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Como saber se tenho perfil para ser líder? | Carreira no Divã

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 16/07/2025 às 06:00 · Atualizado há 3 dias
Como saber se tenho perfil para ser líder? | Carreira no Divã
Foto: Reprodução / Arquivo

>> Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: carreiranodiva@valor.com.br

"Trabalho como desenvolvedora há alguns anos. Entrei na área porque sempre gostei de resolver problemas e criar soluções práticas com código. Com o tempo, fui ganhando autonomia, dominando novas linguagens, entregando projetos cada vez mais complexos. Mas, recentemente, comecei a me questionar se o caminho que quero seguir ainda é puramente técnico. Tenho sentido vontade de participar mais das decisões e de influenciar o rumo dos projetos de forma mais ampla, e tenho tido vontade de buscar uma posição de liderança. Mas, como saber se eu tenho perfil para ser líder?" Desenvolvedora, 32 anos

Essa dúvida é muito comum e natural. A grande maioria das pessoas inicia a carreira em uma função mais técnica. Com o tempo, algumas decidem migrar para uma função envolvendo liderança de equipe. E se você, após esses anos, começou a se indagar sobre essa possibilidade, recomendo que você se abra com quem é responsável pela sua gestão. Demonstre interesse em, por exemplo, ser responsável inicialmente por guiar estagiários, jovens aprendizes ou assistentes. Não se prenda à senioridade de quem estará sob o seu comando, mas sim na missão.

A boa notícia é que não existe um “perfil ideal” de liderança pré-definido, mas sim diferentes estilos que podem ser eficazes dependendo do contexto. E mais: muitas habilidades de liderança podem ser desenvolvidas. Isso é um alívio para as pessoas que, de maneira equivocada, ainda acreditam que todos os líderes já nascem prontos. Dessa forma, você não deve se perguntar se tem o perfil perfeito, mas se está disposta a aprender e se desenvolver nessa direção

Para te ajudar nessa reflexão vou destacar algumas informações importantes. A primeira é que você pode exercer liderança com gestão formal de pessoas, responsável por avaliações de desempenho, planos de desenvolvimento e acompanhamento do cumprimento de metas. No entanto, você também pode ser líder técnica em projetos, ou seja, contribuir com o compartilhamento de conhecimentos, acompanhando o dia a dia das entregas e dando suporte aos times, mas sem ser responsável pela gestão formal dessas pessoas.

Muitas vezes, em carreiras técnicas, as pessoas começam por esse nível intermediário de gestão. Nesse caso, como gerentes de projetos ou outras funções similares, lideram as ações de colaboradores alocados em uma iniciativa da empresa. O objetivo é garantir que os times tomem as melhores decisões, enquanto se desenvolvem com novos aprendizados. Esse é um bom caminho para migrar à liderança de um departamento, gerindo pessoas de maneira formal e direta.

Colunista destaca avisa que liderar não significa deixar de lado o conhecimento técnico, mas exige uma mudança de foco — Foto: Freepik

Um primeiro aspecto para você observar, porém, é o nível do seu interesse genuíno por pessoas. Liderar não significa deixar de lado o conhecimento técnico, mas exige uma mudança de foco: o sucesso passa a depender menos do seu desempenho individual e mais da sua capacidade de apoiar, motivar, inspirar e desenvolver outras pessoas. Isso envolve escuta ativa, empatia, comunicação clara, capacidade para gerir conflitos e, principalmente, interesse verdadeiro por gente. Então, se você sente curiosidade sobre o que motiva os colegas, tem prazer em ajudar alguém a resolver um bloqueio e valoriza a colaboração, além de não se incomodar de ver o outro brilhar, são indícios de que você pode ser uma boa líder.

Outro ponto é avaliar o que você admira nos líderes com os quais já trabalhou. Listar o nome e as habilidades dos gestores que mais marcaram sua trajetória pode ser um exercício interessante. Quem foram essas pessoas? Como agiam? O que você gostava ou não gostava nelas? Muitas vezes, ao tentar identificar o que queremos ser, vale começar pelo que nos inspirou ou pelo que nos fez recuar. Essa análise ajuda a construir um modelo de liderança que seja autêntico, e não apenas uma repetição do que você acha que “esperam de um líder”.

Uma dica preciosa para avaliar o seu potencial de liderança é observar o quanto você já exerce influência, mesmo sem estar formalmente em um cargo de gestão. Você é procurada por colegas para tirar dúvidas, facilitar decisões ou resolver impasses? Costuma assumir naturalmente a organização de tarefas em grupo? Participa ativamente de discussões sobre o rumo de projetos? A resposta afirmativa para essas e outras questões são marcas de uma liderança emergente, aquela que acontece antes de mudar o cargo no crachá.

Às vezes, o reconhecimento do time vem antes da promoção formal. E se isso não estiver acontecendo, você também pode ponderar o que pode ser alterado nas suas atitudes para ter uma influência frequente e positiva no ambiente no qual está inserida. Receber um cargo de liderança, muitas vezes, é uma consequência da forma como está sendo percebida pelas pessoas ao redor.

O ímpeto de tentar ajudar pessoas que estão sendo subaproveitadas, melhorar falhas de comunicação entre áreas ou conectar decisões estratégicas com a realidade técnica também são indícios de vocação para liderar. Se, ao invés de ficar indiferente ou apenas reclamar, você propõe melhorias, articula soluções e imagina formas de fazer diferente, isso demonstra que seu olhar já ultrapassou os limites do seu escopo original. Talvez esteja na hora de ocupar um papel mais estratégico.

Ao direcionar a carreira para posições de gestão, é fundamental saber, entretanto, que a sua rotina será menos ocupada por temas técnicos. Você estará mais tempo em reuniões, alinhamentos, feedbacks, planejamento e suporte ao time. É um trabalho mais voltado a ser uma facilitadora do que executora. Isso quer dizer que você precisa avaliar se vai sentir falta de não ser tão “mão na massa” como deve acontecer atualmente.

Você precisa estar tranquila também com a ideia de que poderá cometer erros nesse novo papel, já que toda liderança envolve incertezas, riscos e decisões difíceis. Com boa parte do tempo sendo dedicado às pessoas, existe a necessidade de aprender a deixar de ser uma especialista para passar a ter um olhar mais macro das iniciativas. E, nesse processo de migração, você pode demorar para dar um feedback, fugir de uma conversa difícil, microgerenciar demais, ou delegar sem dar suporte. Mas, em vez de se preocupar com não cometer falhas, disponha-se a aprender com elas, pedir ajuda quando necessário e buscar aprimoramento contínuo.

Para definir se é o momento de reorientar a carreira para esse novo papel, sugiro que você converse com líderes atuais e ex-gestores seus. Ouça o que essas pessoas têm a dizer sobre os seus planos. Aproveite essas conversas para saber mais sobre as oportunidades, o dia a dia, os aprendizados e os desafios à frente do cargo. Peça feedbacks sobre a experiência de trabalhar com você e indicações de pontos a serem desenvolvidos no seu perfil.

Vale a pena também se aprofundar no conhecimento do universo da liderança. Leia livros sobre o tema, faça cursos de especialização sobre assuntos em torno do novo papel de liderança, participe de eventos que falem sobre gestão. Todo conhecimento tem potencial para te ajudar a moldar o seu estilo de liderança e a ser uma pessoa e profissional melhor a cada dia.

E, acima de tudo, invista no autoconhecimento. Para ser uma líder melhor é vital que você entenda o funcionamento da sua mente e das suas emoções no dia a dia. Quais são os gatilhos que te movem ou te paralisam? Como reage diante de situações e pessoas desafiadoras? Qual é a sua capacidade de tomar decisões em situações de estresse ou de muita pressão? Quanto mais você se conhece, melhores decisões toma, menos erros comete e melhor se adapta em cenários adversos.

Liderar não é uma missão fácil, mas está longe de ser impossível. Se esse é o seu desejo, deixe que as pessoas saibam dessa sua vontade e se disponha a iniciar a jornada.

Isis Borge é headhunter, diretora executiva da Talenses e sócia do Talenses Group onde atua com recrutamento executivo e lidera a seleção no C-level para energia e indústria.

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Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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