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Análise: Mau humor de Lula com Nísia diminui seu governo | Brasil

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 26/02/2025 às 08:05 · Atualizado há 1 dia
Análise: Mau humor de Lula com Nísia diminui seu governo | Brasil
Foto: Reprodução / Arquivo

A última cerimônia pública de que participou a ex-ministra da Saúde foi a síntese dos problemas que levaram à sua demissão. Na manhã da terça, horas antes de ser demitida, Nísia Trindade anunciou quatro parcerias do SUS: três delas com o instituto Butantã, na produção da vacina da dengue, influenza e bronquiolite, e uma quarta com a Fiocruz e instituto Bion para a produção de insulina.

A cerimônia tratou do grande foco de sua gestão, o chamado complexo econômico industrial da saúde, tanto pela catástrofe causada em seu desmantelamento na gestão Jair Bolsonaro na pandemia da covid-19, quanto pelo apego do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na recuperação da base industrial do país, e, ainda, pela origem da ex-ministra, que presidiu a Fiocruz.

O que poderia ter sido o coroamento de uma política pública, findou como o velório de uma gestão. Lá estavam os ministros mais diretamente envolvidos na iniciativa, o vice-presidente da República e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, e a ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck.

Dela não participaram os principais ministros do governo, Rui Costa (Casa Civil), Fernando Haddad (Fazenda), Ricardo Lewandowski (Justiça) ou mesmo Alexandre Padilha, o ex-secretário de Relações Institucionais que viria a ser indicado no mesmo dia a substituir Nísia.

A presença do ministro da Secretaria Geral da Presidência, Marcio Macedo, outro demissionário, acabou por acentuar o esvaziamento da cerimônia. Dos parlamentares presentes, a ministra citou apenas dois, ambos da base mais estreita do governo, Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que situou como representante da “bancada do complexo econômico industrial da saúde” e o líder do PT, Lindberg Faria (RJ).

A cerimônia durou 50 minutos, dominados quase inteiramente pelo discurso da ex-ministra que detalhou cada iniciativa e partilhou com os secretários e gestores envolvidos, a quem pediu que se levantassem, sua concretização. A única autoridade a falar além de Nísia, Alckmin foi capaz, em cinco minutos, de transmitir a importância daquela cerimônia de forma mais direta e simples do que a ex-ministra: listou os quatro vírus que, nos últimos 17 anos, assolaram a saúde pública mundial, culminando com o pandemia da covid-19, disse que as mães vão poder se vacinar para proteger seus bebês e concluiu, de maneira bem humorada, sobre as parcerias ali anunciadas: “São essas nossas moléculas que vão nos levar a viver 120 anos e as mulheres a não morrer nunca mais”.

A ministra que recuperou o parque industrial da saúde no Brasil saiu alvejada pelas queixas de gestores locais que não eram autorizados a usar o Zé Gotinha como símbolo de suas campanhas de vacinação. A gestão tirou o Brasil do mapa do sarampo, mas o feito foi deixado de lado quando a ministra citou a redução dos casos de dengue, grande chaga de sua gestão, para um terço daqueles registrados em 2024.

Ao longo dos 50 minutos, porém, nada foi tão simbólico na cerimônia quanto o silêncio do presidente da República ante a ministra que tem sido fritada ao vivo e em cores desde o ano passado. Nísia Trindade não entregou que se esperava dela, mas tirou o SUS da catástrofe da pandemia e do butim em que a Pasta havia se transformado desde a gestão Michel Temer. Ao não reconhecer publicamente os esforços da ministra, Lula diminuiu a si mesmo, pela confiança que nela depositou.

O presidente não estava mal-humorado, tanto que fez uma brincadeira quando o ex-ministro do Turismo e um dos empresários envolvidos na parceria da insulina Walfrido dos Mares Guia aproximou-se sem meia da assinatura do ato. O mau humor foi direcionado. O único momento em que se dirigiu a Nísia foi quando, ao final, ao se despedir, combinou a audiência que teria com ela, depois do almoço, quando a demitiria.

— Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo

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