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É possível acabar com os testes em animais?

Voz do Sertão
Redação: Voz do Sertão 21/11/2025 às 09:51 · Atualizado há 22 horas
É possível acabar com os testes em animais?
Foto: Reprodução / Arquivo
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um laboratório taciturno, entre fileiras de gaiolas metálicas, um camundongo branco é pesado e catalogado. Ele nunca verá o Sol nem deixará a jaula. Foi criado para um único propósito: testar se uma novidade substância é segura para humanos. Nasceu para morrer.

O seu corpo pequeno e anônimo move uma engrenagem que sustenta a ciência há séculos. Todos os dias, animais participam de estudos que antecedem a chegada de medicamentos, vacinas, cosméticos e agrotóxicos ao mercado.

Porquê testar se determinado resultado justificação cancro? Expondo camundongos a essa substância por toda a vida. Porquê verificar a compatibilidade de implantes? Colocando próteses e válvulas cardíacas em porcos. E a eficiência de uma vacina? Imunizando macacos – e observando sua resistência ao patógeno.

Hoje, estima-se que 115 milhões de animais sejam usados todos os anos em atividades científicas pelo mundo. Mas, finalmente: até que ponto é admissível subordinar esses seres a procedimentos que, por vezes, não seriam moralmente toleráveis em humanos?

Não só: testes em animais nem sempre reproduzem com precisão o funcionamento do corpo humano. Mesmo compartilhando semelhanças biológicas, as diferenças entre espécies são profundas. “O varão não é um rato de 70 quilos”, disse ao New York Times Thomas Hartung, toxicologista da Universidade Johns Hopkins. 

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Em 2004, a FDA (a Anvisa dos EUA) estimou que 92% dos fármacos que passam da período pré-clínica (que incluem animais) não chegam ao mercado devido à falta de eficiência e problemas de segurança nos testes com os bichos. Mesmo com esforços para melhorar as metodologias, a taxa de nequice saltou para 96%.

“É provável que a pesquisa com animais seja, no universal, mais custosa e prejudicial do que benéfica para a saúde humana”, escreveu a neurologista Aysha Akhtar, membro do Núcleo de Moral Bicho de Oxford, em um cláusula sobre o tema (1). “Seria melhor direcionar esses recursos para o desenvolvimento de tecnologias mais precisas e baseadas no ser humano.”

É em meio a esse debate ético e científico que se encaixam os chamados métodos alternativos, ou New Approach Methodologies (NAMs): técnicas que buscam reproduzir experimentos tradicionais sem animais, com maior precisão e menor sofrimento.

A teoria não é novidade. Em 1959, os zoólogos William Russell e Rex Burch formularam as bases para esse movimento, num noção batizado de “3Rs”: Replacement (substituição de animais sempre que provável), Reduction (uso do menor número necessário) e Refinement (aperfeiçoamento dos métodos para minimizar dor e estresse). Mas foi só nas últimas décadas que o progresso tecnológico permitiu às NAMs lucrar espaço dentro dos laboratórios.

Em julho, o presidente Lula sancionou uma lei que proíbe o uso de animais em testes para cosméticos, perfumes e produtos de higiene. É um setor com estratégias interessantes de substituição (falaremos sobre elas em breve). Mas será que outras áreas estão prontas para largar os bichinhos? É o que veremos nos próximos parágrafos.

CAMUNDONGO (Mus musculus): espécie mais usada em pesquisas biomédicas e testes toxicológicos. São escolhidos por sua genética muito conhecida e facilidade de manejo. (Studio Oz/Superinteressante)
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Do prelúdios

Na Grécia Antiga, Aristóteles observava diferentes espécies em procura de padrões que explicassem o funcionamento do corpo. Isso ajudou a formar as bases da anatomia, mas também consolidou uma jerarquia entre os seres vivos: para ele, os animais não tinham logos (a razão) e, portanto, existiriam para servir aos humanos.

Durante o Poderio Romano, o médico Galeno de Pérgamo ampliou esse legado. Ele dissecava macacos e porcos ainda vivos para estudar o sistema nervoso e a circulação. 

Com a expansão do cristianismo, o foco do conhecimento mudou. O estudo da natureza deu lugar à teologia, e a dissecação bicho passou a ser vista com suspeição moral. 

Na chamada Idade de Ouro Islâmica (entre os séculos 8 e 13), médicos, porquê Avenzoar e Ibn al-Nafis, retomaram o estudo da anatomia. Nesse período, também surgiram os primeiros testes de toxicidade: substâncias eram administradas a macacos e outros animais para medir seus efeitos antes do uso em humanos.

No Renascimento, a curiosidade sobre o corpo humano voltou ao núcleo das ciências. Em 1543, Andreas Vesalius publicou De Humani Corporis Fabrica, obra que revolucionou a anatomia ao se fundar na reparo direta de cadáveres e animais. Pouco depois, William Harvey demonstrou, por meio de experimentos em bichos, que o sangue circulava continuamente pelo corpo, impulsionado pelo coração.

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A partir do século 17, o debate filosófico começou a influenciar a moral da experimentação. O filósofo René Descartes via os animais porquê “autômatos” – máquinas sem psique ou sensibilidade –, teoria que serviu para justificar práticas cruéis. Outros pensadores, porquê Baruch Espinosa e John Locke, discordaram: reconheciam que os animais sentiam dor e mereciam consideração moral.

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Em 1789, o filósofo inglês Jeremy Bentham formulou uma das reflexões mais célebres sobre o tema: “A questão não é se eles pensam ou falam. A questão é: eles sofrem?”. 

A partir do século 19, a pesquisa médica passou a depender cada vez mais de testes com animais – um movimento reforçado pela publicação de A Origem das Espécies (1859), de Charles Darwin, que evidenciou a proximidade evolutiva entre humanos e outras espécies.

Poucos anos depois, o médico galicismo Claude Bernard consolidou o uso sistemático de animais em laboratório. Em meio a epidemias de tuberculose, tifo e difteria, Bernard afirmava que curas humanas poderiam ser descobertas em outras espécies. Para isso, dissecava cães vivos – inclusive o da própria vivenda. “O fisiologista não é um varão do mundo”, escreveu. “Não ouve os gritos dos animais, não vê o sangue que se alastra. Só vê a teoria.” 

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O uso dos animais por Bernard e outros cientistas com pensamento similar provocaram repulsa pública e deram origem às primeiras leis de proteção bicho, porquê o Cruelty to Animals Act, validado no Reino Unificado em 1876. Anos depois, Louis Pasteur – um dos fundadores da microbiologia moderna – passou a empregar anestesia e introduziu o chamado “ponto final humanitário”, que consiste em sacrificar o bicho quando o sofrimento se torna extremo.

Hoje, há padrões internacionais que norteiam as legislações de cada país para os testes em animais. O noção de “bicho”, vale proferir, varia. Em universal, unicamente vertebrados são protegidos (insetos, por exemplo, ficam de fora).

O Brasil tem um dos sistemas mais organizados da América Latina para controlar a experimentação científica com animais, resultado de uma regulação que começou a se firmar há pouco mais de 15 anos. 

Imagem, de tom esverdeado, projetando a sombra de um coelho na parede. Em primeiro plano, vê-se, um frasco conta gotas de vidro.
Coelho (Oryctolagus cuniculus: usado historicamente em avaliações de irritação de pele e olhos. (Studio Oz/Superinteressante)

Quintal de vivenda

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Por cá, a Lei de Crimes Ambientais, de 1998, já previa a punição para quem realizasse testes cruéis e dolorosos em animais vivos (caso houvesse métodos alternativos). Mas o grande marco nessa história foi a Lei Arouca, de 2008. Ela definiu princípios éticos, exigiu condições mínimas de bem-estar e restringiu os experimentos a instituições autorizadas. 

Dessa lei nasceram os dois pilares do atual sistema: o Recomendação Pátrio de Controle de Experimentação Bicho (Concea) e as Comissões de Moral no Uso de Animais (Ceuas).

O Concea, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), é responsável por definir as regras sobre bem-estar, manejo, espécies permitidas, infraestrutura e métodos alternativos.

Já as Ceuas analisam cada projeto de pesquisa de universidades, laboratórios e empresas: quantos animais serão usados, se esse número tem justificativa, quais procedimentos serão aplicados e quais as medidas para reduzir dor e sofrimento – além de verificar se há alternativas disponíveis. 

Segundo o Concea, entre 2019 e 2023 foram utilizados 11,39 milhões de animais em atividades científicas e educacionais no Brasil. Do totalidade, 96% estavam ligados a projetos de pesquisa e 4% a práticas de ensino. 

Nas pesquisas brasileiras, aves (33,7%), peixes (25,9%) e roedores (17,7%) somam quase 80% dos animais usados. No ensino, predominam as aves (52%), seguidas de grandes ruminantes (13%) e peixes (10%). 

As aves (porquê galinhas domésticas e codornas japonesas) lideram por refletirem o perfil das atividades científicas e educacionais, que incluem aulas práticas e pesquisas agropecuárias. Muitas são unicamente observadas, mas ainda assim entram na conta. Elas são usadas em estudos de reprodução, nutrição e bem-estar. Seus ovos servem porquê protótipo clássico para observar o desenvolvimento de órgãos em tempo real.

Os peixes estão em segundo lugar e são empregados em testes de poluição, toxicologia e genética. O peixe-zebra é usado pelos seus embriões transparentes, que facilitam observar, no microscópio, a formação de órgãos e sistemas. A tilápia, por sua vez, aparece em pesquisas sobre regeneração de pele e biomateriais.

Roedores porquê camundongos e ratos pegam o bronze – mas, no contextura global, lideram as pesquisas. O tamanho pequeno, o fácil manejo e a reprodução rápida os tornam ideais para uma gama de pesquisas biomédicas, farmacológicas e neurológicas.

Entre os grandes mamíferos, bovinos, ovinos e equinos integram pesquisas em reprodução e imunologia. Cavalos são essenciais para soros antiofídicos, antitetânicos e antirrábicos em instituições porquê o Butantan e a Fiocruz. São animais com muito sangue (murado de 40 litros), que toleram pequenas doses de toxinas e produzem grandes quantidades de anticorpos, o que permite obter plasma suficiente e seguro para a fabricação desses imunizantes.

Antes de chegarem aos laboratórios, a maioria dos bichos passa por biotérios. Trata-se de centros ligados a universidades, institutos ou empresas que criam e fornecem espécies padronizadas para pesquisa. 

Nos biotérios, tudo é controlado: temperatura, umidade, rumor, sustento – e, evidente, a linhagem genética dos bichinhos. O objetivo é reduzir interferências externas e prometer resultados reprodutíveis. 

Os testes com animais ocorrem, em universal, na período pré-clínica de um estudo. Essa lanço vem depois de anos de pesquisa básica e laboratorial, quando cientistas identificam, por exemplo, uma molécula promissora e realizam testes in vitro (em células e tecidos) ou ex vivo (em órgãos mantidos fora do corpo) para calcular se ela é segura e tem potencial terapêutico.

Quando os resultados são promissores, passa-se para os modelos animais, que permitem observar a ação de determinada substância no corpo. Se o constituído se mostra seguro e eficiente, o estudo avança para a período clínica, feita com voluntários humanos.

Imagem, de tom esverdeado, projetando a sombra de um peixe na parede. Em primeiro plano, vê-se, quatro ampolas de vidro.
PEIXE-ZEBRA (Danio rerio): pequeno e transparente, permite observar o desenvolvimento de órgãos em tempo real. O seu uso é um dos que mais crescem no Brasil. (Studio Oz/Superinteressante)

Indispensáveis, por ora

Porquê dissemos lá detrás, o setor de cosméticos, voltado para efeitos locais porquê irritação da pele e dos olhos, é o que mais tem conseguido substituir esses testes por métodos alternativos. Mas a verdade é que ele ainda é uma exceção dentro da ciência.

Animais ainda são amplamente usados em pesquisas farmacêuticas, de vacinas, veterinárias, químicas, alimentícias e agrícolas. Isso porque muitos fenômenos biológicos não podem ser reproduzidos integralmente fora de um ser vivo. Processos porquê o caminho de uma substância dentro do corpo (aspiração, distribuição, metabolismo e secreção) envolvem o trabalho conjunto de órgãos e sistemas. 

Pense nas variáveis envolvidas ao desenvolver um remédio. Ele será absorvido no tripa, processado no fígado e eliminado pelos rins. Também é preciso considerar a ação de hormônios, a idade do paciente, seus hábitos alimentares e a formação genética. Nenhum protótipo computacional ou cultura de células reproduz todas essas interações – ainda.

Certos efeitos também dependem do tempo e do funcionamento conjunto do corpo, porquê inflamações, respostas imunes ou alterações metabólicas. Por isso, áreas porquê farmacologia e segurança química ainda recorrem a animais para prever porquê uma substância afeta o organização inteiro. 

Agora, se ainda não é provável renuir dos testes, portanto porquê prometer o bem-estar dos bichos?

A legislação brasileira determina que o sofrimento deve ser minimizado sempre que provável. Procedimentos invasivos exigem anestesia e monitoramento permanente. Cada protocolo deve prever o momento do sacrifício para evitarsofrimento irreversível. 

No laboratório, as condições ideais envolvem temperatura e iluminação controladas, sustento adequada e, quando provável, interação social. “Nenhum bicho nasceu para viver em uma caixa, mas há formas de amenizar o estresse”, diz o toxicologista Octavio Presgrave, coordenador do Núcleo Brasílico para a Validação de Métodos Alternativos (BraCVAM).

“Cada espécie tem suas preferências: camundongos recebem tubos de PVC e papel para rasgar; coelhos ganham feno; primatas brincam com bolas com furos e cordas para se pendurarem.” É uma preocupação moral e científica: animais doentes, estressados ou assustados produzem resultados menos confiáveis. 

Ainda assim, entidades de proteção bicho e segmento da comunidade científica questionam esse retrato, já que a dor é muitas vezes inevitável e nem sempre mensurável.

Durante décadas, críticas ao modo porquê lidamos com os animais foram tratadas porquê “reações emocionais”, sem base teórica. Isso começou a mudar em 1975, com o livro Libertação Bicho, do filósofo australiano Peter Singer. A obra introduziu o noção de “especismo” – a teoria de que discriminar por espécie é tão injusto quanto por raça ou gênero.

Singer argumentou que, se um ser sente dor, esse sofrimento deve importar moralmente. Seu trabalho ajudou a transformar o debate sobre bem-estar bicho, antes restrito à condolência, em uma discussão moral e política. E deu gás para um sem-fim de ações de ativismo. 

No Brasil, o caso mais emblemático aconteceu em 2013, no Instituto Royal, em São Roque (SP). O laboratório, que recebia recursos públicos para pesquisas toxicológicas com cães, coelhos e roedores, virou escopo de investigação do Ministério Público no ano anterior depois a denúncia de um ex-funcionário sobre as condições dos animais que viviam ali.

Na madrugada do dia 17 de outubro, manifestantes invadiram o prédio da Royal e retiraram 178 cachorros beagle e alguns coelhos. Roedores usados em experimentos, porém, ficaram para trás.

A repercussão foi pátrio. Na Câmara, criou-se uma percentagem externa para explorar o incidente. Relatos colhidos por parlamentares e por entidades protetoras de animais indicavam canis apertados, pouco contato com luz solar e cães estressados.

O caso, porém, não resultou em ações penais. Para representantes do Concea, o instituto seguia normas oficiais, e a invasão prejudicou pesquisas consideradas relevantes, que foram transferidas para o exterior.

Para setores da proteção bicho, o incidente marcou uma viradela social ao expor a experimentação com cães e mobilizar a opinião pública. O que nos leva ao próximo capítulo dessa história: os métodos alternativos. Vamos entender porquê eles funcionam – e onde já é provável usá-los.

Imagem, de tom esverdeado, projetando a sombra de um gato na parede. Em primeiro plano, vê-se, um estetoscópio e um estojo branco.
CACHORRO (Canis familiaris): usado em testes de fármacos cardiovasculares e veterinários. Beagles são a raça mais geral, por seu temperamento dócil e previsível. (Studio Oz/Superinteressante)

Coelho, resfolgar

Todo método recíproco passa por um processo de validação que leva no mínimo dois anos e envolve várias etapas, da concepção em laboratório ao reconhecimento de órgãos internacionais. 

Tudo começa quando um grupo de pesquisa desenvolve o novo método. A partir daí, o BraCVAM coordena um estudo interlaboratorial, com escora da Rede Pátrio de Métodos Alternativos (Renama), ligada ao MCTI. O objetivo é verificar se o método funciona e se outros laboratórios conseguem reproduzir os mesmos resultados. 

Feita a coleta de evidências sólidas, o método passa pelo crivo de órgãos regulatórios nacionais, porquê a Anvisa. Só portanto pode ser submetido à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que define as diretrizes internacionais para esses ensaios. 

Se tudo estiver nos trinques, ele entra no negócio de Mutual Acceptance of Data, que garante o reconhecimento reciprocamente dos resultados entre os países signatários (Brasil incluso). Ele serve para evitar testes repetidos – e açodar a substituição de animais. 

Entre as empresas de cosméticos que já adotam substitutos está o grupo L’Oréal, que produz no Brasil a pele reconstruída da Episkin, uma de suas empresas.

Em setembro, a Super visitou o Núcleo de Pesquisa e Inovação da L’Oréal na Ilhéu de Bom Jesus, no Rio de Janeiro. Lá, conhecemos o tecido: uma pele humana cultivada em laboratório a partir de fragmentos descartados de cirurgias plásticas, com consentimento dos pacientes.

Em um mês, o material adquire as quatro camadas da epiderme. Em seguida ser enviada aos usuários, dura unicamente uma semana, exigindo transporte rápido e armazenamento rigoroso.

Tabela, em fundo verde escuro, com dicas para saber se um produto é cruelty free.
(Arte/Superinteressante)

A OCDE reconhece a pele reconstruída porquê método solene para testes de irritação e corrosão cutânea. A da Episkin foi uma das primeiras a serem validadas e comercializadas. Hoje, a empresa produz mais de 100 milénio amostras por ano no mundo.

Historicamente, os testes eram feitos em coelhos. Raspava-se o pelo do bicho para empregar a substância e observar se a pele ficava vermelha. “Era subjetivo e, eticamente, problemático”, diz Vanja Dakic, gerente de métodos alternativos da Episkin Brasil. Nos testes oculares, os produtos eram diretamente aplicados nos olhos dos bichos – que, ao final das pesquisas, eram sacrificados. 

A Episkin também fabrica modelos de córnea, usados em testes de colírios, protetores solares e antibióticos. Há ainda versões, na sede na França, para reconstruir tecidos orais, gengivais e vaginais, além de peles com diferentes pigmentações e versões que incorporam células do sistema imunológico. 

Imagem, de tom esverdeado, projetando a sombra de um macaco na parede. Em primeiro plano, vê-se, um cubo mágico torcido.
MACACO (Macaca fascicularis): empregado em pesquisas neurológicas e farmacêuticas de ponta. (Studio Oz/Superinteressante)

Magnificente Chip Novo

Os tecidos reconstruídos, sejam da Episkin, sejam de outras marcas, já são aplicados por outros setores além da cosmética, porquê os de brinquedos, dispositivos médicos e agroquímicos. Mas existem outros métodos alternativos, que tentam deslanchar em áreas ainda mais complexas, porquê a farmacologia. 

Entre eles estão os órgãos em chip: microdispositivos transparentes, do tamanho de uma lâmina de microscópio, que simulam tecidos humanos e a circulação sanguínea, permitindo observar reações em tempo real. 

O nome é pela mera semelhança de formato – eles não tem nenhum componente eletrônico ou Windows instalado. Mas, finalmente, para que servem?

Nos testes tradicionais em laboratório, as células são cultivadas em placas estáticas, dentro de um líquido que não se move. Nesse envolvente paradão, as trocas entre as células são muito mais lentas.

Já nos órgãos em chip, o meio líquido circula por microcanais, imitando o fluxo sanguíneo. Esse movimento permanente melhora a oxigenação e a troca de sinais químicos entre as células, o que faz com que elas se comportem de forma muito mais próxima da veras humana. 

“É porquê trespassar da internet discada e principiar a usar margem larga”, explica Ana Carolina Figueira, pesquisadora do Núcleo Pátrio de Pesquisa em Virilidade e Materiais (CNPEM) e do Laboratório Pátrio de Biociências (LNBio).

Esses chips formam tecidos com funções específicas. No LNBio, pesquisadores desenvolvem modelos para testar toxicidade e estudar doenças. “Fizemos um chip com pele, tripa e fígado, em parceria com a Natureza. Assim, é provável testar substâncias aplicadas na pele ou ingeridas e observar, nos minifígados, os efeitos metabólicos e tóxicos.” Cada chip contém murado de 20 milénio microfígados mantidos em condições controladas dentro de uma estufa.

Os desafios ainda são grandes. Cada tipo celular tem exigências de cultivo diferentes, e integrá-los no mesmo meio é difícil. “Um fígado dura 35 dias; uma pele, dez. É preciso lastrar os tempos experimentais”, diz Figueira. Mesmo assim, os sistemas já permitem reproduzir doenças. “Combinamos tecido gordo inflamado e fígado e obtivemos um protótipo de esteatose hepática – a famosa gordura no fígado. As células inflamaram do mesmo jeito que observamos em pacientes.”

Imagem, de tom esverdeado, projetando a sombra de um cavalo na parede. Em primeiro plano, vê-se, duas ampolas de vidro e uma seringa.
CAVALO (Equus caballus): nascente de soros e vacinas – o plasma do sangue (que é onde ficam os anticorpos) serve para a produção de imunizantes. (Studio Oz/Superinteressante)

Apesar do potencial, a tecnologia ainda atravessa a período de transição entre o laboratório e a indústria. “Hoje, o grande duelo é padronizar os ensaios e prometer que laboratórios diferentes obtenham os mesmos resultados. A Anvisa já aceita dados de órgãos em chip, desde que sejam muito documentados, mas ainda não há um guia regulatório específico”, conta Figueira. Na Europa, farmacêuticas porquê Sanofi, Roche, Pfizer e GlaxoSmithKline já incorporaram esses sistemas às rotinas de pesquisa.

O dispêndio é outro entrave: um chip europeu custa murado de 400 euros, e as bombas de circulação para imitar a manante sanguínea, até 50 milénio euros. “Mas grupos no Brasil já desenvolvem versões simplificadas por menos de dez reais”, diz a pesquisadora.

Octavio Presgrave, da BraCVAM, considera o método “o passo mais concreto rumo à substituição totalidade de animais”. Segundo ele, ainda não é provável reunir todos os órgãos em um único chip, “mas é questão de tempo”. 

“No horizonte, será provável usar células de um quidam para montar versões miniaturizadas de seus órgãos e testar terapias personalizadas. Para quem não acompanha de perto, parece ficção científica.”

Mas, para que isso se concretize, é preciso validar e financiar novos métodos. No Brasil, o principal tropeço é a falta de investimento contínuo.

“Não temos editais dedicados a essa superfície há anos. A ciência avança, mas os recursos não acompanham”, diz Marize Valadares, professora de toxicologia na Universidade Federalista de Goiás (UFG). Essas tecnologias exigem laboratórios equipados, insumos caros e equipes multidisciplinares. O último edital específico, porém, foi lançado em 2016.

O principal fundo de fomento do MCTI ficou contigenciado por anos. A situação só mudou em 2022, “o que nos permitiu planejar editais contínuos. A expectativa é lançar ainda neste ano uma novidade chamada para financiar projetos da Renama”, diz Thiago Moraes, coordenador-geral de Ciências da Saúde, Biotecnológicas e Agrárias do ministério. 

Laboratórios ainda vivem ciclos de “financiamento em soluços” – breves períodos de escora seguidos por longas paralisações. “A gente inicia um processo de validação – que leva tempo – e, quando o recurso acaba, tudo se perde. O estudo precisa principiar do zero”, conta Valadares. 

Mesmo com centros de primazia, o Brasil ainda depende de protocolos e insumos estrangeiros. Para Kristie Sullivan, do Institute for In Vitro Sciences (IIVS), “não se trata de uma barreira científica, e sim funcional e política”.

A emprego das normas também é desigual. “Há resoluções que tornam obrigatórios métodos alternativos, mas alguns laboratórios ainda usam animais”, diz Paola Cappelletti, supervisora do laboratório de toxicologia do Banco de Células do Rio de Janeiro (BCRJ). “Falta recurso para fiscalização e divulgação para que a população saiba denunciar.” 

Moraes reforça que o controle depende de pronunciação: “O ministério financia, o Concea normatiza, mas a fiscalização é compartilhada entre ministérios e comissões”.

No termo, o entrave é estrutural: falta investimento, coordenação e vontade política. “O Brasil tem um potencial enorme”, diz Luisa Braga, coordenadora do Concea. “Não faltam cabeças pensantes. O que falta é definição de verbas.”

Não estamos preparados para largar o uso de animais em testes científicos. Mas toda iniciativa para desenvolver métodos alternativos, via incentivo público ou privado, é mais do que bem-vinda. As pesquisas, finalmente, podem se tornar mais precisas – e, para os animais, significa estar um passo mais próximo da tão merecida aposentadoria. 

Natividade:  (1) cláusula “The flaws and human harms of bicho experimentation”.

Agradecimentos: Ana Carolina Batista, supervisora do setor BioBanco do BCRJ; Antonio Monteiro, presidente, diretor-geral e curador do BCRJ; Ariadne Morais, diretora de Assuntos Regulatórios & Inovação da ABIHPEC; Cristina Garcia, diretora de Pesquisa Avançada e Notícia Científica (América Latina) em Episkin; Letícia Morais Bueno de Camargo, biomédica e doutora em Farmacologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP; Pascale Mora, diretora de Notícia Científica de P&D da L’Oréal.

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