No primórdio da Idade Média, a música era muito dissemelhante do que é hoje: a produção músico era quase totalmente vocal (feita unicamente com o quina) e o desenvolvimento da teoria músico era feito sempre dentro das igrejas, a serviço da fé cristã. Para que um cantor pudesse trovar, ele precisava ler um símbolo associado a um som, lembrar do som respectivo e, portanto, vocalizar de combinação.
Isso criava um problema: a preservação dos cantos religiosos (a música popular era ainda muito nichada) dependia quase que exclusivamente da memória dos cantores. Porquê era verosímil gravar os sons, o melhor que dava para fazer era assentar sequências de símbolos e esperar que a repetição e o hábito conseguissem passar adiante o conhecimento de qual símbolo significava qual som.
Obviamente, isso não era simples, considerando que havia centenas de cantos religiosos e um número restringido de pessoas dispostas a aprendê-los e memorizá-los. É portanto que entra em cena Guido d’Arezzo (992-1050), um monge beneditino que mudou completamente a notação músico porquê a conhecemos. Mas, para entender isso, precisamos voltar um pouco no tempo.
Porquê era antes de Guido d’Arezzo
Solmização é o nome que se dá à atribuição de notas musicais a sílabas. Não se sabe exatamente quando essa prática foi inventada, mas sabemos que ela vem pelo menos desde a Antiguidade, quando músicos gregos usavam nomes de letras ou sílabas para nomear notas. Com o tempo, essa teoria de associar símbolos a alturas fixas foi incorporada à tradição romana e, depois, às escolas eclesiásticas medievais.
Nos séculos seguintes, com a evolução do quina gregoriano, outras técnicas de desenvolver a solmização foram criadas, porquê os intervalos e os graus da graduação. Ou por outra, sob Carlos Magno, o Predomínio Carolíngio promoveu a padronização do quina litúrgico.
No entanto, essas mudanças ainda eram esparsas e não padronizadas, de modo que cada sítio aprendia e reproduzia música de um jeito.
O que Guido D’Arezzo fez
No primórdio do século 11, o monge Guido D’Arezzo trouxe várias novidades para o mundo da música:
Notação em taxa: Antes, os símbolos da notação músico, chamados de neumas, unicamente indicavam a direção melódica (subir, descer), mas não a fundura exata. Guido propôs o uso de linhas horizontais com cores (vermelha para Fá, amarela para Dó), permitindo fixar graficamente a fundura das notas. Assim, os músicos sabiam não só para onde ir, mas de onde debutar.
Taxa de quatro linhas: Facilitou o tirocínio do quina, pois a relação entre notas passou a ser visual. Atualmente, usamos a taxa de cinco linhas.
O sistema Ut–Re–Mi–Fa–Sol–La: Cá ele brilhou, pois criou um método pedagógico em que cada sílaba estava associada a um pausa fixo na graduação (um proporção supra do anterior). Bastava fustigar o olho para entender que, para passar de “Ré” para “Mi”, por exemplo, era preciso subir uma nota inteira na vocalização.
Mas porquê assim “Ut”? Não era “Dó”? Muito, ainda não.
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O sistema Dó-Ré-Mi
A sequência de sílabas usadas por Guido vem de “Ut Queant Laxis”, um hino a São João Batista muito famoso na Idade Média (e, até onde se sabe, não foi composta por ele). Nesse quina, cada verso começava uma nota supra do verso anterior. Para fazer sua notação, portanto, Guido utilizou a primeira sílaba de cada verso.
UT queant laxis
REsonare fibris
MIra gestorum
FAmuli tuorum
SOLve polluti
LAbii reatum,
Sancte Iohannes
Esse sistema criado por Guido foi posteriormente nomeado de solfejo. Mais tarde, no século 17, o teórico músico Giovanni Battista Doni trocou o “Ut” pelo “Dó” porque, no seu entendimento, isso tornava mais fácil ler e pronunciar a nota.
Se você reparar, o solfejo original usava unicamente seis sílabas (Ut–Re–Mi–Fa–Sol–La), o que já bastava para contemplar o quina litúrgico. A partir do século 16, porém, com o desenvolvimento da polifonia e o aumento da complicação músico, foi necessário ir além.
Foi aí que um teórico músico flamengo (“flamengo” é o gentílico para as pessoas da região de Flandres, que fica na Bélgica) chamado Anselmo de Flandres propôs uma sétima nota, Si, que usava as iniciais das palavras finais do hino. No caso, eram as palavras “Sancte Ioannes”, latim para “São João”.
Curiosidade: nos países de língua inglesa, “Si” foi trocado por “Ti” para que todas as sílabas começassem com consoantes diferentes.
Dó-Ré-Mi ou ABC?
O solfejo é utilizado em toda a América Latina e muitos países da Europa, África e Ásia. No entanto, nos países de língua inglesa, porquê EUA, Reino Uno e a secção não-francesa do Canadá, utiliza-se outro sistema, em que as notas são chamadas de ABCDEFG.
O funcionamento é idêntico. O que muda são unicamente os nomes das notas:
A = Lá
B = Si
C = Dó
D = Ré
E = Mi
F = Fá
G = Sol
Ou por outra, as anotações de semitons também recebem nomes diferentes. O sustenido (que indica o aumento do som de uma nota em um semitom) é chamado de “sharp”. O bemol (que indica a subtracção do som de uma nota em um semitom) é chamado de “flat”.
É por isso que, quando pesquisamos tablaturas de músicas na internet, muitas vezes as cifras usam a notação com A, B, C e afins em vez da notação ensinada nas escolas.
Além do solfejo e do ABC, existem vários outros sistemas de notação no mundo, porquê a notação javanesa (kepatihan), a notação indiana (sargam), a notação chinesa (jianpu), as notações japonesas e afins, mas todas têm funcionamento parecido.