Na Amazônia, uma equipe de cientistas subiu até o topo das montanhas da Serra do Divisor, na fronteira entre o Acre e o Peru, em procura de uma novidade espécie de inhambu. Esse é um tipo de pássaro parecido com as galinhas, encontrado na América Latina.
Os ornitólogos Fernando Igor de Godoy e Ricardo Plácido sabiam (mais ou menos) o que estavam procurando: em 2021, eles haviam gravado o esquina do pássaro, mas o som não indicava onde a ave poderia estar. O estrondo hipnotizante oscilava de tom, ecoava e se perdia pela floresta.
Demorou três anos para os pesquisadores encontrarem o possuinte da voz. No final de 2024, o investigador Luís Morais usou um playback do esquina dos pássaros para atraí-los, e enfim conseguiram fotografá-los. A ave recebeu o nome científico Tinamus resonans, devido ao seu som característico que ressoa na mata. O item que descreve a novidade espécie foi publicado na última terça-feira (2), no periódico Zootaxa.
Popularmente, o pássaro foi chamado de sururina-da-serra. Com um corpinho pequeno e tons vibrantes de marrom e canela, sua invenção é considerada uma raridade ornitológica. A descrição mais recente de um inhambu florestal é datada de 1945, quando foi revelado o inambu-do-tepui (Crypturellus ptaritepui).
A possibilidade de repelir o bicho com câmeras e equipamentos científicos não foi um problema. O sururina-da-serra, uma vez que os pesquisadores logo notaram, é extremamente dócil, e em momento qualquer enxergou os humanos uma vez que ameaças. Esse comportamento fez com que a novidade espécie fosse comparada ao extinto pássaro dodô, que sumiu no século 17.
Por muito tempo, os dodôs viveram nas ilhas Maurício, um ponto remoto no Oceano Índico a 1.900 quilômetros da costa africana. Com suas asas finas e frágeis, e seus pés sempre plantados no pavimento, eles não tinham que se preocupar com qualquer mamífero predador.
Isso virou um problema com a chegada dos portugueses, em 1507, e os holandeses, em 1598. Eles vieram famintos e acompanhados de diversas espécies invasivas. Os dodôs, isolados na ilhota, nunca sofreram qualquer pressão evolutiva para que desenvolvessem uma reação a predadores. O comportamento dócil fez os pássaros virarem presa fácil para os recém-chegados.
Geneticamente, o sururina-da-serra não tem muito a ver com os dodôs – esses últimos são muito mais próximos dos pombos. Porém, a novidade espécie também vive isolada e sem perturbações no ponto mais saliente da Serra do Divisor, que pode ser descrita uma vez que uma “ilhota no firmamento”.
Por isso, esse bicho tem sido comparado à ave extinta. Os pesquisadores estimam que a população totalidade do sururina-da-serra seja de exclusivamente 2,106 indivíduos, o que a coloca em uma posição muito vulnerável a distúrbios ambientais.
O maior risco são as mudanças climáticas. Quando a temperatura de um envolvente aumenta, espécies que habitam faixas muito estreitas de altitudes, uma vez que as regiões montanhosas da Serra do Divisor, tendem a “se mudar pro marchar de cima”, onde o ar rarefeito e indiferente garante temperaturas mais adequadas para as espécies. O novo inhambu vive no terraço, e não tem para onde ir.
Ou por outra, medidas uma vez que o retardamento das proteções ambientais na Serra do Divisor (que se encontra dentro de um Parque Vernáculo) em prol da exploração econômica do território, e a construção de rodovias e ferrovias entre o Brasil e o Peru impõem riscos ainda maiores a sobrevivência dessa espécie.
O estudo feito por pesquisadores brasileiros analisou três espécimes do bicho. Pesquisas posteriores, com análises genéticas, históricas e taxonômicas desse pássaro, ainda serão necessárias para um entendimento completo da novidade espécie.
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