Um executivo que conheço muito bem não dormia à noite. Até chegava a adormecer, mas lá pelas 2h acordava e começavam as enxurradas de pensamentos e vozes que teimavam em perturbar seu sono e mente. Para tentar dominar essas vozes, ele tentou de tudo: de passar uma noite cheio de eletrodos em um instituto do sono até florais de bach. Foi nessa caminhada que encontrou o Lama Kalden Rimpoche em um centro budista de São Paulo. Na conversa, o Lama - uma espécie de padre budista - explicou a ele o conceito do macaco com a metralhadora.
Segundo Lama Kalden, a mente de pessoas muito “inteligentes“ e agitadas é como um macaco como uma metralhadora pulando de galho em galho, de pensamento em pensamento e atirando a esmo para tudo que é lado. Falando para aquele executivo sobre a diferença entre “inteligência rasteira e sabedoria sutil“, ele explicou que, no primeiro, sua mente te domina. Já na verdadeira sabedoria, você identifica seus pensamentos, deixa passar os não virtuosos e abraça os bons.
Pensamentos bons geram sentimentos bons que podem ser transformar em ações virtuosas. A receita de Lama Kalden para dominar o macaco daquele executivo era recitar mantras diariamente. Esse executivo sou eu. Há mais de 25 anos continuo na perseguição continua para domar as vozes da minha mente. Tenho certeza de que não sou o único. Dos mais de 100 processos de coaching e mentoria que já fiz com CEOs e empreendedores, pelo menos 95% têm dificuldade em amansar essa vozinha. Por mim e pelos meus coachees busco incessantemente aprender como lidar com isso. E aqui compartilho alguns aprendizados sobre essa arte:
1. Chame o macaco pra dançar
Sempre tentei negar esse macaco saltitante tão logo ele aparecesse querendo perturbar meu sono. Ao longo do tempo, descobri que quanto mais eu tentava afastá-lo, mais forte ele ficava, quase que tirando sarro da minha inútil tentativa. Aprendi que reconhecê-lo, notar sua presença e dar um apelido jocoso para ele o deixa menor e mais tangível. Pedir para ele se recolher com gentileza aumenta as chances dele ir embora.
2. Escreva , escreva , escreva
Um grande CEO no meio da noite foi visitar o banheiro. Eram 2h30. Ele, que deixava o celular carregando, não resistiu e abriu uma notificação de WhatsApp que piscava na tela. A mensagem do seu chefe que estava na Califórnia não poderia ser pior. Era uma crítica explícita à maneira como ele estava gerenciando uma situação complexa. Não deu outra: foi a deixa para o macaco dele virar gorila, disparar a metralhadora da raiva e destruir a sua noite.
Quando conversamos no dia seguinte, ele estava com uma olheira enorme. Recomendei que, na próxima vez, ele parasse esse fluxo incessante de pensamentos e escrevesse tudo o que vinha à sua mente. Quando escrevemos, delimitamos, desabafamos e conseguimos sair da armadilha emocional. Já fiz isso algumas vezes e tive resultados animadores.
3. Programe um horário para se preocupar
Essa técnica aprendi no livro "Chatter", do psicólogo Ethan Kross. Você define na sua agenda um período fixo do dia de 15 minutos para se dedicar às suas preocupações. Ao longo do dia, anote os temas que irá se preocupar no horário pré-determinado. Para os problemas relevantes, pergunte-se: “existe algo que eu possa fazer agora?". Se sim, faça um plano de ação. Se não, tente seguir em frente.
Desenhe um quadro das suas preocupações e o admire
A vice-presidente de uma multinacional me procurou para um café. Nem precisei perguntar, foi só olhar e ela começou a falar alucinadamente. Descreveu seus conflitos com o seu CEO, um perrengue de família e, para completar, uma doença autoimune que se anunciava. Sua voz era um misto de diferentes emoções. Raiva, tristeza, medo e excitação. Ela falava com uma rapidez que era quase impossível entender tudo.
Puxei uma folha em branco e fomos pintando o quadro da situação. Depois de tudo anotado demos um novo nome para a personagem central: Luiza. Então, perguntei: "quais conselhos e ações você proporia a ela?”.
Essa técnica de "zoom out" é muito poderosa. Ajuda a vislumbrar a situação sobre uma nova perspectiva, pois só o ato de formalizar e organizar já acalma o caos interior. O resultado foi um plano de ação simples e específico que depois de três meses apresentou resultados animadores. Quando nós nos reencontramos, ela era outra pessoa.
Se você é como eu que luta ou dança com a sua voz interior, procure praticar alguma dessas dicas. Mesmo que nenhuma funcione - o que acredito ser pouco provável - você terá feito um movimento em lidar com um tema tão importante, uma evolução que significa um salto grande na sua performance e saúde!