Publicidade
Capa / Econômia

Com agir quando um funcionário ultrapassa limites?

>> Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: carreiranodiva@valor.com.br

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 07/01/2026 às 06:16 · Atualizado há 1 dia
Com agir quando um funcionário ultrapassa limites?
Foto: Reprodução / Arquivo

>> Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: carreiranodiva@valor.com.br

Sou gerente de projetos em uma equipe pequena. Nos últimos meses, um analista júnior tem começado a se adiantar em tarefas que claramente são minhas responsabilidades, respondendo clientes antes de mim, tomando decisões sem alinhamento, apresentando ideias como se estivesse liderando o projeto. Ele é competente, mas ultrapassa limites e passa a impressão de que quer ocupar o meu espaço. Já tentei dar feedback, mas ele volta a repetir o comportamento. Como lidar com isso sem gerar conflito ou parecer que estou me sentindo ameaçado, mas deixando claro que existem funções e responsabilidades?

— Gerente de projetos, 38 anos

É relativamente comum, em equipes pequenas e pressionadas por prazo, aparecer uma dinâmica confusa: alguém competente “puxa” tarefas para acelerar entregas e, sem perceber (ou percebendo), passa a ocupar espaços que não são seus. Para quem está na posição de gerente de projetos, isso costuma ter dois efeitos simultâneos: o primeiro é prático (risco real de desalinhamento com cliente e decisões inconsistentes); o segundo é simbólico (erosão de autoridade, confusão de papéis e ruído político).

A boa notícia: dá para lidar com isso de forma madura, sem confronto desnecessário e sem a mensagem subentendida de ameaça. A chave é tirar o tema do campo da “intenção” (ele quer me substituir?) e trazer para o campo do “sistema” (como a gente define papéis, decisões e rituais para o projeto funcionar com clareza?).

Ambiguidade de papéis: quando fronteiras de responsabilidade não estão explicitadas, as pessoas ocupam o vazio. Isso é clássico em times pequenos; o “quem faz o quê” fica tácito, e o tácito vira disputa.

Motivação legítima mal canalizada: Analistas em início de carreira, especialmente os bons, buscam visibilidade e impacto. Se o sistema premia “quem aparece” e não “quem coordena”, a pessoa aprende rápido a performar liderança sem, necessariamente, ter mandato para isso.

Ausência de regras de decisão e comunicação com o cliente: Se não há um protocolo claro sobre quem responde o quê, em que nível e com qual autonomia, o risco de “atropelos” aumenta e o projeto vira um território sem guardrails.

Perceba: nenhuma dessas hipóteses precisa ser “sobre você”. Elas são sobre desenho de trabalho. E o risco real não é o ego. É governança.

Gerente de projetos não é (só) “quem faz tarefas”. É quem garante coerência, compromisso, sequência e alinhamento com cliente e time. Quando um júnior responde cliente antes, decide sem alinhamento ou se apresenta como líder do projeto, os problemas passam a ser:

Aqui vale um princípio básico de organizações: autoridade não é sobre hierarquia; é sobre clareza de mandato. Sem mandato claro, vira disputa; com mandato claro, vira coordenação.

Se você já deu feedback e o comportamento volta, provavelmente a intervenção foi percebida como “pedido” ou “opinião”, não como acordo operacional.

Em X e Y momentos, você respondeu o cliente antes de alinharmos / decidiu Z sem validação.

— Fato observado (com exemplos):

Isso gera risco de inconsistência, retrabalho e ruído de governança.

— Impacto no projeto:

Em projeto, autonomia existe, mas dentro de um desenho de decisão.

— Princípio:

Vamos definir quais temas você pode decidir sozinho, quais você recomenda e quais eu decido.

— Novo acordo:

Quero ouvir como você entendeu e se algo te impede de seguir isso.

— Checagem de entendimento:

Isso evita o tom “você está me desrespeitando” e coloca o foco no trabalho.

Teoria que embasa: clareza de papéis reduz conflito e aumenta desempenho. Um instrumento prático é uma adaptação de RACI (Responsible, Accountable, Consulted, Informed) e uma matriz de decisão com níveis de autonomia.

Pode decidir: itens operacionais de baixo risco (ex.: ajustar cronograma interno, organizar status report).

Pode propor, eu decido: mudanças que afetam escopo, prazo, orçamento, promessa ao cliente.

Só eu decido: posicionamento com cliente, negociação, prioridades finais, trade-offs.

Você não está “podando”; está desenhando governança.

Você pode rascunhar respostas, mas envio final e decisões vão comigo (ou com quem for definido).

Quando for urgente, você me sinaliza por canal X com prazo Y.

Isso tira o júnior do palco sem expô-lo e ainda aproveita a sua competência.

Um ponto delicado é que parte do comportamento pode ser busca de reconhecimento. Se você corta sem oferecer um caminho saudável, ele tende a “voltar por baixo”.

Quero que você lidere a consolidação do status semanal e traga recomendações.

Na próxima reunião interna, você apresenta suas ideias como proposta, e eu fecho as decisões.

Se ele “volta a repetir”, não basta conversar: precisa haver consequência de processo.

Se você responder cliente sem alinhamento, vou pedir retratação e alinhar com o cliente que o ponto final é comigo.

Se decidir algo fora da alçada, a decisão será revista.

Consequência aqui não é punição; é proteção do sistema.

Esse tipo de comportamento muda mais com ritual e repetição do que com uma conversa brilhante.

Só para consolidar o que combinamos…

— Escreva o acordo (5 linhas) por e-mail/Slack:

O que funcionou? Onde bateu urgência? O que precisamos ajustar?

— Faça check-in semanal de 10 minutos:

iniciativa = fazer qualquer coisa

— Aí entramos no campo do contrato psicológico (as expectativas não ditas entre pessoa e organização). Se ele acredita que , ou se ele quer status de liderança sem responsabilidade, a correção precisa ser mais direta:

Iniciativa aqui significa elevar a qualidade da execução dentro do papel. Liderança é um mandato que vem com responsabilidade e alinhamento.

Se você quer crescer para uma posição de liderança, ótimo — eu topo te desenvolver — mas isso passa por respeitar governança e construir confiança.

Se, após alinhamentos claros, exemplos, documento e acompanhamento, ele insiste, você pode precisar envolver sua liderança (não como “queixa”, mas como risco de projeto):

Estou implementando governança; preciso de suporte para reforçar o desenho de papéis porque o risco com cliente é alto.

Muita gente evita esse tema para não parecer ameaçada. Mas, em gestão, limite é cuidado com o projeto e com o time. A autoridade do PM não se afirma “competindo” com o júnior, e sim criando clareza: quem decide, quem executa, quem recomenda, quem fala com o cliente, e como a equipe ganha.

Quando você transforma a conversa em desenho de trabalho, você sai do drama e entra na maturidade organizacional.

Dani Jesus é psicóloga, ativista, criadora do Currículo Oculto e apaixonada por cultura, gestão de pessoas, diversidade, equidade e inclusão.

>> Envie sua pergunta, acompanhada de seu cargo e sua idade, para: carreiranodiva@valor.com.br

Esta coluna se propõe a responder questões relativas à carreira e a situações vividas no mundo corporativo. Ela reflete a opinião dos consultores e não a do Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

Estudo com 739 conselheiros e lideranças em 59 países aponta que 86% incrementaram as discussões ligadas ao planejamento de cenários; no Brasil, parcela chega a 78%

Executivos falam sobre os desafios, os aprendizados, a rotina e as vantagens de estar no comando de negócios diferentes

Para especialistas, administrar demandas diárias e imprevistos são constantes na agenda de CEOs que ocupam o cargo em mais de uma empresa

A colunista Stela Campos escreve sobre um fenômeno que atinge os profissionais com mais de 45 anos

O psicólogo que criou a campanha em 2014, Leonardo Abrahão, destaca que o país vive um momento paradoxal: enquanto o sofrimento cresce, aumenta também a mobilização para discutir saúde mental

Pesquisa da Yale mostra que as pessoas se sentem mais no direito de receber recompensas quando alcançam bons desempenhos, e não quando se esforçam muito

Manter uma aparência elegante pode aumentar as chances de ser bem tratado pela polícia de fronteira e por funcionários das companhias aéreas

País apresenta um uso de IA generativa maior do que a média global, mas a adoção da IA tradicional, agêntica e quântica está abaixo dos níveis globais

Pesquisa com 500 pessoas com qualificação, empregadas e em busca de recolocação, traz os principais desejos para 2026

Mesmo com uma cuidadosa coreografia sucessória, até os planos mais bem elaborados muitas vezes fracassam

Comentários (0)

Faça login ou cadastre-se para participar da discussão.

Seja o primeiro a comentar!

Publicidade