“Mais um?” Já passavam de 22 horas de quinta-feira (13) quando ouvi alguns engomadinhos na pista premium do show do Massive Attack, em São Paulo, começando a permanecer impacientes.
Robert “3D” Del Naja e Grant “Daddy G” Marshall, membros fundadores margem britânica Massive Attack, subiriam ao palco em poucos minutos – mas era a vez dos povos indígenas falarem. Foram três discursos num momento de protesto que durou pouco mais de 10 minutos.
O Massive Attack fez um show peculiar durante a COP30, conferência do clima da ONU que está acontecendo em Belém. Para isso, eles chamaram a margem de metal Cavalera, dos irmãos e fundadores do Sepultura Iggor e Max Cavalera, para transfixar a noite, além de organizações indígenas para compartilhar o palco.
Fundado em 1987, Massive Attack é uma margem de trip hop, gênero que o próprio grupo ajudou a gerar na cidade de Bristol. Mistura samples de soul, rock, dub e jazz com as baterias de hip-hop e das subculturas de música eletrônica e psicodélica que floresciam no Reino Uno na dez de 1990.
A teoria do show em São Paulo era publicar a campanha “A Resposta Somos Nós”, que foca nas propostas dos povos originários para combater a crise climática. A tônica dos discursos das lideranças e das bandas era a mesma: proteger os territórios dos povos da floresta é precípuo para proteger o clima.
Não é achismo: um relatório da ONU divulgado em 2021 revisou mais de 300 estudos publicados desde o prelúdios do milênio e concluiu que os melhores guardiões das florestas tropicais da América Latina e do Caribe são os indígenas. Dados do MapBiomas mostram que, entre 1990 e 2020, territórios demarcados na Amazônia perderam 1% de sua superfície de vegetação nativa, enquanto áreas privadas perderam murado de 20%.
Quem abriu a noite foram os metaleiros da Cavalera. Eles tocaram músicas do Chaos A.D., álbum lançado em 1993 pelo Sepultura, que trata de conflitos territoriais e brutalidade policial, e fecharam com uma favorita dos fãs do álbum Roots, de 1996, que teve algumas faixas gravadas com ajuda de indígenas xavante.
Além de um interlúdio de bateria com backing vocals gravados de música indígena, as músicas políticas e pesadas empolgaram secção da plateia, que aplaudiu depois de ouvir Max gritando “tira a mão da Amazônia, porra!”. Mesmo assim, era óbvio que o Espaço Unimed, no bairro da Barra Fundíbulo, comportava dois públicos distintos: os metaleiros e os apaixonados pelo trip hop do Massive Attack, que ainda precisariam esperar um pouco para presenciar ao show dos britânicos.
“Negociadores brancos, não-indígenas, que não conhecem dos nossos territórios, estão negociando por nós [na COP30]”, disse Dinamam Tuxá, da Fala dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), abrindo os discursos da noite enquanto o telão mostrava cenas de incêndios florestais e enchentes no Rio Grande do Sul. “A gente quer que nossos filhos tenham porvir, tenham território para viver”, emendou Luana Kaingang, da Fala dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul). “Não só os nossos filhos, mas os de vocês também.”
Entre discursos, os alto-falantes enchiam o envolvente com os sons de chuva e pássaros da floresta amazônica. “Se a Amazônia tombar, o mundo cai”, disse Alana Manchineri, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).
A ativista indígena Ângela Kaxuyana fez o último oração da noite. “O meu povo foi arrancado de seu território tradicional pelo Estado brasiliano. Minha família foi obrigada a viver no território dos inimigos, aprender a vida dos outros e viver a vida dos outros. A guerra continua, mas nós, povos indígenas, escolhemos lutar pela vida.”
Todos os líderes indígenas subiram ao palco com bandeiras – até uma do anime One Piece, usada em protestos recentes do mundo todo (porquê no Nepal) – e uma tira com o slogan da noite, “a resposta somos nós”. Depois disso, era hora do oração músico.
As letras do Massive Attack não são francamente políticas, mas o telão ajudava a dar o tom da noite: antes dos músicos entrarem no palco, diversas manchetes sobre a COP30 eram exibidas em subida velocidade. O ritmo frenético das projeções contrastava com as batidas graves e densas do trip hop.
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A margem entrou no palco para sua última apresentação da turnê pela América do Sul, que também passou por Bogotá, Buenos Aires e Santiago. Apesar da valor dos samples nas músicas, quase tudo era tocado ao vivo, com músicos equipados de sintetizadores, insignificante e guitarra entre dois bateristas nas extremidades do palco.
Quando 3D e Daddy G não estavam fazendo rap, eles levavam convidados para ajudar nos vocais. Junto deles no Brasil estavam Horace Andy (cantor de reggae jamaicano que aparece em todos os álbuns do Massive Attack), a cantora inglesa Deborah Miller (que ajudou a trovar o hit “Unfinished Sympathy”) e a escocesa Elizabeth Fraser (mais famosa por ser a voz angelical primeiro da margem Cocteau Twins).
Na primeira vez que subiu ao palco, Fraser começou a trovar “Song to the Siren”, música folk de Tim Buckley que a cantora gravou em 1983 com a margem This Mortal Coil. No telão, imagens de Gaza e Ucrânia devastadas por bombas se misturavam a cenas do filme Orfeu, de Jean Cocteau.
Quem produziu muitos dos vídeos para o telão foi o jornalista britânico Adam Curtis, documentarista da BBC que cria filmes com imagens de registo da emissora e histórias complexas que misturam psicologia, sociologia e história. Camarada da margem, Curtis ajudou a dar sustância para os argumentos políticos do show, exibindo mini-documentários sobre teorias da conspiração e neocolonialismo enquanto o Massive Attack toca, com todos os textos traduzidos para o português.
A plateia se empolgou com a união de arte e política, com gritos de “free Palestine” (“Palestina livre”, em português) ecoando pelo auditório enquanto a bandeira do país era projetada detrás dos músicos. Desde 2003, o Massive Attack faz secção de um boicote cultural a Israel em solidariedade com os povos palestinos e se recusa a fazer shows por lá.
No caso do Massive Attack, a preocupação política e ambiental guia todos os aspectos do espetáculo. Eles são responsáveis por gerar o “ACT1.5”, manual de práticas sustentáveis para produzir shows feito com ajuda do núcleo de pesquisa britânico Tyndall, que eles seguem à risca desde 2024. Em entrevista para a Folha de S.Paulo, 3D disse que foi fácil executar os parâmetros no Brasil, por pretexto da vontade renovável rico e do transporte público de São Paulo.
Quando eu entrevistei Adam Curtis em 2024, para o Le Monde Diplomatique Brasil, ele disse que a arte pode ser boa para descrever o mundo, mas que é o jornalismo que realmente pode ajudar as pessoas a transformar a verdade, quando “reporta as coisas que são muito ruins para as pessoas” e ajuda elas a terem raiva e pressionar pela mudança.
Não à toa, o show também teve seu momento jornalístico: durante “Safe from Harm”, a primeira tira do primeiro álbum da margem, o telão exibia dados precisos sobre a devastação da Amazônia e os impactos causados no clima mundial.
A apresentação do Massive Attack acabou perto das 00h, sem bis. Para a última música, o telão foi desligado, as luzes reduzidas ao precípuo e a plateia se empolgou com “Teardrop”, a melodia mais famosa da margem. A voz de Elizabeth Fraser parecia trespassar direto da gravação de 27 anos detrás e a música elevou os fãs, que pareciam trespassar do auditório esperançosos. Talvez a resposta realmente seja coletiva.
Numa das primeiras músicas do show, o telão ficou repleto de perguntas, que são trocadas em poucos segundos. “A arte é a peta que revela a verdade?” foi uma delas. A projeção não apresentou uma resposta imediatamente, mas a sentimento que fica é que o show do Massive Attack respondeu “sim”.
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