelo país, o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, acredita que o desafio do Brasil agora é mostrar ao governo americano que o aço brasileiro desempenha um papel complementar na indústria norte-americana.
Segundo o dirigente, quase todo aço exportado do Brasil para os EUA é utilizado pela própria indústria norte-americana, principalmente na fabricação de produtos que dependem de insumos específicos não produzidos em larga escala no país. Lopes ressalta que essa relação comercial não representa uma ameaça à indústria siderúrgica americana, mas, sim, uma parceria estratégica que garante competitividade e estabilidade a ambos países.
“Mais de 80% do que a gente exporta para os EUA é de interesse da própria indústria siderúrgica americana. São placas que têm uma única utilização, que é a produção da indústria americana. É importante relembrar que ela [a indústria americana] não tem autossuficiência em relação desta matéria-prima estratégica”, diz o dirigente.
Ele lembra que os americanos importaram quase seis milhões de toneladas do produto em 2024, o que mostra que o Brasil é um fornecedor confiável. Além disso, o Brasil é um comprador de carvão siderúrgico, da ordem de US$ 1 bilhão, o que mostra um importante fluxo de comércio entre os dois países, de US$ 7,6 bilhões.
A União Europeia (UE) e alguns outros países anunciaram que vão retaliar as tarifas anunciadas pelos Estados Unidos sobre as importações de aço e alumínio com “contramedidas firmes e proporcionais”, o que deve intensificar a guerra comercial contra Washington.
A entidade diz que o Brasil deve seguir por outro caminho: não cabe neste momento um processo de retaliação. O executivo diz estar em contato com o governo brasileiro, via Câmara de Comércio Exterior (Camex) e Ministério da Indústria Comércio e Serviços (Mdic), para buscar um canal de negociação diplomático com a ajuda do Ministério de Relações Exteriores (MRE), para retomar o acordo.
O executivo explica que a situação é uma repetição do que ocorreu no ano de 2018, em que o governo americano tomou uma medida similar. Na ocasião, os governos de Estados Unidos e Brasil negociaram o estabelecimento de cotas de exportação para o mercado norte-americano de 3,5 milhões de toneladas de semiacabados/placas e de 687 mil toneladas de laminados. A medida flexibilizou decisão anterior de Trump que havia estabelecido alíquota de importação de aço para 25%.
Ao implementar a taxação, Trump citou diretamente o Brasil como um dos principais motivos para a imposição das novas tarifas. No decreto divulgado pela Casa Branca, o republicano diz que as importações brasileiras de aço da China cresceram de forma “tremenda”, mais do que triplicando nos últimos anos, o que teria impactado a indústria americana.
Lopes contra-argumenta: “Duas considerações foram levantadas. Primeiro, de que aumentamos as exportações para os EUA, o que não procede, já que o acordo estabelece que só podemos exportar até o limite da cota aprovada. Caso esse limite seja excedido, a alfândega americana não autoriza a entrada do produto. Segundo, em relação às importações de aço chinês, estamos em negociações com o governo brasileiro para tentar bloquear essas importações predatórias da China”.
As medidas comerciais para conter a enxurrada de importações chinesas desaceleraram a entrada de alguns produtos, mas ainda não foram suficientes para frear a invasão do aço chinês. O impacto sobre as siderúrgicas locais segue abaixo do esperado, e a projeção é que a oferta do produto no mercado nacional continue em alta em 2025.
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